A cassete do pirata


Rui Rocha,

 

O primeiro-ministro convocou hoje os jornalistas para entoar o canto do cisne. Sócrates sabe que a situação actual é insustentável. Acredito que chegou a convencer-se, ao longo destes anos, que a sua governação reluzia. E que ele próprio era de ouro. Perdido o brilho ilusório, sobra-lhe a lata. Hoje, mais uma vez, ensaiou o seu número favorito. Vitimizou-se e atribuiu a responsabilidade da situação actual à oposição. Por isso, é preciso recordar-lhe que em  Novembro de 2004, Jorge Sampaio deu início a um processo de dissolução da Assembleia da República. Foram convocadas eleições antecipadas. Nessa ocasião, os juros não dispararam para níveis socratosféricos e as notações das agências de rating não se precipitaram para o abismo. A diferença de efeito das crises políticas tem seis anos de governação de Sócrates pelo meio, com a evolução de rating que aqui se recorda. Governação essa em que nunca um erro foi admitido. A mesma que levou a uma situação tão desafogada (viu-se!)que permitiu aprovar medidas eleitoralistas em 2009. Assim, Sócrates é o último a poder arvorar-se em cobrador de responsabilidades à oposição. Antes de mais, é o próprio Sócrates que deve prestar contas aos portugueses pela bancarrota a que conduziu o país. E é também aos portugueses que cabe exigir à oposição que apresente alternativas. Tivesse Sócrates um pingo de dignidade e este seria um julgamento democrático a que assistiria em contrito silêncio. Até porque, como Mário Soares oportunamente salientou, a própria crise política foi desencadeada pelo seu comportamento inqualificável. Igual a si próprio, porém, Sócrates optará até ao fim por utilizar os portugueses como alvo da sua arma preferida. A mistificação apresentada em suporte de cassete. Aliás, não fosse o caso de o país estar na situação desesperada a que Sócrates o conduziu e a melhor resposta à sua exigência de alternativas seria a apresentação de duas singelas promessas na campanha eleitoral: o aumento dos funcionários públicos e a descida do IVA.

Soares é Fitch


Rui Rocha,

Mário Soares no DN em 15.03.2011:

“Sócrates cometeu erros graves (…) não tem informado, pedagogicamente, os portugueses, quanto às medidas tomadas e à situação real do país. Nos últimos dias, negociou o PEC IV sem informar o Presidente da República, o Parlamento, e os parceiros sociais. Foram esquecimentos imperdoáveis ou actos inúteis que irão custar-lhe caro. (…) Assim se abre, ao que parece, uma crise política, a juntar às outras que precederam: financeira, económica (estamos a entrar em recessão), social, ambiental e de valores”.

Mário Soares no DN em 29.03.2011:

 “(…) a perspectiva de aumentar o IVA – que Passos Coelho anunciou como teste – deve tê-lo convencido pela reacções negativas que provocou, que terá escolhido o pior momento para desencadear uma crise”.

Notícias do Estado Social (36)


Rui Rocha,

AMI regista maior aumento de sempre de pobreza em Portugal


Dois meses e meio é muito tempo!


