Ceci n’est pas un post (3)


Ana Vidal,

 

Matéria

 

E no entanto, meu amigo, não é de evidências, mas de intangíveis, que se faz essa fugaz matéria a que chamamos amor. Faz-se de uma substância estranha, mutante e imprevisível, apenas materializada na surpresa que de repente nos devolve o espelho: um corpo que desconhecíamos, um olhar perplexo. Faz-se de um súbito sobressalto que nos invade as entranhas, um imperioso capricho da pele, um inapelável desassossego. Faz-se de um gesto irreprimível, todo languidez e impotência. Faz-se da essência dos rios, correndo em curso livre até se precipitarem num mar que nunca viram, mas sabem ser o seu único destino. E faz-se da placidez dos lagos. Faz-se da beleza terrífica de um incêndio, da voragem de um tornado, do mortífero poder de um raio. Faz-se de clarividência e de cegueira, de lucidez e de loucura. Faz-se de júbilo e de angústia. Faz-se de pudor e de lascívia. Faz-se do mais magnífico festim e da mais insuportável solidão. Faz-se de glória e de miséria, de riso e de pranto, de cobardia e de audácia, de música e de silêncio, de luz e de sombra. Faz-se de guerra e de paz. De vida e de morte. De tudo. De nada.

 

(Imagem: René Magritte – Liaison Dangereuse)

8 comentários em “Ceci n’est pas un post (3)”

    1. Obrigada, Sérgio. Vai continuar, não porque eu não dê pelo que se passa no país, mas talvez exactamente porque dou. Há que relaxar das desgraças, de vez em quando, ou enlouquecemos todos de vez.

  1. Haja alguém que fale de outra coisa que não seja economia, desgraças, crise, política. E se para mais o faz desta maneira tão bela e com esta qualidade de escrita, então melhor ainda. Fico cliente desta série desde já. Parabéns.

    1. É essa a ideia. Obrigada, cliente Magrito.
      (gostei do nome, e espero não estar a fazer uma gaffe pensando que é uma graça por causa do Magritte…)

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