Domingo, pingo a pingo (4)


Ana Vidal,

Mais uma pequena pérola do livro de que já falei aqui, “Notas de Cozinha de Leonardo Da Vinci”. Desta vez, no capítulo sobre A etiqueta à mesa do Senhor Ludovico, meu amo, e dos seus comensais. Ora vejam e aprendam:

 

O meu Senhor Ludovico tem o costume de atar coelhos adornados com fitas às cadeiras dos seus comensais, a fim de que estes possam limpar as mãos engorduradas às costas do animal, costume que eu considero impróprio da época em que vivemos. E quando, depois da refeição, os animais são recolhidos e trazidos para a lavandaria, o fedor infiltra-se nos outros panos que são lavados conjuntamente com eles. Também não me apraz o hábito de o meu Senhor limpar a faca às vestes do vizinho. Por que razão não lhe é possível fazer como os outros membros da corte, que a limpam à toalha trazida para tal efeito?


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Destaque também, agora bem mais sério, para o filme magnífico que vi ontem: “Dos homens e dos deuses” (tradução literal do título francês), que relata de forma admirável a história verídica de oito frades católicos missionários na Argélia, vivendo o início do terror fundamentalista nos anos 90. Um lote superlativo de actores da velha guarda da escola do cinema europeu – Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, entre outros – acrescentam à realização primorosa de Xavier Beauvois uma inesquecível lição de representação. Entramos na intimidade do dia-a-dia de um mosteiro de oito frades despojados de tudo, teimosamente dedicados ao serviço dos habitantes de uma pequena aldeia miserável do Atlas, que vêm nascer e crescer a violência e o ódio num país onde não se sentem, mas são, inapelavelmente estranhos. Comovemo-nos com a sua grandeza, sofremos com os seus dilemas, alegramo-nos com os seus humilíssimos e inocentes momentos de prazer. E admiramos-lhes, sobretudo, a coragem que os leva finalmente ao martírio, por amor aos outros e apego à missão que os levou até ali. O filme é-nos apresentado com a mesma desarmante simplicidade, carregada de significado, que espelha a vida dos oito estoicos monges. Há uma refeição – uma espécie de última ceia – que valeria todo o filme, mesmo que ele começasse e acabasse ali. Ganhou o Grande Prémio em Cannes e é um sério candidato ao Oscar para melhor filme estrangeiro deste ano. Para ver, rever e reflectir sobre o que nos move e nos exige compromissos, neste estranho mundo de fast feelings em que vivemos.

 

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É bom ler notícias como esta. Uma boa semana para todos.

Chapelada


Ana Vidal,

Chama-se Maria do Carmo Fonseca e foi distinguida com o Prémio Pessoa 2010, pelo seu importante contributo para o conhecimento do genoma humano. Com o galardão vieram também 60.000 euros, um prémio pecuniário pessoal que o premiado pode, naturalmente, gastar como quiser. Em entrevista, a cientista revelou que essa verba será integralmente aplicada na compra de um microscópio essencial para as suas investigações, que não existe no laboratório onde trabalha. Um caso exemplar, e ao mesmo tempo uma notável e irónica chapelada aos imperiais polegares que decidem os destinos  dos dinheiros públicos. Infelizmente, é pouco provável que alguma cabeça enfie a carapuça, num país e numa época em que se vive de aparências. Mas vale a pena meditar nisto: o valor de um só carro de alta cilindrada de uma qualquer empresa pública chegaria para comprar o equipamento em falta. Fica a lição.

Publicidade a quanto obrigavas (1)


Ana Vidal,

 

 

(Nota introdutória: Esta curta série será uma espécie de cruzamento entre duas outras de fundo no Delito: Publicidade a quanto obrigas e Passado presente. São anúncios publicitários impensáveis nos dias de hoje, mas usados com toda a propriedade ainda não há muito tempo. Como estamos no Natal, o primeiro post é uma homenagem à quadra do momento: um Pai Natal inventado pela Coca-Cola e aproveitado por uma marca de… cigarros. O adorável velhinho promete pôr um novo sorriso na boca dos fumadores, e que se lixem os dentes amarelos e o hálito pouco recomendável.)

Ceci n’est pas un post (14)


Ana Vidal,

 

Imolação

 

Primeiro calámos a orquestra, que insistia em envolver-nos de notas quentes, lânguidas, festivas. Incendiava-nos sempre sem pedir licença, lavrava por dentro de nós uma melodia hipnótica que nos privava de toda a vontade. Por isso lhe pegámos fogo, lentamente, meticulosamente, deixando que as lágrimas nos dançassem nos olhos ao som da música que se esvaía como sangue de um pulso dilacerado. Do allegro ao requiem.

