
Começa a ser evidente que a democracia portuguesa se encontra à beira de colapso, estando a ser substituída por uma espécie de governo dos bancos, que ninguém elegeu, mas que estão verdadeiramente a ditar as cartas na política portuguesa. A forma como decorreu esta audição no parlamento é significativa. Depois de o Estado ter gasto mais de seis mil milhões de euros dos nossos impostos no BPN, vendeu-o por tuta e meia a outro banco, constando que até terá pago para ficarem com ele. Parece que a venda nessas condições era mais uma das imposições do Memorando da Troika. Mas, quando o Parlamento pede explicações sobre o negócio, o comprador permite-se tratar os deputados – que foram eleitos para representar os cidadãos – com uma enorme desconsideração, sugerindo que até lhe deviam estar muito agradecidos por ter comprado o Banco naquelas condições. Pergunto-me se em algum outro país do mundo seria possível um banqueiro tratar deputados assim.
Entretanto, a total incompetência que o Governo tem demonstrado na gestão das contas públicas é disfarçada com o argumento da “inevitabilidade”, aparecendo logo um coro de comentadores a entoar a mesma posição. Daniel Bessa já veio dizer que a decisão do Tribunal Constitucional apenas “precipitou” o alargamento dos cortes de subsídios ao privado, que já era “inevitável” face à evolução das contas públicas. Quanto à inevitabilidade, eu começo logo por perguntar se era inevitável a despesa gasta por Vítor Gaspar, logo que tomou posse, em criar um Conselho de Finanças Públicas e uma Estrutura de Acompanhamento dos Memorandos, quanto é que estes órgãos custam ao país, e por que razão nada fez até agora para reduzir o peso do Estado. E há outras contas que se podem fazer. O BPN foram pelo menos três anos de subsídios, os 12.000 milhões de euros que a troika nos deu para enterrar nos bancos são mais seis anos de subsídios. E tudo isto para os dirigentes desses bancos se permitirem falar assim aos deputados.
Os apoiantes desta política desastrosa e escandalosamente inconstitucional, e que insistem na sua “inevitabilidade”, talvez devessem responder a uma pergunta retórica. Se o Estado pode livremente confiscar salários e pensões, o que é que o impede de igualmente confiscar bancos?

E ao mesmo tempo o governo paga o subsídio de férias aos seus acessores, argumentando que é de lei, como se o dos restantes fosse ilegal. A mim cortaram-me parte do 13º e do subsídio de férias já em 2011, onde está a diferença? Eu explico, sou reformado, ganho menos do que todos esses acessores, a mim cortaram-me parte do subsídio de férias de 2011 e por inteiro o de 2012, a eles não, a diferença está na confiança política e partidária tout court, por muitas voltas que se dê. Assim já se compreende a defesa acirrada do governo que alguns dos seus pares faz neste blogue.
Uma vergonha!
Os cortes de salários e pensões são uma violência sem nome.O governo fala em cumprir os nossos compromissos e é o primeiro a desrespeitar aqueles que contraiu com os seus cidadãos.
os 12.000 milhões de euros que a troika nos deu para enterrar nos bancos
(1) A troica não nos “deu” esse dinheiro. Emprestou esse dinheiro ao Estado português, a uma certa taxa de juro.
(2) Esse dinheiro não foi “enterrado” nos bancos. Foi emprestado aos bancos. Emprestado, saliente-se, a uma taxa de juro bem superior àquela pela qual a troica no-lo emprestou. Ou seja, o Estado português fica a ganhar (juros) com o empréstimo. Aliás, é por esta razão que apenas dois bancos recorreram a esses fundos – os que puderam evitar fazê-lo, evitaram-no. Porque esse dinheiro sai caro aos bancos. Os bancos pagarão 7 ou 8% de juros ao ano por esse dinheiro, quando pagam apenas 4% ao ano por dinheiro que lhes seja emprestado pelos clientes.
Exactamente: a uma taxa de juro bastante elevada nos dois casos. E que estou convencido que nunca será paga. É por isso que falei em enterrar o dinheiro, embora reconheça que a imagem não é feliz, pois o dinheiro enterrado tem mais hipóteses de ser recuperado. Se bem me lembro, também nos disseram que o Estado não iria ter prejuízos com a nacionalização do BPN. Onde é que esse dinheiro lá vai.
