Domingo, pingo a pingo (2)


Ana Vidal,

 

Seguindo a dica de uma amiga semi-italiana – e com saudades de bom cinema latino – fui ver “Uma família moderna” (Mine Vaganti no original), um filme italiano já quase a sair de cartaz. Apresentado como uma comédia de costumes, um dos géneros mais fortes do cinema italiano, fala afinal de coisas muito sérias: num primeiro olhar, da homossexualidade e suas duras provações numa sociedade fechada, preconceituosa e aparentemente imutável. Visto mais fundo, é sobretudo um filme que fala de prisões. E de fugas. Das prisões que outros nos impõem e de outras, de todas as piores, as que impomos a nós próprios. Das fugas apenas sonhadas, às vezes uma vida inteira, e da coragem que chega finalmente um dia para dar-lhes asas. Ou que nunca chega. E fala de segredos, muitos segredos. Tudo isto nos é servido através da infalível metáfora de uma familia tradicional (ou só aparentemente tradicional), onde cada membro assume a cruz ou a glória do seu papel em função dos outros e deles esconde as suas mais profundas frustrações. Há a eterna fórmula, muito latina, de um mundo de mulheres de força indestrutível, cúmplices nos segredos e nas dores, um mundo aparentemente matriarcal que, sem que se entenda porquê, obedece sem rebeldia a um único macho dominante. No filme há momentos hilariantes (embora alguns  excessivamente caricaturais, que se dispensavam). Há segredos revelados e epifanias redentoras, mas há também a mensagem subtil de um círculo vicioso de velhas algemas que permanece, mesmo nas novas gerações. Tem um óptimo elenco de actores, e dá gosto – oh, senhores, como dá gosto! – ver tanta gente bonita por metro quadrado. É verdade que não consegue fugir à “maldição do cartão postal” de que sofrem todas histórias filmadas em Itália, mas como ignorar tanta beleza nas casas, nas ruas, nos rostos, por todo o lado? Enfim, gostei. E recomendo.

 

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Ofereceram-me um livro curiosíssimo. Chama-se “Notas de cozinha de Leonardo Da Vinci” (editora Temas da Actualidade) e revela uma das menos conhecidas facetas do génio renascentista: a de Mestre de Banquetes da corte de Ludovico Sforza. Tem receitas inimagináveis nos dias de hoje, como por exemplo “Testículos de carneiro com mel e nata”, “Cristas de galo panadas”, “Intestinos cozidos” ou “Pudim de mosquito branco”, além de uma infindável lista de truques e conselhos culinários. Revela também estranhas dúvidas existenciais do mestre, tais como “Tenho estado a pensar pegar num pedaço de pão e colocá-lo entre dois bocados de carne. Que designação devo, porém, dar a tal prato?”. Mas não se fica por aí. Destaco este delicioso parágrafo do capítulo “Os venenos na cozinha”: «Vou encontrar-me com o meu Amo Cesare e Mestre Macchiavelli para discutir os meus conhecimentos acerca dos venenos, que são insignificantes. (…) No entanto, há certas coisas sobre as quais não me restam dúvidas. A eescolha do veneno depende do efeito que se pretende obter sobre a vítima. Assim, este veneno particular provoca espirros, estoutro comichões, aquele saltos e convulsões, aqueloutro ainda a morte total. Quem se está a iniciar nas artes de envenenador não deve confundir os diversos venenos disponíveis. Deve aprender que a estricnina provoca torcicolos e terrores; que as bagas castanhas e pretas da letal erva-moira fazem revirar os olhos e levam ao delírio; que o acónito (tão amiúde confundido com as raízes da cocleária) dá origem a formigueiros e vómitos, que a cicuta é um veneno que conduz à morte total. Um bom veneno deve ser sempre administrado no início da refeição, porque actua mais rapidamente quando o estômago está vazio e porque, utilizado nestas condições, é vantajoso para o envenenador que não necessita senão de uma pequena medida do seu recurso, e para o hospedeiro que não gostará de ver o prosseguimento dos folguedos organizados para os comensais perturbado pela agonia da vítima.» Aqui fica a dica. Quem sabe se será útil a alguém.

 

§

 

E deixo-vos com uma das preciosas máximas do meu amigo Woody Allen (era mais meu amigo quando fazia filmes a sério, mas enfim…): “To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore to love is to suffer, not to love is to suffer. To suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy then is to suffer. But suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you’re getting this down.” Simples, não?

 

Boa semana para todos.

Ceci n’est pas un post (11)


Ana Vidal,

 

Toco, teço e entrelaço

com dedos de descobrir

Lanço redes num abraço

à flor da pele me desfaço

na vertigem de sentir

 

Tudo é matéria, se é tempo

de epidérmicas razões

Danço num sopro de vento

rasga-me cada tormento

gelam, queimam, as pulsões

 

E todavia, invisível

eterno e primordial

corre o rio do intangível

imperioso, indefinível

matriz de tudo, afinal.