Rui Rocha,

O Governo do Canadá foi derrubado na mesma semana em que o Primeiro-Ministro português apresentou a sua demissão. Lá, como cá, seguem-se eleições antecipadas. Em Portugal, o acto eleitoral decorrerá algures entre o final de Maio e o princípio de Junho. No Canadá, as eleições estão já marcadas para 2 de Maio. Ou seja, os canadianos, tal como os ingleses, precisam de pouco mais de um mês para realizar eleições. Os portugueses demoram perto de dois meses e meio a organizar o acto eleitoral. Como não acredito que os canadianos e os ingleses sejam pouco exigentes no que diz respeito às garantias do processo democrático, a diferença só pode  ser atribuída a um sistema pesado e ineficiente. E essa ineficiência tem, pelo menos, duas consequências muito negativas. Desde logo, o país fica entregue, durante demasiado tempo, a um governo de gestão. Na melhor das hipóteses, o executivo fica diminuído nas suas competências e politicamente esgotado. Na pior, porventura a mais próxima da realidade, utiliza cada um desses dias para pôr a máquina do Estado ao serviço dos seus interesses e das suas clientelas. Por outro lado, a campanha eleitoral prolonga-se para lá do razoável. Em Portugal, a qualidade do debate já não costuma ser por aí além. Depois de dois meses e meio de arremesso não há quem resista à mediocridade. Tudo isto constitui mais um factor de degradação da qualidade da democracia e de alheamento dos cidadãos. Todos sabemos que a renovação da classe política e das suas atitudes é um desígnio urgente, mas de concretização muito demorada. Entretanto, já não seria mau se conseguissemos tornar os processos democráticos mais rápidos e eficientes.

Uma retroescavadora é que era, não?


Rui Rocha,

Há quem diga que o primeiro passo para sair de um buraco é parar de cavar. Mas, também há quem entenda que o melhor caminho é continuar a cavar com uma enxada ainda maior. O nosso Governo, que nesta coisa de movimentação de terras  é mais eficaz que a Depuralina a eliminar resíduos, alinha claramente com este último grupo. Vai daí, enquanto Teixeira dos Santos segurava o quarto representante da dinastia dos PECs numa mão, José Sócrates assinava o Decreto-lei 40/2011. O diploma aumenta de forma socratosférica os valores dos contratos que as entidades públicas podem celebrar por ajuste directo. A título de exemplo, o Primeiro-Ministro poderá adjudicar sem concurso público contratos até 11,2 milhões de euros quando até agora estava limitado a uns miseráveis 7,5 milhões. Os ministros quase duplicam os valores que podem autorizar e as actualizações para municípios e directores-gerais são ainda maiores. Tudo muito coerente com o ambiente de austeridade, de rigor e de contenção da despesa. O novo regime entrará em vigor no próximo dia 1 de Abril e a data foi bem escolhida. Parece mentira, mas não é. Em contrapartida, é uma verdade de muito mau gosto. Que não deve ser esquecida no concurso público já lançado para escolher o novo Governo. Esse é o momento adequado para fazer um ajuste directo. De contas.

Querido líder


Rui Rocha,

O problema não está no processo. Tenho a certeza de que decorreu de forma justa e democrática. E também não está na dimensão do resultado. Uma vitória com mais de 93% dos votos pode acontecer aos piores. Está sobretudo no momento. Os militantes do PS votaram numa moção que faz da continuidade (!) a sua principal linha de força e que foi completamente ultrapassada pelas circunstâncias. E reiteraram a confiança numa personagem que constitui actualmente o principal foco de crispação e enquistamento político em Portugal. O PS revelou-se, assim, um partido profundamente solidário. Com José Sócrates e os seus interesses. Desta forma, optou, de forma esmagadora, por voltar as costas aos portugueses e por contribuir, deliberadamente, para o bloqueio do sistema político.

Matriz rápida de avaliação de competências para exercício de funções de primeiro-ministro


Rui Rocha,

Levar puxões de orelhas da Merkel – check!

Comprometer-se com medidas de austeridade em Bruxelas – check!

Dizer hoje uma coisa e amanhã outra – check!

Aumentar impostos – check!

 

Pois. Ao contrário de certos comentadores, a mim parece-me que Passos Coelho está preparadíssimo para assumir funções de primeiro-ministro.