 

Mas ficaram as palavras. Mesmo sem os sons que as vestiam de encantamento, ficaram as palavras. Havia que queimá-las também na mesma pira ardente, como as viúvas do Ganges no seu sati. E assim lançámos às chamas as palavras, nuas, indefesas, tremeluzindo numa despedida muda.

 

Mas ficou o silêncio. Um silêncio ensurdecedor, feito de cinzas, povoado pelos fantasmas de todas as notas e de todas as palavras que tínhamos morto inutilmente. Um silêncio que alastrou como um rastilho e se riu de nós, descarado, terrível, satânico. Era imperioso emudecê-lo depressa e por isso queimámos o silêncio, já sem forças para tanto sacrifício.

 

Mas ficámos nós.

 

(Imagem: René Magritte – A descoberta do fogo)

Blogue da Semana


Ana Vidal,

Para apresentar o “blogue da semana” que lhe proponho hoje, caro leitor do Delito de Opinião, não são precisas muitas palavras. Até porque elas estão lá todas, dançando para nós logo na porta franqueada e, depois, na penumbra acolhedora de uma casa muito especial: a Hospedaria Camões. É uma hospedaria de luxo, vou já avisando os incautos. Mas oferece, simpaticamente, “condições especiais para poetas vivos”. Os mortos, já se sabe, há muito que se hospedaram por lá à borla. À borla? Não, não é bem assim. Pagam a cama, mesa e roupa lavada com o supremo requinte das  palavras com que maravilham os novos hóspedes. Experimente passar por lá. Não precisa de reserva prévia, é só chegar e pousar as malas. Boa estadia.

Política pseudo-literária para adormecer crianças no Natal


Ana Vidal,

 

As editoras já não sabem o que inventar mais. Pegou a moda de juntar nomes conhecidos “da mesma área” (seja lá isso o que for), de forma quase sempre forçada, com o objectivo de que escrevam a n mãos um livro com um tema qualquer. Deste nos dá conta – com a habitual ironia e graça – o Ricardo Araújo Pereira na sua crónica da Visão. Mais uma estapafúrdia ideia editorial, supostamente interessante. Traduza-se: mais uma receita comercial que se pretende garantida. Mas duvido de que o venha a ser. Afinal de contas, político não é sinónimo de escritor nem criança é sinónimo de imbecil.

 

Aqui fica um pequeno aperitivo da cáustica pena do RAP: «Qualquer conto que comece com a frase “Era uma vez um ministro das Finanças” faz com que as crianças pensem, entusiasmadas: “Ui! Temos história de piratas.” É uma das mais velhas fórmulas da literatura juvenil.»

Ceci n’est pas un post (13)


Ana Vidal,

Imaginação

 

Invento-te, sim. Quero-te ainda interrogação, ainda mistério, ainda e sempre desafio. Dispo-te as peles que usas, uma a uma, para vestir-te aquela que teci para ti. O meu olhar atravessa os muros que ergueste à tua volta, inúteis esconderijos a espicaçar-me a aventura da descoberta. Vejo-te à luminosa transparência da imaginação. Dou-te asas leves: voa! Dou-te olhos atentos: vê! Dou-te uma rota segura: a que te trará de volta um dia, ágil condor que atravessou montanhas e desertos para se encontrar e me encontrou, afinal.

 

(Imagem: René Magritte)

Domingo, pingo a pingo (3)


Ana Vidal,

Deve haver centenas de histórias semelhantes, mas é engraçado como estas coisas acontecem: escrevi estes “Exercícios filosóficos” (uma brincadeira sobre os dois Sócrates) aqui no Delito, em  Fevereiro de 2010. Hoje, passado quase um ano, recebi de quatro pessoas diferentes o meu próprio texto – com ligeiríssimas alterações e um título diferente – como  sendo uma graçola dessas que circulam na net sem autoria definida.

 