E que estou convencido que nunca será paga. É por isso que falei em enterrar o dinheiro
Podia ter esclarecido no post que estava a escrever com base nas suas convicções quanto àquilo que acontecerá no futuro (i.e. que a taxa de juro nunca será paga), e não com base nos factos presentes e nos contratos assinados. Assim toda a gente teria entendido melhor.
Para bom entendedor meia palavra basta. E quanto aos factos presentes e aos contratos assinados, viu-se o seu valor no caso dos salários dos funcionários públicos e das pensões dos pensionistas.
Tem toda a razão com um pequeno senão: a ultima vez que o estado confiscou um banco, o BPN, essa “brincadeira” custou-nos, aos que pagam impostos e presumo seja o caso do ilustre autor do post, não seis mil milhões, mas mais de oito mil milhões. Com a agravante de quando o estado o confiscou as autoridades, refiro-me a Victor Constancio ex governador do Banco de Portugal, ter dito que o problema do BPN se resolveria com 485 milhões de euros. Entre 8000 milhões e 485 milhões, há uma enorme diferença, não acha? E com a agravante de o destino desse dinheiro estar no segredo dos deuses, para que é que serviu, e para onde foi.
Há no entanto outro pormenor no caso do BPN que me continua a intrigar: porque cargas de água é que o governo socialista nacionalizou(confiscou) o BPN, os prejuizos portanto, e deixou de fora a SLN onde se sabia que estavam os activos. Quer dizer, Socrates e Teixeira dos Santos por razões muito discutiveis serviram os ossos do BPN aos contribuintes portugueses numa bandeja de prata, mas deixaram os ladrões, porque é disso que se trata, ficarem com os muitos fillets mignons que por lá havia. Isto é que devia estar tambem a ser julgado no tribunal que está a julgar o Oliveira e Costa e mais meia duzia de pessoas, porque se quem admnistrou o BPN antes da nacionalização deve pagar pela má gestão que fez, os que admnistraram o banco após a nacionalização tambem deveriam responder pelo enorme sorvedouro de dinheiro publico em que transformaram o banco.
Meu caro, na minha opinião o grande assalto deu-se após a nacionalização do banco; mas os que o fizeram e ficaram com o dinheiro estão todos a rir-se, porque arranjaram os bodes expiatorios perfeitos. Repare que só se fala no ante-nacionalização, Oliveira e Costa, Dias Loureiro etc e tal, e no pós-nacionalização, este governo que estava obrigado a privatizar o BPN em dois meses.
Os quase tres anos em que se enterraram lá os tais 8000 milhões, é tabu.
O caso do BPN não foi um confisco, foi uma nacionalização de prejuízos, deixando os lucros para os privados. Coisa que eles muito agradeceram. E tenho um palpite que a recapitalização dos bancos com dinheiros públicos não vai ser muito diferente. Não percebo é por que é que os cidadãos têm que pagar isto.
Luís Leitão, desta feita, parece-me que o Alexandre está a ver bem o problema.
Quanto ao futuro, vamos a ver. Espero que o sr. não tenha razão.
Por acaso acho que tenho. Pense no seguinte. Se os bancos vão buscar dinheiro ao Estado é porque não o conseguem obter no mercado. E se o mercado não tem confiança para lhes emprestar dinheiro, por que é que o Estado deve lá aplicar um tostão que seja? Só o faz porque pode pedir esse dinheiro aos sacrificados do costume, os contribuintes e os seus funcionários e pensionistas, a quem depois acusa de estarem a viver acima das suas possibilidades. Quanto ao dinheiro emprestado, vai ver onde ele vai parar. Será que não chega o exemplo do BPN?
Creio que se está a referir aos 12.000 milhões de euros que a troica reservou, do empréstimo que nos fizeram, para capitalizar os bancos. Se assim for, sabe qual é a taxa de juro que o Estado se propõe cobrar aos bancos interessados? Quase chega a 10% ao ano. Uma exorbitância, parece-me, para quem limitou o valor dos juros que os Bancos podem pagar aos seus clientes depositantes, embora longe das taxas que algumas instituições de crédito cobram pelos créditos que concedem aos pequenos clientes, nalguns casos um autêntico roubo – à volta do 30%.
