O Governo do Canadá foi derrubado na mesma semana em que o Primeiro-Ministro português apresentou a sua demissão. Lá, como cá, seguem-se eleições antecipadas. Em Portugal, o acto eleitoral decorrerá algures entre o final de Maio e o princípio de Junho. No Canadá, as eleições estão já marcadas para 2 de Maio. Ou seja, os canadianos, tal como os ingleses, precisam de pouco mais de um mês para realizar eleições. Os portugueses demoram perto de dois meses e meio a organizar o acto eleitoral. Como não acredito que os canadianos e os ingleses sejam pouco exigentes no que diz respeito às garantias do processo democrático, a diferença só pode ser atribuída a um sistema pesado e ineficiente. E essa ineficiência tem, pelo menos, duas consequências muito negativas. Desde logo, o país fica entregue, durante demasiado tempo, a um governo de gestão. Na melhor das hipóteses, o executivo fica diminuído nas suas competências e politicamente esgotado. Na pior, porventura a mais próxima da realidade, utiliza cada um desses dias para pôr a máquina do Estado ao serviço dos seus interesses e das suas clientelas. Por outro lado, a campanha eleitoral prolonga-se para lá do razoável. Em Portugal, a qualidade do debate já não costuma ser por aí além. Depois de dois meses e meio de arremesso não há quem resista à mediocridade. Tudo isto constitui mais um factor de degradação da qualidade da democracia e de alheamento dos cidadãos. Todos sabemos que a renovação da classe política e das suas atitudes é um desígnio urgente, mas de concretização muito demorada. Entretanto, já não seria mau se conseguissemos tornar os processos democráticos mais rápidos e eficientes.
Dois meses e meio é muito tempo!
Rui Rocha,

Essa eficiência, que justamente reclamas, poria muita gente no desemprego, Rui. Gente que teve muito trabalho a criar e a manter o status quo.
Pois é, Teresa. O teu comentário tem alcance mais geral do que a questão concreta da marcação de eleições. A este nível não me parece que exista qualquer risco de desemprego. Em geral, a questão que permanece é a da sustentabilidade do status quo.
Enquanto a representação política constituir exclusividade dos acantonamentos partidários não saímos disto. Com os instrumentos que hoje existem como as redes sociais, é imperdoável que a sociedade civil não imponha a própria emancipação. Os partidos poderão ser importantes em democracia, mas não podemos deixar que a subvertam.
Nem que a instrumentalizem de acordo com os seus interesses, Amarques.
Apesar de tudo preferia que o o risco do mal fosse distribuído pelas aldeias.
Do mal, diz bem Amarques.
Como cidadão Canadiano por nascimento e Português por sangue e residência actual estou habituado a ver essas grandes diferenças de eficiência em termos de velocidade processuais e não só.
Em Portugal o deputado responde perante a direcção do partido, na minha terra natal perante o seu eleitor, pois o voto é duplamente de responsabilidade nominal (a selecção interna do nome a indicar pelo partido e depois o nome dos candidatos a sufrágio universal).
Esta eficiência nunca deu desemprego, pois é compensada pela produtividade exigida aos cidadãos e não pela esperteza de se ter um vencimento sem trabalho necessário para se efectuar.
Factos são factos, Carlos.
Em Portugal as coisas andam sempre lentinhas, qualquer que seja o assunto tem de ser mastigado até à exaustão.
Mais um massacre de dois meses e meio!
Já não há pachorra para tanto blá blá blá.
O povo já anda massacrado pelo custo de vida e pela falta de perspectivas de trabalho.
Por favor, poupem-nos!
Sim, Vírgina. Deviam poupar até nisto. Ainda há meses tivemos as Presidenciais e ao fim de meia-dúzia de dias já estávamos todos fartos. Em geral, ao fim de duas semanas de debate os argumentos estão todos explorados e quem quer marcar a agenda tem que começar a recorrer a lugares comuns, quando não a ataques pessoais. É uma tortura para os eleitores e para os cidadãos. Se a isto juntarmos telejornais com uma hora de duração, é um massacre inútil e improdutivo.
