Limpidez, dicção, beleza, bom gosto: “Sete pedaços de vento” – Cristina Branco.
Limpidez, dicção, beleza, bom gosto: “Sete pedaços de vento” – Cristina Branco.

SERES DECENTES
Fernando Dacosta
Tempo Livre | OUT 2008
Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.
O texto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber. Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira. O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor. Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros. Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados – e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados. As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social. Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!»
O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos. “A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”. Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta – acrescentando os outros. “Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido, liderando”. O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos) ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética. Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar-nos, a acreditar-nos – condição imprescindível ao futuro dos que persistem em ser decentes.

Nudez
Dispa-se primeiro, atentamente, toda a desatenção. Não é indiferente que se dispa a indiferença, logo depois. A seguir, ainda que seja a medo, dispa-se os medos que os anos costuraram até formarem uma capa pesada, sufocante. Defenda-se o espírito de todas as defesas. Desmascare-se cada máscara, cada disfarce. Desproteja-se o corpo da ilusória protecção das cicatrizes. Da guarda armada das cautelas guarde-se distância, cautelosamente. Liberte-se a alma dos desalmados pesos que a vestiam. Lance-se ao vento, desfeitos, velhos preitos e preceitos. Limpe-se os olhos de brumas e de escolhos, os ouvidos de ruídos, a boca de palavras ocas. Dispa-se dos gestos as gestas do passado. Dispa-se da última derme o verme da vaidade. Por fim, dispa-se depressa a pressa, que é preciso saber esperar. E só então, vestindo devagar uma nudez total, se pode receber uma lua inesperada.
(Imagem – René Magritte)
Vale a pena ler esta apresentação de “Divórcio em Buda”, uma história que abriu caminho à oitava maravilha que é “As velas ardem até ao fim”, de Sándor Márai. Ana Cristina Leonardo tem razão: quem pega num livro de Márai nunca mais consegue abandonar o autor. Comigo aconteceu, e embora me tenha estreado logo com a obra-prima, não deixo de encantar-me sempre que leio qualquer outro dos seus livros. Vou a correr ler este, que não conheço.

Então e o relatório do jantar do Delito, minoritário ou não?

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Fénix
No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinha ateado, ainda inconsciente da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos a quererem transpor com ela a porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia. Lavou das narinas os cheiros familiares, expulsou dos olhos as imagens coloridas de arcos-íris passados, sacudiu das mãos o velho ímpeto de arrumar uma vez mais o caos, de repor a ordem, como sempre fizera. Não aplacou os demónios que bailavam por todo o lado, enfim vitoriosos, seguros do seu poder. Por uma vez, deu-lhes tudo o que exigiam. Fechou a porta atrás de si e atirou a chave para longe. Lá dentro, por detrás da madeira triste, uma vida acorrentada. Não levou nada, não queria nada. De seu, só uma indómita e urgente vontade de partir. Tudo o resto ficou para trás, e nunca mais lhe fez falta.
(Imagem: René Magritte)

