Ilunga


Rui Rocha,

De acordo com vários estudos linguísticos internacionais, Ilunga, palavra do dialecto Tshiluba falado no sul da República Democrática do Congo, é uma das mais difíceis de traduzir. Pelo visto, Ilunga descreve a situação de uma pessoa que aceita um abuso uma primeira vez, tolera esse abuso uma segunda vez, mas está completamente indisponível para aceitar ou perdoar um terceiro abuso. Pois assim estamos. Pelo caminho que as coisas tomam, em breve precisaremos de uma palavra ainda mais complicada para a língua portuguesa. Aquela que, depois dos escândalos do BPP, do BPN e do BES, traduza a nossa incapacidade de tolerar um abuso mais que seja. E temo que depois precisemos ainda de outras palavras complicadíssimas de traduzir, à medida que forem abusando mais e mais.

19 comentários em “Ilunga”

  1. Mermão,

    mais difícil de traduzir e aplicar é: perdoarás até 70×7. Ao contrário do que possa parecer este número não significa excesso, mas a remoção do limite implicado na totalidade.
    Só conheci um capaz de o revelar.

      1. Sim, a todos nós reguladores. Porque o outro a que me referia é mesmo matéria de aplicação de Justiça. Perdoa-lhes(nos) a ignorância. Parece-me que isto é atitude de quem sabe verdadeiramente o que atrapalha a vida.

  2. Ora essa, mas nós já temos o otário. A diferenca é que enquanto o Ilunga tem uma tolerancia pré-definida para o abuso, no otário nao se pode prever o limite em que ele se torna completamente indisponível para aceitar ou perdoar um novo abuso. Mas que nao se duvide de que o tem; o otário é otário mas nao é estúpido.

  3. Bananas será o termo correcto !

    Somos uns bananas e os mais bananas de nós todos são uns senhores e senhoras que têm por padroeiro S. Jorge que só se mexem quando lhes mexem no pré.

    Não haja dúvidas que somos uma cambada de mansos, perdão bananas.

          1. Ok, com o patrocínio do Pires de Lima.
            Eu estava a tentar manter o sufixo, e ligação ao termo popular “besunguice”.

            Pondere-se no verbo “Besuntar”, que é uma ligação feita por múltiplas formas.
            A unção pelo Espírito Santo consiste em besuntar a cabeça com substâncias oleosas.
            Depois do teu reparo sobre as acções de graça, parece-me que o caso é sério.

  4. Camões definiu bem o seu antónimo: lusitano (aguenta aguenta, digo eu).

    Corrupto já e danado o mantimento
    Danoso e mau ao fraco corpo humano,
    e alem disso nenhum contentamento
    que sequer da esperança fosse engano!
    Crês tu que, se este nosso ajuntamento
    de soldados não fora lusitano,
    que durara ele tanto obediente
    porventura a seu rei e a seu regente?

  5. Revolta ao terceiro abuso?

    A língua portuguesa tem uma palavra que se adequa muito mais ao nosso temperamento enquanto povo:

    sevandija: “pessoa que passa por todas as humilhações sem mostrar ressentimento.”

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