Uma bandeira à janela


Rui Rocha,

Vivemos tempos de indignidade. A governação de José Sócrates precipitou o país para a Bancarrota e corrompeu a indispensável ligação de confiança entre eleitores e eleitos. Os portugueses despertam de um estado de transe colectivo induzido por um hipnotizador sem qualidades. E abrem a boca de espanto perante a sucessão dos episódios da vergonha protagonizados pelos diversos actores do espaço político. Com o país atolado no pântano, aparece sempre quem assegure que a saída é uma luta de lama. Marinho Pinto, por exemplo, propõe que os portugueses suspendam a democracia no próprio dia das eleições. Não tarda, virá por aí um aspirante a caudilho. É preciso afirmar a esta gente que essas são as soluções erradas para uma situação errada. Aquilo de que precisamos não é de menos democracia, mas de mais democracia. De uma democracia que evolua da ideia de que toda a irresponsabilidade é permitida para a consciência de que toda a responsabilidade pode e deve ser exigida. A resposta à crise não pode ser mais ausência e demissão dos cidadãos. Pelo contrário, é fundamental reforçar a participação. Desde logo, nas eleições. Mas, também antes e depois delas. Porque só isso permitirá dizer “Sócrates nunca mais” e deixar bem claro aos que lhe sucederem que também nunca mais poderemos aceitar outros que, com nomes diferentes, se comportem como ele. Importa por isso afirmar que este é o nosso país e que não desistimos dele. E que não toleraremos no futuro aqueles que dele se queiram apropriar pela incompetência, pelo egoísmo ou pela auto-suficiência. Que dos políticos exigimos nada menos do que seriedade, respeito e sentido de Estado. E que como cidadãos estamos dispostos a fazer a nossa parte. Já vi este país cheio de bandeiras à janela quando se jogava a banalidade de um jogo de futebol. Creio que agora que se joga a sobrevivência colectiva essa seria a melhor forma de manifestar a nossa repulsa pelo espectáculo degradante a que temos assistido e de reafirmar o nosso compromisso com o futuro de Portugal.

26 comentários em “Uma bandeira à janela”

  1. PARA MIM JÁ FOI PARA ONTEM
    Por todas as razões e mais estas: Continuam a misturar abstenção com insondáveis razões de ausência do acto eleitoral em corrente avulsa. Quem tem medo de um campo (X) para esse efeito em cada boletim de voto? Esta intransmissível , pessoal e inconfundível opção merece e deve exigir a dignidade de voto validamente expresso. Já há muito tempo lavro o meu protesto não indo votar, por me estar vedada a possibilidade de presencialmente me abster querendo. Uma civilizada, consciente e ponderada escolha obrigada a ficar na rua no cemitério de incertos em vala comum? Quero ser crescido como os nossos deputados, que na Assembleia da República, apesar da aviltante disciplina partidária a que se submetem, para se abster tem que marcar presença. Porque um direito pode não ser exercido, então vou faltando até que veja por aí alguma explicação para estas e outras que sabem a manipulação dos instalados. Aproveitem a onda e anunciem para o horizonte próximo uma lei eleitoral decente. Até lá não alimento nem pactuo com torcedelas na democracia.

  2. A GRANDE LIÇÃO
    Definitivamente. Sócrates é o mais puro, inocente e ludibriado impostor. E o menos culpado por este atoleiro colectivo em que nos mergulhou. Merecemos. Ele olha á volta e vê o País curvado e submisso a seus embrutecidos pés, em todos os palcos, frentes, redutos e retaguardas . Pelintras, importantes, famosos, especialistas, intelectualoides , comentadores e figurões de toda a casta. Pode dizer e fazer tudo e o seu contrário num estalar de dedos que ninguém lhe vai aos fagotes, e com a prenda extra de uma comunicação social a aparar e cobrir-lhe os golpes, solicita e obediente em romaria beata e curvada. Convenceram-no. Sócrates é a maior vítima. Quero ver o descaramento de certos comentadeiros aconchegados quando o homem se estatelar de vez. Vão ser os primeiros a malhar bem ao jeito da nossa escola: Só sabemos bater em homens caídos. Paira o medo Somos uns cagarolas . Um aplauso de incondicional apoio com mais uma adesão convicta, tanto mais que corresponderia á suspensão definitiva do impostor. UMA REVOLTA SEM ESPINGARDAS NEM SANGUE.

  3. Os portugueses não gostam de problemas. Detestam problemas. Por isso fogem deles em vez de os enfrentar.
    É mais fácil discutir à mesa do café os triunfos na Liga Europa, que o nosso falhanço enquanto nação europeia.

    1. Sim, André Miguel. Existe uma clara desproporção na importância atribuída a determinados temas. Eu gosto muito de futebol. Mas, tenho a clara noção do que é fundamental face ao que tem apenas dimensão lúdica.

  4. A co-responsabilização total dos portugueses só será possível quando TODOS forem ás câmaras de voto, o que não implica ter que votar num qualquer partido. E isso só se conseguirá quando quem não se apresentar na sua câmara de voto perder benefícios sociais, pois quem não quer participar na escolha não pode exigir nem criticar o que quer que seja. Quando isto acontecer, garanto que as peripécias que os partido políticos têm protagonizado até aqui, acabavam de imediato.

  5. Mesmo não concordando com tudo o que escreveu, estou completamente de acordo em relação à necessidade de fazermos a nossa parte, enquanto cidadãos. E se, em termos globais, a participação dos portugueses na vida política é irrisória, praticamente limitando-se à participação em actos eleitorais (que ainda por cima tem vindo a diminuir), é de lamentar que alguém com responsabilidades e com algum protagonismo utilize este tipo de expressões.

  6. Precisamos de mais Liberdade menos Democracia e mais Republica.

    Limites à Dívida, Défice e Impostos na Constituição.
    A Constituição deve ser votada. E quem não aceitar deve poder fazer outro País ou então construirmos um de geometria variável. Não quero mandar num Comunista que deve poder fazer a sua Comuna se quiser e não quero que o Comunista mande na minha vida.
    Por isso faz-se acordo social mínimo.
    A Democracia neste momento é B vota para o político tirar a C mais aos futuros cidadãos. Ou seja a Democracia hoje é auto destrutiva não é para ninguém ter mais liberdade e ou poder enriquecer se quiser.

    1. Concordamos quanto ao diagnóstico da democracia actual, Lucky. E também não tenho nenhuma dúvida quanto à constitucionalização dos limites. Se alguma tivesse, os últimos anos encarregaram-se de as desfazer.

  7. Meu caro, tem toda a razão no que escreve. Infelizmente, os portugueses, no geral, não irão exigir mais democracia, transparência e/ou rigor.

    Irão votar no PSD para penalizar o PS, uns; outros irão votar PS para evitar que a tão diabolizada “direita” (nada ou pouco liberal, diga-se de passagem) chegue ao poder.

    O resultado é que nada irá mudar, de essencial, pois não temos protagonistas com coerência e capacidade de despertar o interesse geral. Com crédito aos olhos das pessoas.

    Não admira, com efeito, que Passos esteja a descer em popularidade. Só pode culpar-se a si próprio de não ter um programa e uma orientação bem definida com vista a (tentar) resolver os problemas já identificados do país, mas de apenas ser capaz do que qualquer pessoa seria: o de criticar o governo anterior.

    Mais do mesmo.

    Cump.,
    A. F.

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