Convidada: INÊS DE BARROS BAPTISTA


Ana Vidal,

   

cada um é o milagre de si

 

há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e o outro exigia a uns sacrifícios e ao outro misericórdia – para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser um e o mesmo como durante estes tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a promessa divina para a resistência  ou mesmo a recusa aos pecados humanos.

 

se no princípio era o verbo, o som puro, depressa nos apropriámos dos seus timbres ocultos para transformar em palavras o que ele apenas intuía, soprando. e foi assim, acredito, que fomos gerando tantos equívocos. o milagre deixou de respirar das nossas entranhas – como ainda hoje respira das entranhas dos bichos, das árvores, dos rios – para se tornar num pedido a algo ou a alguém fora de nós. de co-criadores, passámos a seres criados à semelhança de Deus, sendo porém maiores as diferenças do que as semelhanças que nos consubstanciam na mesma essência.

 

não nos bastasse este logro, inventámos ainda que nem sequer Deus era um e o mesmo e demos-lhe designações, consoante a nossa cultura, a nossa história, os nossos mentores e, acima de tudo, os nossos medos. e as re-ligações –  do que afinal sempre esteve ligado – ou as religiões que nos separaram do Todo – enraizaram em nós esta crença profunda de que temos de nos esforçar, de nos sacrificar, de carpir muito e de ser muito bondosos para podermos merecer a presença de Deus nas nossas vidas.

 

 

querer é um delito da mente, mas crer é um deleite do espírito. querer que o santo nos cure, que Nossa Senhora nos traga o alívio para as dores, que o Buda nos ilumine, que Alá nos receba de braços abertos, que os anjos nos guardem de todos os perigos não é mais, afinal, do que recusar expressar o milagre que cada um é para transformar em pedido o nosso desejo mais íntimo: sermos, à semelhança de Deus, os co-criadores do Universo e da Vida.

 

assim como a culpa dos males que nos grassam não é de terceiros, também a graça dos bens que colhemos não se fica a dever a benesses alheias. não creio sequer que possamos falar de bens e de males como se fossem coisas distintas, mas antes frequências da mesma espiral de energia, todas elas presentes em nós – e em Deus. não posso sequer garantir que faça um milagre maior o que aspira às alturas e sobe ou se é, afinal, o que desce aos abismos e mergulha no escuro o que verdadeiramente transmuta as sombras em luz. de uma coisa, porém, tenho a certeza: cada um é o milagre de si, sempre que crê ser parte do todo e se cura e se alivia das dores e se ilumina e se recebe de braços abertos e se resguarda dos perigos que o medo lhe impõe. o resto são histórias que nos contaram, mas nas quais é urgente repor a verdade: não há mesmo quem faça milagres por nós! 

 

Inês de Barros Baptista

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