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Este foi um fim-de-semana de emoções fortes, em família. Um regresso à terra onde passei a minha infância, para dois momentos igualmente emotivos, apesar de em polos opostos: Um casamento e um funeral, no espaço de 2 dias. Ambos na mesma igreja, ainda imponente apesar de tragicamente amputada e saqueada, em plena revolução de Abril, sob o absurdo  motivo da classificação como monumento nacional. Com esse pífio pretexto, foram-se irremediavelmente os santos e os castiçais de talha dourada dos altares laterais, foram-se as toalhas de linho e renda, foi-se a riquíssima teia e os passos da via-sacra, foi-se um enorme Cristo crucificado de pau-santo, marfim e prata, foram-se até os degraus de pedra em caracol que levavam ao púlpito, agora ridiculamente “pendurado” no vazio e sem acesso. Todo este precioso património desapareceu liminarmente, sabe Deus para  que feiras de antiguidades, e foi orgulhosamente substituído por modernos mamarrachos de gosto mais do que duvidoso. Teria sido bem melhor que nunca ninguém se tivesse lembrado de tão “honrosa” classificação. Mas naquele tempo (e não só, infelizmente) muitos abusos e crimes patrimoniais foram cometidos, naquela e em muitas outras igrejas, pelo país fora. Para mal dos nossos pecados, quem se manteve desde essa época foi o padre, apesar de detestado por toda a gente. Graças a um talento de político para manter-se sempre à tona, respirando a cada momento l’air du temps, o homem piedoso que vociferava do altar abaixo, nas missas dominicais, contra as famílias (entre as quais a minha) que na sua douta opinião tinham casas grandes de mais, exortando o povo a invadi-las e esquecendo-se de que ele próprio ocupava – sozinho! – uma enorme casa pertencente ao patriarcado onde caberiam várias famílias sem grande risco de se cruzarem no belo claustro do séc. XVI, foi a mesma criatura que agora se derreteu num bajulador elogio fúnebre a um dos últimos patriarcas da minha família. E a mesma que, horas depois, proibiu que uma modestíssima urze branca permanecesse a enfeitar a igreja mal acabasse o casamento do dia seguinte. E ainda a mesma que declara, sem qualquer pejo ou noção do seu papel, que não visita os paroquianos doentes porque “lhe faz muita impressão”. Enfim, há coisas que nunca serei capaz de entender.

 

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Recebo habitualmente os convites para as actividades do MNAA (Museu Nacional de Arte Antiga), e graças a isso vou estando a par de alguns acontecimentos interessantes, que não perco sempre que me é possível. Mas fiquei abismada com  os ridículos floreados protocolares de um dos últimos que recebi, para a inauguração de uma exposição. Dizia o convite, literalmente: “Ao evento digna-se comparecer o Exmo Secretário de Estado da Cultura (…)”. Digna-se? Digna-se comparecer?? Mas então não é essa a obrigação de um secretário de Estado? E afinal estamos a falar do principal Museu de Arte do país ou de alguma venda de Natal numa Junta de Freguesia?

 

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E pronto, deixo-vos com duas sugestões divertidas para desanuviar destes temas menos edificantes:

 

1ª. Um anúncio: a um original torneio de sueca (infelizmente já não vamos a tempo da inscrição), com prémios apelativos e muito adequados aos tempos de crise que atravessamos. Pergunto-me o que teria sido o lanche no final do torneio…

 

 

2ª. Uma adivinha: como podemos saber que o dono deste conjunto de mesa e cadeiras (posto à venda no e-bay) é homem e muito distraído? Venham de lá os vossos doutos palpites…

 

Ceci n’est pas un post (12)


Ana Vidal,

 

Palavras

 

às vezes há uma palavra que leva a outra palavra e esta a uma terceira e por aí fora até que a primeira já não faça nenhum sentido e não tenha qualquer relação com todas as outras que gerou.  as palavras levam ideias e vontades e desejos de um lado para o outro ao sabor de ventos e marés porque as palavras são como o mar que não tem princípio nem fim apenas um vaivem cadenciado que nos embala nas suas sete ondas peregrinas em romaria até todas as praias.  as palavras nascem como os cogumelos uns inofensivos e outros letais mas todos com o mesmo aspecto apetitoso que apetece trincar.  as palavras têm vida própria e juntam-se e separam-se e reproduzem-se como e quando lhes apetece sem autorização de quem lhes abriu a porta sem saber que nunca mais teria uma palavra a dizer sobre o assunto.  as palavras são caprichosas sim leves e divertidas umas vezes outras tristes e melancólicas outras graves e solenes outras de um peso tão grande que faz dobrar a espinha.  as palavras são responsáveis por muitos equívocos e por muitos dramas mas também por muitos sorrisos e boas surpresas casaram e foram felizes para sempre e tiveram muitos meninos com os olhos da mãe e o sorriso do pai the end.

 

(Imagem: René Magritte – L’usage de la parole)

Irradiante


Ana Vidal,

Os irradiantes gémeos Sócrates e Zapatero apresentaram hoje ao mundo (que digo eu? ao universo!) a sua irradiante candidatura ibérica ao próximo mundial de futebol, com irradiantes sorrisos de prosperidade e um irradiante panorama de futuro garantido pelas irradiantes economias que lideram. O povão ibérico rejubila, irradiante de esperança para 2018. Até lá, passa fome.

 

Adenda (às 15.30h): E lá vamos nós ter de ir irradiar para outra freguesia.