Um Conselho Desastrado


Rui Rocha,

O Conselho de Estado é o órgão de consulta do Presidente da República. Espera-se dos seus membros que respeitem o papel que a democracia lhes destina e que actuem como reserva política da Nação. Embora a Constituição preveja a divulgação pública dos pareceres do Conselho de Estado, percebe-se que exista um perímetro de protecção do teor das discussões ali mantidas. Em resumo, supõe-se que na sala onde decorrem as reuniões do Conselho de Estado entrem Homens-Bons. E que cada um deles saiba entrar e calar. Ora, foi exactamente isso que não aconteceu no que diz respeito ao empréstimo intercalar. Primeiro, surgiu uma fuga de informação. Depois, na entrevista de ontem ao Primeiro-Ministro, a pergunta foi-lhe colocada. E José Sócrates devia ter-se recusado a responder, atendendo ao dever de reserva a que está obrigado. Um simples “não comento assuntos tratados em Conselho de Estado” teria bastado para matar a questão. Sobraria o rumor, mas a este, porque o era, não poderia ser atribuído qualquer valor. Todavia, Sócrates optou, mal, por negar que o assunto tivesse sido analisado. Cabe-lhe, por isso, a responsabilidade de ter aberto a discussão. Do ponto de vista da violação do sigilo, vale tanto afirmar a existência da discussão como negá-la. E foi Sócrates o primeiro a fazê-lo. A resposta de Bagão Félix poderá ser questionável, mas deve ser analisada no contexto do comportamento de Sócrates que a precedeu. O que se seguiu, já é conhecido. Até ao momento, três Conselheiros dizem que o assunto não esteve na mesa, dois dizem que sim e muitos outros continuam em silêncio. Pelo meio, um Conselheiro (o Primeiro-Ministro) foi acusado de mentir e outro de ser delator. Chegados a este ponto, não vejo outra possibilidade que não seja a divulgação do conteúdo da reunião. Manifestamente, alguns Conselheiros de Estado estão a mentir. A persistência da dúvida afecta irremediavelmente a respeitabilidade do órgão. A única possibilidade de a preservar é identificar os que estão a faltar à verdade. A esses não restará, a bem do que ainda resta da dignidade da Nação, outra alternativa que não seja renunciar ao cargo.

19 comentários em “Um Conselho Desastrado”

  1. Não há nada de novo debaixo do sol… Existiu um precedente célebre, a propósito da questão de Timor, há cerca de 20 anos, quando se registou uma troca pública de argumentos entre Álvaro Cunhal e Cavaco Silva. A solução passou, tempos depois, pela divulgação de um trecho da acta da reunião do Conselho de Estado, precisamente na parte que estava a ser alvo de polémica.

  2. Eu tenho 11 anos e a stora já explicou o que era esse tal conselho de estado mas eu não percebi lá muito bem. Perguntei depois à minha mãe e fiquei na mesma e ela zangada por eu não ter percebido népia. Há bocado, ela estava na net e disse-me, anda cá pergunta a este senhor pra que serve o tal conselho de estado vais ver que agora percebes. E prontros aqui estou a perguntar-lhes afinal pro que serve? É que eu nunca fui ao conselho de estado, ao parlamento já lá fui com a stora e até gostei.

    Obrigado e já agora como se faz para ir assistir ao conselho?

    1. Eheheh. Bem Artur, para simplificar, e tal como estão as coisas, o Conselho de Estado é órgão onde tu podes chegar se te portares bastante mal nos próximos anos.

  3. Sócrates GOVERNA o país, pode dizer o que se passou.

    Nada justifica o resto.

    Discrição. Assim, liberdade na discussão, no conselho.
    Bagão Félix esteve mal.

    Quanto a seriedade: independentemente do “diz, disse, não disse, foi dito” (passa-se em todas as salas de audiência, em todas as reuniões, nas esplanadas deste paíseco) o óbvio vê-se por actos concretos ao fim de seis anos…

    1. Não estamos de acordo, Torcato. Nem quanto ao facto de Sócrates governar o país (não basta usar um chapeuzinho de primeiro-ministro para se dizer que se governa) nem quanto ao facto de esse chapéu lhe dar o direito de dizer o que quiser.

      1. Rui,

        Governa. Mal ou bem, é outra questão.
        Num assunto de emergência económica, o tema diz respeito ao governo, e ele é o chefe de governo. Pena nossa há 5 anos…

  4. Meu caro Rui Correia,

    A “respeitabilidade” do órgão Conselho de Estado foi irremediavelmente comprometida/manchada/atingida por Cavaco Silva ao manter Dias Loureiro!
    Mas o responsável é José Sócrates!

    1. Cara Anónima Ferreira, não me parece que a conduta individual de um Conselheiro de Estado, por grave que seja, se possa comparar à divulgação pública de factos sujeitos a sigilo e à troca de insultos a que se assistiu por parte de vários Conselheiros.

      1. Caro Rui Rocha,

        Mantendo o que disse, peço que me desculpe a simbiose que fiz entre o meu caro amigo e o Pedro Correia: Rui Correia.
        As vergonhas a que vimos assistindo – também – no Conselho de Estado têm destes efeitos secundários: perturbam a boa e nobre gente (em que modestamente me incluo).
        Um abraço

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