Crisis ‘R’ Us


Rui Rocha,

Estamos então como antes. Pobres e endividados. A diferença é que agora não temos governo e antes estávamos desgovernados. A crise política, diz-se por aí, pode precipitar o pedido de ajuda externa e a intervenção do FMI. Imagino que o FMI seja como o Pai Natal, mas ao contrário. O Pai Natal traz prendinhas aos meninos que se portaram bem durante o ano. O FMI traz medidas duras aos países que fizeram asneiras durante anos. É importante ter isto presente no momento de repartir responsabilidades pela situação actual. O que tínhamos era um copo cheio. E não existem grandes dúvidas sobre quem o encheu. Seis anos consecutivos de governação não podem passar em claro. A crise política que se vive terá então, quando muito, o significado de o fazer transbordar. A culpa é de Sócrates ou de Passos Coelho? Não faltam por aí as teorias mais variadas. Não devemos, todavia, perder a noção da realidade. A importância destas teorias deve reconduzir-se à dimensão que lhes cabe: a de reflexões sobre uma gota de água. E existem ainda outros pontos que importa sublinhar. O primeiro é o da certeza, fundada numa sucessão prolongada de factos desastrosos, de que aqueles que encheram o copo continuariam, independentemente da crise política, a meter água até o fazerem transbordar. O segundo é da convicção, também baseada em atitudes ostensivas e reiteradas, de que o copo já teria transbordado há muito se as contas públicas reflectissem com rigor o estado actual do país, tal como não aconteceu em 2010. Cada um de nós é livre de acreditar no que lhe for conveniente. Mas, nem Sócrates e Teixeira dos Santos, com toda a sua incompetência, seriam capazes de abrir um buraco de 80 mil milhões de euros de profundidade se só tivessem começado a cavar depois das 21h00 do dia 23 de Março de 2011.

Os apocaliptólogos


Rui Rocha,

Em tempos não muito distantes, o papel de apocaliptólogo do regime foi exercido, em regime de quase exclusividade, por Henrique Medina Carreira. Diga-se, em abono da verdade, que desempenhou essa função com abnegada convicção, linguagem colorida e dois ou três gráficos de aspecto manhoso.  As suas aparições pontuais tinham na populaça ululante o mesmo efeito que a exibição da mulher barbuda provocava nos apreciadores de espectáculos de saltimbancos. A mensagem de Medina Carreira atraía as atenções sobretudo pela deformidade que representava face à perfeição do Portugal socrático e cor-de-rosa. O pagode ria-se, levava as coisas à conta de pantomina, abrigava-se dos perdigotos do Professor e, uns minutos depois de iniciada a  entrevista, cumpria o dever cívico de votar em José Sócrates. Nas últimas horas, todavia, o monopólio de Medina Carreira chegou ao fim. Os membros de um Executivo que já completou seis anos de uma governação sem erros e repleta de leais e eficientes serviços à Nação ameaçam-nos agora com as pragas do Egipto em versão piorada: dizem-nos que até os gafanhotos vão morrer. O Dr. Mário Soares proclama-se angustiado. E o Dr. Sampaio, que nos prometia as delícias de além do défice, despenteia-se para nos afirmar que não existe vida sem PEC. É curioso. Estes apocaliptólogos de recente conversão eram, em geral, inveterados optimistas há não muitas luas atrás. O entusiasmo é o mesmo. A diferença é que no lugar do oásis vêem agora um buraco. Pena é que uma parte destes novos profetas da desgraça tenha empurrado o país para um caminho em que o abismo ficou à distância de um PEC. E que a outra parte tenha andado entretida a cantar o solidó.