No estado de sítio em que se transformou a situação deste país, chega-nos a insólita notícia da descoberta e desmantelamento de uma fábrica de transformação de droga em… Sarilhos Grandes. Bem pensado, já a piscar o olho à polícia por conta do humor na escolha do nome do local, caso as coisas dessem para o torto. E deram. Uma pena: afinal, este caso raro de empreendorismo, engenho e brio profissional até podia ser um exemplo a seguir, já que a qualidade do produto deste laboratório de alta produtividade – o maior da Europa! – era “quatro vezes superior ao que é habitual no mercado”. A vida é injusta.
E de repente rebenta a bomba: Catroga e Teixeira dos Santos abandonam a meio os bailados nupciais, depois de um curto e atribulado namoro. É a ruptura, o divórcio litigioso antes mesmo do casamento que nunca passou, afinal, de uma ténue promessa. O circo mediático monta a tenda num ápice e esfrega as mãos de contente com a profusão de notícias frescas que tem pela frente. Multiplicam-se os directos, as entrevistas, as esperas em corredores entrecortadas de palavras ocas para encher chouriços enquanto não chega o carrasco ou a vítima, conforme o ponto de vista. Peroram os comentadores e analistas de circunstância em todos os programas de todos os canais de televisão, antevendo o implacável tsunami que nos espera a todos, caso não seja aprovado um orçamento igualmente implacável, que evitará o mal para nos fazer morrer da cura. Muda-se os cenários para tudo parecer ainda mais apelativo e catastrófico, e até o habitualmente sereno jornal da 2 alinha na esquizofrenia geral e passa a usar um formato agressivo de concurso, com o convidado sentado e a pivot de pé atrás de um balcão, como se estivesse a servir-lhe umas bejecas e um prato de tremoços. A Bolsa cai, as bolsas esvaziam-se a uma velocidade estonteante. As empresas públicas anunciam, revirando os olhos de santidade, as suas pias medidas de contenção, depois de terem abastecido as despensas e as garagens nos últimos anos, a preparar os tempos difíceis. Antecipa-se emoções para as oito da noite – como se o país suspendesse a respiração, todos os dias, até essa hora – prometendo conferências de imprensa e debates sortidos ao gosto do freguês. Cada político puxa dos galões para acusar os outros – quaisquer outros, desde que não lhe toque alguma responsabilidade – de todos os males que nos assolam, como se a peste negra tivesse chegado de improviso, sem nos ter acinzentado primeiro até ao tutano. Tira-se dividendos políticos (há quem os tire financeiros também, com toda a certeza) enquanto o circo não pega fogo, ou melhor, enquanto não fica tudo em cinzas. Os monárquicos aproveitam para gritar aqui d’el rei que a república é que tem a culpa de tudo, enquanto a república afina estratégias eleitorais no meio do caos, baralhando ainda mais os confusos figurantes deste carnaval tragicómico. E o tuga, exausto e saqueado, que já não acredita no Pai Natal nem na Branca de Neve vai para muito tempo, corre a pegar no comando da televisão para refugiar-se na Casa dos Segredos e meter na veia, embalado pela voz maviosa da Júlia Pinheiro, a doce anestesia de mais uma dose escaldante de meia dúzia de criaturinhas suburbanas entregues às hormonas e à perversão de outra Voz que as transforma em marionetas inconscientes, pobres ratos às voltas numa gaiola forrada a pelúcia. E assim nos vamos afundando alegremente, ou já nem isso.

De parabéns está a Casa Fernando Pessoa – e em particular a sua directora, Inês Pedrosa – pelo magnífico e minucioso trabalho de digitalização dos cerca de mil e cem livros que constituem a biblioteca pessoal de Pessoa (o pleonasmo soa bem), agora disponível na net. Graças a esta iniciativa, qualquer um de nós pode, a partir de agora e através de um simples click, ler pelos olhos do poeta os livros da sua escolha, anotados, sublinhados e datados pelo próprio. Ler “com Pessoa”, verdadeiramente.
Um trabalho notável. Clap, clap, clap, Inês.
“Este orçamento abriga Portugal e dá segurança às empresas e às famílias.”
(José Sócrates, sobre a discussão do orçamento com o PSD)
Se temos mesmo de aguentar as medidas esmagadoras que aí vêm para deixar-nos a todos – famílias e empresas – praticamente agonizantes, não poderíamos ao menos ser poupados ao descaramento deste arrogante irresponsável, que ajudou em grande medida a que chegássemos a esta tristíssima situação? Será que ainda temos de ser gozados a este ponto? Será que aguentamos tudo??

