Luís Amado afirmou hoje que estamos todos a jogar aos dados e que o país merecia estar noutra situação. Em cada um dos lados da barricada levantada em torno do PEC IV correm já interpretações que procuram arremessar para o lado contrário o peso das palavras do Ministro. Mas, uma afirmação inclusiva como esta (“todos”) é sempre muito mais pesada para o lado da barricada em que o seu autor se situa. Ainda mais quando a verdade socrática sempre refutou essa responsabilidade e a remeteu para referentes que não se podiam defender (a situação internacional, os mercados), contrapondo-a a aspectos concretos da acção governativa, sempre profusamente propagandeados e pretensamente irrefutáveis, como é o caso da “excelente execução orçamental de 2011“. Luís Amado sabe que a credibilidade de uma operação deste tipo, montada em torno da repetição exaustiva de uma mistificação, não sobrevive ao facto de um dos responsáveis pela marca vir expor publicamente dúvidas sobre o produto. Tal como sabia das consequências das suas afirmações quando se distanciou, no passado, de José Sócrates. Mais uma vez, Amado ensaia um movimento em que se afasta da responsabilidade própria de um membro do actual Governo para se aproximar de uma posição de neutralidade, comprometida apenas com o interesse do país. O problema é que essa basculação periódica nunca evoluiu para um lance de ruputura. E isso coloca Luís Amado no lado errado do dilema moral que paira sobre o jogo que está verdadeiramente em disputa. Aquele em que obrigam os portugueses a escolher entre a mentira ou a sua consequência.
Mentira ou consequência
Rui Rocha,

Ou uma mijinha de cada vez, passo a explicar em forma de breve conto.
Era uma vez um PEC 4 que esconde muita coisa mal explicada e desastrada. Aliás, as coisas são explicadas às mijinhas como se os progenitores do PEC 4 tivessem incontinência urinária, ou seja, uma mijinha de cada vez. Têm sido tantas que o cheiro torna-se insuportável, um pouco por todo o lado. Em três semanas de existência, o PEC 4 já viajou muito. Primeiro, há três semanas, foi passear a Berlim para conhecer a madrinha, de nome Sra. Merkel. Mais tarde, foi a Bruxelas conhecer o padrinho, Sr. Barroso. Que dupla! Por fim, foi apresentado aos portugueses. Que desgraçados! O Gigante (buraco do Estado) conheceu o PEC 4 logo após o seu nascimento, claro.
Como o próprio nome indica, este PEC é o quarto de uma irmandade terrível. O Gigante comporta-se como um Sauron, rei de Mordor, dos tempos modernos ao forjar tanta maldade através desta irmandade. Duvido que JRR Tolkien tivesse imaginação para criar personagens tão maquiavélicos! Enfim… Nuvens negras ameaçam uma primavera agora iniciada. E, refira-se, começou de forma bem agradável de norte a sul do país. O PEC 4 é uma tentação demasiado tenebrosa nas mãos de quem nos tem desgovernado pois, PEC atrás de PEC, a mentira e a incompetência grassam e arrasam tudo à sua frente, como bens miseravelmente preciosos. Nem o Gollum (ou Sméagol) lhes faz frente!
Além de o PEC 4 ter sido forjado nas minas hediondas de um largo com nome de murídeo, acaba por esconder um tremendo desastre nas contas deste rectângulo esburacado e (quase) falido. Como um desastre nunca vem só, apareceu alguém desastrado a dar as novidades desastrosas. Pior é (quase) impossível. E desfaçatez não lhes falta! À incompetência junta-se-lhe uma boa dose de mentiras e obtemos este PEC 4 que, no fim de contas, só merece levar com chumbo, e do grosso!
O FMI (Fundo Monetário Internacional) não vem aí, enganam-se. Esse fundo já está refastelado no PEC 4. Está lá, preto no branco, escrito. Se não acreditam, leiam o texto do compromisso assinado pelo nosso (des)governo. Desde 1960, ano da adesão de Portugal ao FMI através de uma quota de 60 milhões de dólares do Tio Sam (valor pago com paletes de ouro do Banco de Portugal), esse fundo tem sido visita regular por terras lusas. Como anteriormente, o FMI ficará hospedado entre São Bento e Belém, na capital de um antigo império ultramarino, durante alguns anos, infelizmente. Ou talvez não… Assim, o Gigante terá a sua companhia bem próxima. E nós também, uns mais do que outros.
Pois, Gonçalo. Na verdade, não há escolha. Há mentira e consequência.
E vão três, numa semana: Mário Soares (contra Sócrates), António Costa (contra Teixeira dos Santos) e Luís Amado (contra ambos, claramente).
E Amado não ficou por aqui…