Mentira ou consequência


Rui Rocha,

Luís Amado afirmou hoje que estamos todos a jogar aos dados e que o país merecia estar noutra situação. Em cada um dos lados da barricada levantada em torno do PEC IV correm já interpretações que procuram arremessar para o lado contrário o peso das palavras do Ministro. Mas, uma afirmação inclusiva como esta (“todos”) é sempre muito mais pesada para o lado da barricada em que o seu autor se situa. Ainda mais quando a verdade socrática sempre refutou essa responsabilidade e a remeteu para referentes que não se podiam defender (a situação internacional, os mercados), contrapondo-a a aspectos concretos da acção governativa, sempre profusamente propagandeados e pretensamente irrefutáveis, como é o caso da “excelente execução orçamental de 2011“. Luís Amado sabe que a credibilidade de uma operação deste tipo, montada em torno da repetição exaustiva de uma mistificação, não sobrevive ao facto de um dos responsáveis pela marca vir expor publicamente dúvidas sobre o produto. Tal como sabia das consequências das suas afirmações quando se distanciou, no passado, de José Sócrates. Mais uma vez, Amado ensaia um movimento em que se afasta da responsabilidade própria de um membro do actual Governo para se aproximar de uma posição de neutralidade, comprometida apenas com o interesse do país. O problema é que essa basculação periódica nunca evoluiu para um lance de ruputura. E isso coloca Luís Amado no lado errado do dilema moral que paira sobre o jogo que está verdadeiramente em disputa. Aquele em que obrigam os portugueses a escolher entre a mentira ou a sua consequência.

Prémio “A Intervenção de Teixeira dos Santos foi Desastrosa”…


Rui Rocha,

… atribuído a Seif al-Islam, filho de Kadhafi, que afirmou que os ataques contra a Líbia são resultado de «um grande mal-entendido» sobre o congelamento de pensões a situação política do país. O troféu será entregue  ao vencedor por António Costa em próxima edição do Programa Quadratura do Círculo Impostura do Século.

Desfazer equívocos


Rui Rocha,

Acabo, caro leitor, de embater com uma esmagadora realidade que me provocou um pungente sobressalto cívico. Imagine que estive até hoje convencido (ah, a soberba!) de que a definição da palavra equívoco corresponderia a erro, confusão, interpretação errada ou mal-entendido. O que são as coisas, a minha convicção era tal que teria sido capaz de apostar, em se proporcionando a ocasião, a totalidade das minhas escassas posses, actuais e futuras, em como o significado era esse. A meu favor intercedeu certamente a providência divina, evitando que  me encontrasse por esta vida fora com alguém que, sabedor das minhas limitações linguísticas e, sobretudo, da minha auto-suficiência arrogante, pretendesse, por via da dita aposta, colocar os meus bens materiais ao nível da reputação do Teixeira dos Santos depois da intervenção do António Costa na Quadratura do Círculo. É certo, leitor, e isto invoco em minha defesa, que  o equívoco, digo, o erro, não era só meu. Em verdade lhe digo que não falta por aí dicionário que incorra no mesmo desgraçado equívoco, digo, erro. Daí o meu sobressalto cívico. Ocorreu-me, perdoe-me o abuso se não for o caso, que o leitor poderá estar também acorrentado a este equívoco (irra), digo,  erro. Atormentado pela dúvida, não podia fazer menos do que vir até aqui para partilhar humildemente o que hoje aprendi. Passo então a explicar. O Ministro das Finanças comunicou, há uma semana atrás, o congelamento das pensões. E  nos dias seguintes sucederam-se posições duras sobre o assunto de representantes de reformados, de partidos e de sindicatos. E  os jornais fizeram correr rios de tinta sobre as suas consequências. E o líder da bancada parlamentar do PS manifestou-se, ainda ontem, preocupado com a medida. E José Sócrates, também ontem, mostrou-se disponível para a negociar. Hoje, todavia, o Primeiro-Ministro, veio informar que se tratou de um equívoco. Ora, caro leitor, se um equívoco fosse um erro, nunca poderia ser objecto de negociação, não é verdade? Teria que ser objecto de correcção, certo? E deveria até ser corrigido o mais depressa possível, não fazendo sentido deixar passar uma semana para o fazer, pois não? Pois é! Por isso, estou agora convencido de que equívoco não pode ter o significado de erro, embora me falte perceber exactamente o que é que equívoco quer dizer. É uma dúvida que vou tentar esclarecer (ou deveria dizer negociar?) ancorado, apesar de tudo, em algumas  certezas. Na verdade, quer-me parecer que um vintém continuará a ser um vintém e que um cretino nunca deixará de ser um cretino.