Ao contrário de José Matos Correia, eu não considero que a decisão do governo socialista de nacionalizar o BPN não tenha sido um erro. Por isso, não compreendo as dúvidas que ele agora tem quanto ao que se seguiu nos últimos três anos. E menos compreendo ainda a decisão de venda do BPN pelo actual Governo, nas condições em que ela aconteceu, tendo o Estado de meter mais 550 milhões para os patrões do reformado Mira Amaral ficarem com o empecilho.
Tudo continua a ser muito nebuloso, como ontem à noite se ouviu e viu na SIC-N, e hoje se confirmou no Parlamento, o que só por si explica a incomodidade do entrevistador Mário Crespo de cada vez que João Soares atirava uma farpa, como por exemplo quando se referia à forma como Isabel dos Santos construiu a sua fortuna ou à famigerada Urbanização da Coelha onde o Presidente da República também se instalou.
Para já, registo apenas que os esclarecimentos prestados pela secretária de Estado do Tesouro não foram de molde a dissiparem as dúvidas, tomando, todavia, boa nota das suas declarações quando afirmou que “será possível recuperar parte dos 2,4 mil milhões“, muito embora a senhora não tenha dito, como começa a ser corriqueiro com o “rigor” a que este Governo já nos está a habituar, quanto dessa parte será recuperado, se muito ou se pouco, nem se tal ocorrerá ainda durante este século.
Analisando friamente esta questão, e de forma resumida, aquilo que com verdade se poderá dizer é que independentemente da satisfação que é ver estancar a sangria, perderam o País e os contribuintes, mas entre estes houve alguns que perdendo muito pouco conseguiram ganhar muito: foram todos os que, de boa ou de má fé, voluntaria ou involuntariamente, muito embora eu não acredite no Pai Natal, conseguiram tirar partido das negociatas realizadas à sombra do BPN e da SLN, comprando e vendendo imóveis e acções ao senhor Oliveira e Costa e às sociedades em que ele e a sua pandilha “social-democrata” andavam metidos, beneficiando dos conhecimentos e das relações políticas anteriores, recebendo salários principescos, dividendos inexistentes e mordomias várias, e que agora se vão ficar a rir pela forma, que tem tanto de airosa quanto de nebulosa e de desastrada, como chega ao fim.
Os milhões que através dos “veículos” foram recebidos pelos “ingénuos” de boa e de má fé foram reais. Os que pagámos e estamos a pagar também. Os que um dia iremos receber é que me quer parecer, parafraseando o senhor Pinto da Costa, que serão “da treta”. Nada a que os portugueses não estejam lamentavelmente habituados.