  

(Imagem: René Magritte)

O desassossego


Ana Vidal,

Fui vê-lo ontem, “O filme do desassossego”. No antigo cinema Carlos Manuel, em Sintra (onde vi o meu primeiro filme), que se chama agora Centro Cultural Olga Cadaval. É uma bela sala de espectáculos, mas já não de cinema. Ontem, excepcionalmente e de casa a abarrotar, abriu as portas para o filme de João Botelho. Perdão, para o filme de Fernando Pessoa. Perdão, para o filme de Bernardo Soares. Perdão, para o filme de Cláudio da Silva. Perdão, para o filme de todos os que se questionam e se torturam com mil perguntas sem resposta. Ou com respostas a mais. Foram duas horas de puro desassossego, de puro encantamento. Fotografia sublime. Magníficos e inesperados planos de Lisboa (perguntamo-nos como é que nos tinham escapado, tão óbvios e tão gritantes que nos aparecem no filme), num jogo de luz e sombra que está na génese do próprio conceito de cinema, como generosamente nos explicou, antes da sessão, o próprio realizador: “O cinema é só um jogo de luz e de sombras, com personagens no meio a tentarem fugir das sombras para a luz”. Curiosíssima definição de cinema, a prenunciar uma noite especial. Depois, uma sonoplastia clara e poderosa, ainda mais inesperada (porque terão sempre os filmes portugueses tão mau som?), povoada de vozes estranhas e belas que ousam interromper, por momentos, o monólogo lancinante de um cérebro que não descansa jamais. Tudo isto numa delicada e original abordagem, mérito inteiro de João Botelho.

 

E há, é claro, o texto. Fragmentos, apenas alguns fragmentos de outros fragmentos que compõem um texto demencial, torrencial, genial. Extra-lúcido, como diria Clarice Lispector. O livro do desassossego é “O” livro, o livro de uma vida. Porque não se esgotará nunca, por mais longeva que ela seja. Passar aquela escrita para a linguagem do cinema é tarefa homérica, mais arriscada ainda do que reinventar na tela o mundo encantado de Tolkien. João Botelho consegue-o brilhantemente, ajudado pela interpretação soberba de Cláudio da Silva (liberto do grilhão da parecença física com Pessoa, apresenta-nos um Bernardo Soares convincente e perturbador, simultaneamente agressivo e doce). É o mundo inteiro na rua dos Douradores, e ninguém duvida dessa magia.

 

Não é a vertigem do pensamento, a clarividência, o que sempre me intrigou mais em Pessoa (sobretudo quando transfigurado em Bernardo Soares). Haverá certamente muitos outros cérebros – considerados loucos, quase sempre – com esse imenso caudal de imagens e sons em conjugação incansável, com essa tortura como privilégio ou maldição. O que me espanta nesta figurinha frágil é a extraordinária capacidade que tinha de, com a mesma velocidade vertiginosa, verter tudo o que sentia e pensava para o papel. E ainda outra: a de conjugar toda essa genialidade com uma vidinha banal e monótona de guarda-livros, cumprida resignadamente e sem falhas. Não fossem essas capacidades invulgares e não teríamos agora milhares de manuscritos, heterónimos riquíssimos e vários mundos novos para desbravar até ao fim dos tempos.

 

Enfim, não sei quando irá o filme para o circuito comercial. Ou, sequer, se terá esse destino. Mas uma coisa vos digo: se o apanharem a jeito por aí, vão vê-lo e maravilhem-se.

 

 

Presentinho de domingo


Ana Vidal,

Pego neste excelente texto do Pedro sobre o berço da Bossa Nova e o significado desta como escola de sensibilidade musical na língua portuguesa, para trazer-vos aqui um presentinho de domingo. Dele, disse um dos monstros sagrados desse verdadeiro sortilégio chamado MPB:

 

“(…) Ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores. Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele. Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada , embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se.”

(Caetano Veloso)

 

Não posso estar mais de acordo com o Caetano. Conheço e sigo o António desde o princípio de uma carreira sempre tranquilamente ascendente. Tenho o gosto e a honra de ter uma letra minha cantada por quem acrescenta à excelência musical uma qualidade humana tão rica como a música que canta. É de uma simpatia e simplicidade absolutamente naturais, e por isso mesmo comoventes. Escolhi para hoje, propositadamente, esta primorosa “Paloma”, por ser território mágico e sagrado do próprio Caetano Veloso. O risco que o António correu ao cantar este tema foi enorme (num concerto memorável a que assisti, praticamente em estado de graça), e por isso mesmo o admirei ainda mais. O resultado? Esta maravilha.

 

Sugiro que façam como o Caetano: ouçam-no muito, mais vezes, mais fundo. Tudo o que ele faz é de um cuidado e de uma qualidade superlativos. Seja no fado, na bossa nova ou no cante alentejano, a voz do António é pura filigrana. Por isso merece mais esta distinção.