Portanto, os accionistas dos bancos, que aceitem ser capitalizados, correm o risco de sofrerem graves prejuízos, uma vez que o Estado, pelas condições que impõe, pode ter que os nacionalizar. E, se o fizer, vai fazê-lo por uma tuta e meia.
A verdade é que o mercado não lhes empresta um tostão, seja a que taxa de juro for. O dinheiro emprestado pela troika vai ser pago pelos contribuintes. Quanto aos accionistas, já perderam quase tudo. Veja o valor das acções dos bancos. Mais uma vez pergunto: para quê enterrar dinheiro lá?
Eu sei que o mercado não empresta. Mas onde é que os aforradores portugueses podem, então, aplicar as suas poupanças, poupanças que o Estado tem obrigação de estimular e defender?
Creio que não preconiza a extinção dos bancos que estejam descapitalizados.
De qualquer maneira, este é um dos assuntos em que é difícil ter uma discussão séria numa caixa de comentários. E assim sendo…
Desde que esta crise começou milhares de empresas foram à falência. Porque é o banco há-de ser o único negócio que não pode falir e tem que sobreviver à custa de reduções de salários e impostos sobre as famílias ? O argumento de que as pessoas deixam de ter onde aplicar as suas poupanças não faz sentido. Quando vão à falência os supermercados, também se deixa de poder comprar lá e não é por isso que o Estado vai lá pôr dinheiro.
Sim, eu também penso que os Bancos podem falir. Um ou outro, como deveria ter acontecido com o BPN. O que não pode falir é o sistema todo e, sobretudo, isso nunca deveria acontecer por culpa do Estado. Porque é como o Sr. diz, e bem, depois, para evitar que uma coisa destas aconteça, lá se vão os nossos impostos pelo buraco…
Penso que concordará que o Estado deve fomentar a poupança das famílias e, portanto, proteger os aforradores, utilizando esses fundos para fins produtivos, quer em investimentos públicos, quer privados. Sublinho produtivos.
Parece que em relação ao BPN estamos de acordo com o essencial.
Quanto ao seu palpite sobre a recapitalização dos bancos, é apenas isso, um palpite. Não sei se isso irá ou não acontecer, mas se acontecer, então é porque voltàmos ao 11 de março de 1975
Já há algum tempo que andamos a comportar-nos como em 1975. O fanatismo com que se adoptam medidas de engenharia social e o discurso culpabilizador para algumas categorias de cidadãos bem que me faz lembrar esses tempos.
Mais perguntas que aparecem na minha mente:
a) qual a necessidade de com tantos juristas na folha de pagamentos do Estado ser criada mais uma equipa para tratar da privatização de um canal da RTP?
b) as sumidades que nos governam não poderiam renegociar rápidamente os contratos das SCUT , já que está mais do que visto que aqueles foram muito mal feitos, para não dizer coisa pior?
Se fizessem isso era capaz de aliviar um pouco a carga que cai sempre em cima dos mesmos.
Tem toda a razão.
Bem sei que o que nos importa, a nós portugueses, é Portugal, mas o problema dos bancos é mundial e é a verdadeira origem deste descalabro. Não só pela famosa crise do sub prime americano, mas pelos empréstimos desenfreados, pelo estímulos inconscientes ao consumo, pelas contas-ordenado, pelos cartões de crédito, pelos créditos pessoais, pelo “compre hoje e comece a pagar no ano que vem”, pelo “junte no seu crédito à habitação a mobília, um carro e umas férias na República Domininaca”. Já o Fernando Pessoa achava que havia qualquer coisa com os banqueiros… http://www.cntgaliza.org/files/O_Banque iro_anarquista.pdf
É bem verdade. Mas, apesar da evidente culpa dos bancos, nem todas as pessoas estavam sobre-endivididadas. Muitas passaram a está-lo, perdendo a possibilidade de cumprir as suas obrigações quando o Estado cortou salários e lançou impostos extraordinários. O que o Estado fez foi transferir a sua própria bancarrota para os seus cidadãos.