Liquefeito
Dir-te-ia que as águas subiram hoje de novo numa maré tão festiva como inútil porque de novo o navio se fez ao mar sem ti de velas desfraldadas num despudor que ainda te celebra. Dir-te-ia que de tanto fitar o horizonte os meus olhos confundiram já todos os azuis e fundiram todas as formas e refundiram todas as sombras. Dir-te-ia que as fronteiras se diluem sem retorno esbatidas pela maresia e pelo tempo. Dir-te-ia que me adormece o suave balanço das ondas no sussurro manso deste mar eterno que me deixaste de presente talvez para compensar a tua ausência. Dir-te-ia que sou já pedra búzio alga areia estrela-do-mar e que me vou habituando a este corpo mutante e a esta nova pele tão facilmente como me vou desabituando de ti. Dir-te-ia que as brumas já não me assustam e que a ronca do velho farol me canta ao ouvido canções de embalar à noite quando me abraça o nevoeiro imitando os teus braços longos de pirata. Dir-te-ia que a nossa casa me escorre agora da memória desabitada e nua. Dir-te-ia amor que o nosso mundo se liquefez.
(Imagem – René Magritte, O Sedutor)


… (Sans paroles)
(liquefizeram-se também?)
E também não é uma prosa. É uma saudade a marulhar…
Boa definição, Rui. Obrigada.
Ana, os seus posts são poemas que me lembram outros poemas. Este conduziu-me ao “Barco Negro”, sobretudo a este excerto: No vento que lança/
areia nos vidros,/na água que canta,/no fogo mortiço,
no calor do leito,/nos bancos vazios,/dentro do meu peito/estás sempre comigo.”
As mulheres portuguesas conhecem bem esses barcos. Negros como o de David Mourão Ferreira, ou lanchas de azuis, uterinas, onde desejamos adormecer e sonhar com braços que enlaçam e canções tão verdadeiras como os dedos de quem nos amou, afagando-nos os cabelos.
E a Ana di-lo admiravelmente.
Conduzi-la a um poema do David é uma enorme honra, Leonor. Obrigada.
penso que todas as mulheres conhecem bem esses barcos “azuis e uterinos”, e não só as portuguesas. É uma coisa da nossa condição, não é?
…(Senza parole)
…(sem jeito)
Dir-lhe-ia, Ana: que inspiração e talento …tanto que perdura.
E eu dir-lhe-ia que há muita simpatia sua há mistura, Fernanda. Obrigada.
🙂
…(wordless)
No need, John.
(glup)
” Dir-te-ia” que gostei muito… 😉
🙂