Ceci n’est pas un post (22)


Ana Vidal,

 

Razões


Meu caro, deixe-se disso! O amor é mesmo o que parece: hoje assim, amanhã assado. O de ontem, quase sempre cru. Mas com o sabor intacto do que poderia ter sido, se fosse de hoje. Ou, melhor ainda, de amanhã. Olhe, não se atormente a procurar razões para o que a razão nunca conheceu. O amor não é razão, mas cada amor tem sempre razão, a razão toda de uma vez. Nem menos. E se é paixão, o amor não se pode analisar se não depois de morto. Só em autópsia. Porque enquanto ele está vivo, meu pobre amigo, você nem pode respirar, quanto mais raciocinar! Por isso, não se canse. Por mais que pense, por mais que se concentre, nunca lhe encontrará lógica ou rumo definido. É lógica o que quer? Pois bem: curse engenharia, e depois construa uma fábrica de parafusos. Mas não se afaste nunca muito da linha de montagem. Se quer um rumo certo faça um cruzeiro, desses turísticos. E mesmo assim não olhe muito à sua volta, não vá o azul do mar arrastá-lo, sedutor, para alguma ignota espiral que o sorva sem remédio. Como hei-de dizer-lhe, de outra melhor maneira, que não confunda as coisas? Veja, o seu a seu dono. A César o que é de César. E do amor é o imponderável, o desgoverno, o desmembrar de tudo o que era conhecido. Uma nova ordem desordenada do espaço e do tempo. É o que chega e se impõe sem pré-aviso e parte, quase sempre, deixando para trás um campo de destroços. É o que não se sabe porque faltava antes, nem porque falta, ainda mais, depois. Mas o durante… ah, meu caro, o durante vale impérios! Entende? Não? Que pena. É que lhe falta amar.

 

(Imagem: René Magritte)

Em forma, como sempre


Ana Vidal,

Saúdo o regresso à blogosfera do meu amigo Paulo Cunha Porto, desta vez num novo blogue colectivo e muito bem acompanhado. O tempo de pousio não lhe tirou qualidades, pelo contrário: está, como sempre, em grande forma. Tivemos duelos memoráveis, porque é frequente não concordarmos. Mas isso nunca impediu nem impedirá que eu tire o chapéu à erudição, ao requinte e à graça certeira da pena afiada do Paulo, amplamente comprovados neste post, por exemplo. Vão lê-lo. Duas coisas posso garantir: aprende-se sempre qualquer coisa e nunca se fica sem resposta.

Ceci n’est pas un post (21)


Ana Vidal,

 

Há dias assim

 

Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida, toda ela, para que não nos esqueçamos de nenhuma das suas etapas. Que começam com uma aurora magnífica, uma verdadeira explosão de vida, e acabam num suicídio colectivo de estrelas desesperadas, como anjos caídos em desgraça. Pelo meio, uma tarde em que a morte nos reclama, lembrando-nos de que até os nossos sonhos lhe pertencem. Que só os temos de empréstimo. A prazo. Há dias assim. Em que a terra treme e se revolta sob os nossos pés. Em que nada, nem ninguém, pode preencher os interstícios da nossa solidão. Em que um allegro matinal sucumbe sem remédio a um adagio vespertino que antecipa já, por sua vez, um inevitável requiem nocturno. Há dias assim. Feitos de espanto e de torpor. De glória e de derrota. De risos e de lágrimas. Da luz mais alta e das mais fundas sombras. De caminhos inesperados, improváveis. Impossíveis de percorrer. De um céu aberto por um sol resplandecente e fechado por uma lua nova, embuçada em brumas. Há dias assim. Inteiros, redondos, assustadoramente completos. Como uma síntese da vida.

 

(Imagem: René Magritte – Les Mémoires d’un saint)

Ceci n’est pas un post (16)


Ana Vidal,

 

Civilização

 

Hoje acordámos algures entre o Tigre e o Eufrates, e do mais alto zigurate contemplámos o mundo. Deixámo-nos cobrir de ouro e pedrarias e, com as asas de Enlil, voámos sobre Ur como pássaros deslumbrados. Eu dei-te o sagrado nome de Dumuzi e tu chamaste-me Inanna, tua rainha. E descobrimos em nós o mar primordial, os ancestrais tesouros que tínhamos guardados, sem o sabermos, na montanha cósmica da nossa memória. Hoje fomos inspirados Hammurabis bordando palavras novas em pedra, para que nunca mais as esqueçamos e os vindouros saibam, um dia, que as proferimos. Hoje selámos promessas com licores e tâmaras, tão doces como as nossas bocas recém-despertas. E depois esculpimo-nos em pedra negra com mãos aventureiras e livres, nessa pedra tão misteriosa como a origem do Tempo, sombreando a nácar e lápiz-lazuli o brilho fascinado dos nossos olhos. E por fim coroámo-nos imperadores do Sonho, porque os astros nos disseram que só ele persiste e permanece, mesmo quando tudo o mais se desfaz em ruínas.

 

 Hoje inventámos uma civilização. A nossa.

 

(Imagem: René Magritte)

Histórias de meninos


Ana Vidal,

 

Por mais que o marketing natalício nos atordoe com prendas e laçarotes, luzes faiscantes e toda a restante corte habitual de extras, o Natal é uma história simples. Grandiosa, mas simples. Trata-se do nascimento de uma criança. Prodigiosa, mas uma criança. E não o são, afinal, todas as crianças? Reduzida à sua condição mais depurada, a metáfora do Natal é óbvia: não perdermos nunca de vista o que é essencial, enredados em mil acessórios inúteis. Trago-vos aqui a história de uma outra criança, também ela muito especial. Sortilégio da época ou não, vem a propósito e é comovente.

 

Um Feliz Natal para todos.

Ceci n’est pas un post (15)


Ana Vidal,

 

Matriz

 

Nascem predestinadas, portadoras de um gene que as domina toda a vida: o do embalo. Por isso têm macia e lisa a pele dos braços e do colo, quente aconchego que cedo aprendem a oferecer. Embalam bonecas e bichos, mães extremosas de palmo e meio que afinam gestos futuros e marcam territórios de conforto e protecção. Embalam irmãos, primos e companheiros de brincadeiras quando lhes secam, com beijos e sorrisos, as lágrimas de uma injustiça ou de um desaire. Embalam sonhos românticos, adolescendo na certeza de que haverá um mundo perfeito à sua espera, feito de perfeitas metades que se unirão por artes de magia. E quando o mundo se lhes revela sem máscaras, embalam a desilusão e seguem em frente. Embalam os seus homens – frágeis botes enfrentando intempéries – uma vida inteira. Fazem-se portos seguros, acolhendo exauridos náufragos ou heróis vitoriosos, esquecidas das suas próprias viagens. Embalam os filhos, ai, como embalam os filhos para sempre. Embalam amigas, patrões, colegas e vizinhos, a menina da caixa do supermercado, a manicura ou o merceeiro viúvo que mal conhecem, só porque eles estão com ar de quem precisa de desabafar. Embalam netos e, neles, de novo os filhos, retomando um ciclo nunca quebrado, nunca traído. Embalam, finalmente, todos os amores vividos, as promessas antigas, os planos adiados, juntam-lhes memórias de tempos felizes e de tudo fazem uma manta quente com que agasalham os dias de solidão. Embalam saudades. Embalam a vida. Embalam o mundo.

 

Todas as mulheres são mães. Mesmo as que nunca o foram. Mesmo as que nunca o serão.

Quem as embala?

 

(Imagem: René Magritte)