 

Ceci n’est pas un post (10)


Ana Vidal,

 

Liquefeito

 

Dir-te-ia que as águas subiram hoje de novo numa maré tão festiva como inútil porque de novo o navio se fez ao mar sem ti de velas desfraldadas num despudor que ainda te celebra. Dir-te-ia que de tanto fitar o horizonte os meus olhos confundiram já todos os azuis e fundiram todas as formas e refundiram todas as sombras. Dir-te-ia que as fronteiras se diluem sem retorno esbatidas pela maresia e pelo tempo. Dir-te-ia que me adormece o suave balanço das ondas no sussurro manso deste mar eterno que me deixaste de presente talvez para compensar a tua ausência. Dir-te-ia que sou já pedra búzio alga areia estrela-do-mar e que me vou habituando a este corpo mutante e a esta nova pele tão facilmente como me vou desabituando de ti. Dir-te-ia que as brumas já não me assustam e que a ronca do velho farol me canta ao ouvido canções de embalar à noite quando me abraça o nevoeiro imitando os teus braços longos de pirata. Dir-te-ia que a nossa casa me escorre agora da memória desabitada e nua. Dir-te-ia amor que o nosso mundo se liquefez.

 

(Imagem – René Magritte, O Sedutor)

Ceci n’est pas un post (9)


Ana Vidal,

 

 

L’important

 

L’important c’est la rose, cantava ele naquela voz que nos aveludava os dias, nos deixava as pernas a tremer e os olhos brilhantes. E cantávamos nós com ele, aveludados na premissa sagrada. Era tão fácil. A nossa vida era, toda ela, feita de rosas. Importantes, sim. O que podia haver mais importante do que os nossos magníficos, preciosos, deslumbrantes umbigos? Nesse tempo, o mundo real era a nossa imensa fantasia. Ainda as rosas não tinham espinhos. Ainda os espinhos não se tinham transformado em punhais. Ainda nós não éramos gente de carne e osso, mas apenas bolas de sabão planando no ar leve da manhã. Belas, coloridas, etéreas. E tão inconsistentes. L’important c’est la rose, dizíamos, com a inabalável convicção dos inconscientes. Sabíamos lá nós o que isso queria dizer. Não conhecíamos a rosa porque éramos nós a rosa, inebriada com o seu próprio perfume. Só muito mais tarde o descobrimos, quando já não havia rosa, nem espinhos, nem sequer punhais. Quando o Bécaud se calou em nós e nos emudeceu, entendemos finalmente: l’important c’est la rose. Crois moi.

 

(Imagem: René Magritte)

Pausa estética


Ana Vidal,

 

Proponho-vos uma pequena pausa na esquizofrenia colectiva que nos assalta nestes dias bíblicos. Estes três blogues são três bons exemplos de uma verdadeira e profilática lavagem aos olhos e ouvidos, tão massacrados diariamente pela poluição de notícias catastróficas e outros lixos igualmente tóxicos. Sugiro que, como eu, os usem para repôr os níveis mínimos de sanidade mental. Obrigada à Luísa, à Gi e ao Paulo, por me lembrarem de que ainda há beleza neste mundo de sonâmbulos desesperados. Há vida para além do défice, como dizia o outro.

Notícias do hospício


Ana Vidal,

 

Bla, bla, bla

 

O título da notícia é incompreensível, o destaque dado ao episódio – e logo no Jornal de Letras! – ainda mais. Ou talvez não, se aceitarmos o facto de que nós, portugueses, continuamos a ter um eterno complexo de inferioridade em relação a tudo o que dizem de nós os estrangeiros. Ainda que seja a brincar ou com uma certa ternura, como é o caso. Ainda que seja tão irrelevante como a letra de uma canção de uma banda espanhola, praticamente desconhecida, que dá pelo nome de “Bla”. Quando será que cresceremos?

 

Missão patriótica

 

Não sabia que estávamos em guerra com a Patagónia. Mas fiquei a saber agora, com a notícia de que o secretário de Estado da Defesa – seguindo o exemplo das estrelas de Hollywood na época da Grande Guerra – atravessou o Atlântico em direcção a essa perigosa região (com sacrifício e risco pessoais, não duvido), só para incentivar os bravos marujos portugueses a bordo da Sagres a prosseguir a luta pela pátria, com determinação e valentia. Tenho fé que este gesto altruísta contribua para nossa a vitória final. Coragem, rapazes!

 

Adivinha

 

Mais de trinta carros da polícia na recepção, quinhentos agentes armados até aos dentes, tiros disparados para o ar no meio da estrada, escolta especial durante toda a viagem. É o presidente Obama, que chega a Portugal mais cedo para a cimeira da Nato? É a transferência de um perigosíssimo serial killer de uma cadeia para outra? É o transporte de substâncias radioactivas? É o Papamóvel? Frio, frio. A resposta certa está no autocarro brilhante, nos comentários de fanáticos transeuntes em entrevistas de rua, na euforia geral. E chega de chofre, a humilhar-me: É o futebol, estúpida!

 

Sim, mim

 

Esqueça o casamento homossexual, um assunto completamente fora de moda. O outro, à antiga, nem merece referência. Descoberta a união perfeita: de acordo indiscutível, duradoura e indissolúvel. Escolha-se e seja feliz para sempre. Tudo o resto é pré-história.