Pego neste excelente texto do Pedro sobre o berço da Bossa Nova e o significado desta como escola de sensibilidade musical na língua portuguesa, para trazer-vos aqui um presentinho de domingo. Dele, disse um dos monstros sagrados desse verdadeiro sortilégio chamado MPB:
“(…) Ouvir o CD do António Zambujo me prendeu à necessidade de ouvir de novo, de novo e de novo. Quero ouvir muito, mais vezes, mais fundo. É a língua portuguesa. É a história do fado. É o fato de eu ter sempre só gostado de cantoras de fado, nunca verdadeiramente de cantores. Há nele dois elementos que – para além do prazer imediato de ouvir-se uma voz naturalmente musical e relaxada – compõem para mim um grande passo: que seja um homem a cantar fado tão lindamente – e que o diálogo com a música brasileira se apresente tão orgânico, já não-pensado, já resultante de forças históricas que vêm se expandindo há décadas. O que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele. Quando Zambujo canta “Nem às paredes confesso”, vamos ao fundo do fado e, ao mesmo tempo, sentimos a cultura da bossa nova e da pós-bossa nova já na corrente sangüínea da canção portuguesa. Quando ele canta um Vinicius com Antônio Maria (esse seu xará com acento circunflexo), a composição soa enfaticamente “moderna” e americanizada , embora o tratamento seja de fado. E o mais incrível é que “Lábios que beijei” não soa menos americanizada e “moderna” do que aquela. Não pelo arranjo, que é fadista, mas pelo Brasil que há ali. É de arrepiar e fazer chorar. Sentimos a força da cultura de língua portuguesa – aquela que, afinal de contas, mais me interessa – construindo-se.”
(Caetano Veloso)
Não posso estar mais de acordo com o Caetano. Conheço e sigo o António desde o princípio de uma carreira sempre tranquilamente ascendente. Tenho o gosto e a honra de ter uma letra minha cantada por quem acrescenta à excelência musical uma qualidade humana tão rica como a música que canta. É de uma simpatia e simplicidade absolutamente naturais, e por isso mesmo comoventes. Escolhi para hoje, propositadamente, esta primorosa “Paloma”, por ser território mágico e sagrado do próprio Caetano Veloso. O risco que o António correu ao cantar este tema foi enorme (num concerto memorável a que assisti, praticamente em estado de graça), e por isso mesmo o admirei ainda mais. O resultado? Esta maravilha.
Sugiro que façam como o Caetano: ouçam-no muito, mais vezes, mais fundo. Tudo o que ele faz é de um cuidado e de uma qualidade superlativos. Seja no fado, na bossa nova ou no cante alentejano, a voz do António é pura filigrana. Por isso merece mais esta distinção.

beleza! bela escolha.
Ainda bem que gosta do presente, que é para mim própria também…
🙂
Bela prenda musical, Ana.
Também acho, Pedro, embora o som não seja grande coisa.
Ana, subscrevo. Pena que a captação de som deste tema deixe um pouco a desejar. Também eu tinha feito com post sobre ele há pouco tempo, só que não tinha conhecimento dessa opinião de Caetano Veloso, mas que vem ao encontro daquilo que sinto sem o saber expressar.
http:/ cirandando-ariel.blogspot.com /2010/11/quem-canta-assim.html
Beijinho
:))
Tem razão, Ariel. Mas é que este tema não está gravado, ele cantou-o ao vivo neste concerto e felizmente alguém gravou o video, mas é fraquinho.
Gosto de vê-la por aqui de novo! Ainda bem que veio pela mão do meu amigo António Zambujo.
🙂