
Outros motivos para amar Portugal (12)
Ana Vidal,


O Banco Espírito Santo (BES) está alerta a recentes ataques informáticos contra nossos clientes e tornou-se obligatório a reintrodução dos seus dados do Internet Banking utilizando o Aplicativo de Actualização segura. Vizando interagir melhor como o sistema de identificação do Internet Banking foi actualizado. Sendo que para garantir uma actualização com segurança reforçada no Banco Espírito Santo será necessário efectual uma actualização dos seus dados através do aplicativo.
Por favor, introduza o seu dado.
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Informamos por esta comunicado que a actualização segura é obrigatória para as contas Particular e Empresa e todos os clientes deverão estar devidamente regulizados com a reintrodução dos seus dados para que não ocorra nehum tipo de problema com a sua conta/tranzações.
Amigo hacker:
Da próxima vez que tentar aldrabar-me via e-mail para sacar-me os dados bancários, vai ter de esmerar-se um bocadinho mais no português. Apreciei o cuidado da não aplicação do acordo ortográfico, uma atenção que me sensibilizou. Apesar disso, com tantas asneiras (mesmo dando de barato a pontuação), não posso fingir que acredito e facilitar-lhe a vida. Lamento. Mas sou amiga: deixo-lhe uma revisão do texto à borla, para não cair nos mesmos erros na próxima tentativa. Aplique-se, vá. E não diga que vai daqui.
Metades
Sou como tu, Sophia: metade de mim é maresia. E até na outra, a que devia contrapôr ao sal e à espuma a terra firme, há rastos de algas e um canto de sereia. Há pedras roladas por infindáveis marés. Fazem sentir-me, em vez de terra, areia. Essa metade minha é ao revés. Metade de mim voa, é ventania. A outra, só ecoa. Procura a luz, talvez, essa metade inquieta. A outra… vegeta. Mas é a mais rasteira, essa metade que me prende ao chão, a que me faz matéria verdadeira. A que me liga ao mundo, a que tem sombra e fundo. A outra não. A outra, só me assombra. Sou como tu, Sophia: metade de mim é pura fantasia. A outra? A outra é alquimia.
(Imagem: René Magritte, La Magie Noire)

Não sei o que me dá mais vontade de rir: se a negativa escandalizada e quase ofendida de Ricardo Salgado à pergunta de um repórter “Estão aqui para fazer pressão sobre Passos Coelho?”, se o facto de ouvi-lo referir-se aos outros banqueiros da inocentíssima embaixada como “colegas”, como se fossem todos escriturários da função pública ou meninos de escola em visita de estudo. Ele e os colegas foram “em busca de esclarecimento”, explica, numa voz mais aveludada do que um creme de cogumelos, e “confiam inteiramente nos políticos portugueses” para uma decisão sábia e justa. Pois claro. Mas alguém tinha dúvidas?



ABRIGO
A casa respira.
Aqui se pariu.
A casa conspira.
Aqui se sonhou.
A casa transpira.
Aqui se amou.
A casa suspira.
Aqui se morreu.
(Imagem: René Magritte)

Não acho particularmente bonitos os símbolos (ou logos, como preferirem chamar-lhes) que foram escolhidos para o Centenário da República Portuguesa, mas isso é o meu gosto pessoal, nada de grave. Reconheço-lhes, no entanto, um sentido de oportunidade e uma ironia notáveis. É que não podiam ser mais adequados à nossa situação: ao primeiro faltam bocados, exactamente como ao país, cada vez mais esfarrapado. O segundo lembra de imediato uma bola de roleta ou do euromilhões, numa clara alusão ao estado lamentável a que chegámos… estamos entregues à sorte ou ao azar do momento, numa lotaria que não controlamos e cujo resultado é imprevisível. Pior ainda, nem sequer temos o prazer do jogador. Alguém joga sempre por nós e nos deixa à porta do casino, como mirones que pagam o pato sem direito ao divertimento.


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Matéria
E no entanto, meu amigo, não é de evidências, mas de intangíveis, que se faz essa fugaz matéria a que chamamos amor. Faz-se de uma substância estranha, mutante e imprevisível, apenas materializada na surpresa que de repente nos devolve o espelho: um corpo que desconhecíamos, um olhar perplexo. Faz-se de um súbito sobressalto que nos invade as entranhas, um imperioso capricho da pele, um inapelável desassossego. Faz-se de um gesto irreprimível, todo languidez e impotência. Faz-se da essência dos rios, correndo em curso livre até se precipitarem num mar que nunca viram, mas sabem ser o seu único destino. E faz-se da placidez dos lagos. Faz-se da beleza terrífica de um incêndio, da voragem de um tornado, do mortífero poder de um raio. Faz-se de clarividência e de cegueira, de lucidez e de loucura. Faz-se de júbilo e de angústia. Faz-se de pudor e de lascívia. Faz-se do mais magnífico festim e da mais insuportável solidão. Faz-se de glória e de miséria, de riso e de pranto, de cobardia e de audácia, de música e de silêncio, de luz e de sombra. Faz-se de guerra e de paz. De vida e de morte. De tudo. De nada.
(Imagem: René Magritte – Liaison Dangereuse)

Acabo de saber que temos há dez anos o melhor mágico do mundo. Será que andamos todos distraídos? Esta é a melhor notícia dos últimos tempos!
Proponho que se acabe com este desperdício de talento e que sejam entregues a este homem, de imediato, os destinos do país. De que estamos à espera? Isto já só lá vai com magia.


Ponto de fuga
Um dia destes ganho coragem e salto a janela. Passo uma perna, sem pressas, sobre o peitoril familiar; depois a outra, talvez ainda mais devagar, avaliando o risco e todas as consequências futuras dessa loucura, uma por uma. Ou então faço tudo de repente, com a urgência dos cobardes e dos desistentes, que se precipitam no vazio porque temem arrepender-se. E porque preferem entregar-se à sorte, pensando que ao menos terão a fatalidade como álibi e o destino como culpado a quem apontar o dedo. Um dia destes aproveito uma qualquer pedrada certeira para acabar com as dúvidas e estilhaçar utopias, feitas dos pálios e das fanfarras que sustentaram no seu pedestal uma ilusão de liberdade. Um dia destes atiro para uma mala todas as lembranças, todas as memórias, todos os sonhos vividos, desejados ou apenas temidos, e levo tudo comigo para a derradeira aventura. Não faltarão cheiros, cores, sabores intensos, sol e chuva, terra e mar, muito mar. Tudo isso irá comigo, porque tudo isso se me colou à pele com os anos e já faz parte de mim. Um dia destes reaprendo a dizer lareira, mesa, pão, vinho, consoada, linho, lã, aconchego. Está decidido. Um dia destes salto a janela e volto para casa.
(Imagem -René Magritte)

Retomo aqui, no Delito de Opinião, uma série dedicada a um dos meus pintores preferidos – René Magritte – que em tempos iniciei noutro blogue. Irreverência, ironia, subtileza, clarividência, ousadia, inteligência, talento. Todos estes adjectivos (e muitos outros mais) se aplicam a esta mente privilegiada, que interpretou a realidade que a rodeava de uma forma única. Não tenho, naturalmente, nem uma vaga ilusão de estar à altura dos quadros que inspiraram os textos. Leiam-nos como uma homenagem, nada mais do que isso.