No JL, uma interessante entrevista de Maria Leonor Nunes a Mário Vargas Llosa, o mais recente Nobel da Literatura. A propósito do título do seu último romance, a ideia de Literatura como paraíso ou utopia – a única utopia possível nos tempos que correm – dá o mote à conversa, também sobre o processo criativo de quem escreve. Sobre esse tema, responde MVL: “(o romance) É um processo demorado, inicialmente inconsciente. Em geral, o ponto de partida é algo vivido, uma experiência, uma imagem que ficam na memória e, pouco a pouco, tornam-se fantasia. A dada altura, dou-me conta que ando às voltas com uma ideia que é o cerne de uma história. Então, posso começar desde logo a tomar notas e apontamentos, a documentar-me, mas não começo a trabalhar de imediato. Espero para ver se essa ideia embrionária passa a prova do tempo. Às vezes, demora anos antes que comece a escrever.” Esta tese lembrou-me uma outra, ainda mais radical, de Rilke: “Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas.”
Não posso deixar de pensar no contraste flagrante com o que se passa com um cada vez maior número de “escritores de circunstância”, que publicam ao sabor das leis do mercado, sem terem tempo, sequer, de amadurecer ideias. E em quantos e quantos livros não passariam a prova do tempo, se lhes fosse feito esse simples teste.
Nas tuas mãos
Reinventa-me tu. Dou-te pincéis e tintas de todas as cores, uma tela em branco e, mais do que tudo isso, a imensa liberdade de me recriares à tua medida. Redesenha-me: dá-me olhos menos inquietos, mãos menos aventureiras, braços que embalem tudo menos sonhos. Dá-me pernas imóveis, que não acabem em pés andarilhos. Pinta-me o corpo de um tom de mármore belo e pálido como o das estátuas antigas, em que todo o ardor se transformou já em História. Não te detenhas nos cabelos, deixa-os inacabados. Podem ganhar vida própria e enlear-te como algas, e tu sabes como é perigosa a maresia. Evita a curva do pescoço, e foge dos pormenores no peito e no ventre. Passa a correr pela boca, aí todo o cuidado é pouco. Um último aviso: não me pintes um coração nem um cérebro. Porque, se o fizeres, eu volto a construir-me como era.
(Imagem – René Magritte, “Tentando o Impossível”)

«I have a dream que, para já, passa por Bruges, mais concretamente pelo College of Europe. Acontece que um Master of Arts in EU International Relations and Diplomacy Studies lá em Bruges é coisa para me deixar penhorada por sete gerações. Ora como eu não tenho onde cair morta e estou longe de vir a herdar o que quer que seja, não me resta outra alternativa que não seja vender o recheio da casa. Quem quiser ajudar, basta divulgar. Eu e o gato agradecemos.»
E está a caminho disso, a Maria. Contrariando o imobilismo de um país suspenso, que choraminga pelos cafés e culpa o mundo inteiro pela sua má sorte, a Maria arregaçou as mangas e foi atrás do seu sonho, inspirada, quem sabe, por um sopro de Sebastião da Gama. Criou um blogue para divulgar o projecto, avançou para as redes sociais e deu nas vistas com tanto arrojo. A receita é a dos audazes: puxar pela imaginação, juntar-lhe uma vontade férrea e uma boa dose de alegria, que dá sempre uma graça especial. Temperar a massa com paciência e esperança, amassar tudo muito bem e deixar levedar um pouco (não muito, para não azedar). E deu-se o milagre: primeiro um, depois três ou quatro, mais tarde muitos mais, os curiosos começaram a aparecer e depressa passaram a amigos. Contagiou tudo e todos – acaba de ser entrevistada por um jornal nacional, que vai publicar a história – e os leilões vão cumprindo a sua função. Mas é preciso mais, que o sonho da Maria é tão caro como meritório. Convido-vos a conhecer melhor e a aplaudir este caso raro de inconformismo nacional. Apoiá-lo é fácil, nem que seja apenas divulgando. Let’s take them to Bruges!
(Take us to Bruges é o nosso blogue da semana)
Verdade ou consequência…