Muito bem! Estou farto de chamar a atenção para este facto. Além do que se poupa, o interesse principal, claro está, é não ser torpedeado durante 3 meses com boçalidade e idiotice.
Tal e qual, JV. Durante quase 3 meses os candidadatos vão ser forçados pela pressão mediática a dizer coisas todos os dias. Claro que o nível que já não é alto só pode baixar. E quem não fizer barulho não aparece nos telejornais.
Caro Rui, isso não é necessariamente mau. Ainda não há muito andava muito liberal encartado a defender a falta de governo baseado na experiência da Bélgica.
A coisa acabou por correr mal, mas até dois meses isso não faz mal a ninguém, que diabo…
Viva, João. A situação da Bélgica serve de caricatura e vale como escape para a situação pantanosa em que nos encontramos. Mas, a situação belga, em termos de organização política, não é comparável à nossa. O poder na Bélgica não está na rua. E as experiências que já tivemos dizem que é tempo demais (para além dos outros motivos) se tivermos em conta as nomeações, adjudicações e outras que ocorrem nessses períodos. Já para não falar na sanidade mental dos eleitores que são bombardeados durante 60 longos dias.
Tem toda a razão. Quando falei na Bélgica foi mesmo para ironizar. Seja como for não precisam de ser governados a partir de Bruxelas: já o são…
Eheheh… isso é bem verdade.
Preguiça Ibérica. Ninguém interrompe um almoço de 2 horas nem que tivéssemos uma central nuclear em ebulição. Mais a mais, a conversa do PR com Jaime Gama, sabiamente atrasada para hoje – sendo com Jaime Gama, esse speedy gonzález do latim adulterado -, vai demorar pelo menos 3 dias.
Por isso é que se diz que Jaime Gama é um homem de sonos profundos, digo, peixe de águas profundas, Javali.
Como se não bastassem os prazos constitucionais, ainda temos a ajuda do prof. Cavaco… Não só ainda não aceitou o pedido de demissão do “engenheiro” do PS como não se sabe quando o fará. Arre!
Diz-se que a coisa estará a atrasar devido à necessidade de formalizar um pedido de ajuda externa. Com um bocado de jeito, o homem ainda acaba a legislatura, Alberto.
No site de S. Exa.:
“O Presidente da República convocou uma reunião do Conselho de Estado para o próximo dia 31 de Março, às 15:00 horas, para os efeitos do artigo 145.º, alínea a), primeira parte, da Constituição.”
… 31 de Maio …E à tarde, para não haver confusões… Não há cú pra isto.
Outra ainda. Em vez de dizer o que é.. remete para o artigo da p** da Constituição.
Desculpem os palavrões, mas isto é tudo muito irritante.
Tudo devidamente compassado, Javali. Um ritual para o qual não há paciência.
Em Portugal existe muita formalidade, como sempre!
Muita parra e pouca uva, Francisco.
Temos que apostar no mercado das chaises-longues.
E das robes de chambre.
Caro
Desculpe, mas o problema não é só da política, dos políticos ou do Estado. É também das empresas privadas e de todos nós.
Exemplos:
# Cliente que represento marca directamente reunião com fornecedor, a mesma é confirmada por escrito. Na passada 5ª feira, cliente chega de manhã ao Porto (com regresso ao fim do dia), vamos para a empresa e ninguém da Administração presente para a reunião, todos em Paris. Desculpa dada, houve uma falha informática e os e-mails não partiram!? Solicitado que busque urgentemente fornecedor alternativo na Galiza.
# Encomendas e serviços contratualizados, com sinais pagos aquando da adjudicação, para os quais nunca cumprem os prazos, e nem se apresentam justificações escritas. Geralmente as empresas portuguesas não percebem quando clientes estrangeiros exigem indemnizações por incumprimento (já ouvi, “só atrasámos uma semana a entrega da mercadoria no armazém do transportador”).
# Não é um só um problema da nossa baixa cultura, da baixa produtividade é fundamentalmente um problema de organização de trabalho (a todos níveis), de cultura do fazer bem e de brio pessoal.
Tem toda a razão, CNortada. O problema é geral. O post pegava apenas naquilo que pode ser um óptimo exemplo.