Matriz
Nascem predestinadas, portadoras de um gene que as domina toda a vida: o do embalo. Por isso têm macia e lisa a pele dos braços e do colo, quente aconchego que cedo aprendem a oferecer. Embalam bonecas e bichos, mães extremosas de palmo e meio que afinam gestos futuros e marcam territórios de conforto e protecção. Embalam irmãos, primos e companheiros de brincadeiras quando lhes secam, com beijos e sorrisos, as lágrimas de uma injustiça ou de um desaire. Embalam sonhos românticos, adolescendo na certeza de que haverá um mundo perfeito à sua espera, feito de perfeitas metades que se unirão por artes de magia. E quando o mundo se lhes revela sem máscaras, embalam a desilusão e seguem em frente. Embalam os seus homens – frágeis botes enfrentando intempéries – uma vida inteira. Fazem-se portos seguros, acolhendo exauridos náufragos ou heróis vitoriosos, esquecidas das suas próprias viagens. Embalam os filhos, ai, como embalam os filhos para sempre. Embalam amigas, patrões, colegas e vizinhos, a menina da caixa do supermercado, a manicura ou o merceeiro viúvo que mal conhecem, só porque eles estão com ar de quem precisa de desabafar. Embalam netos e, neles, de novo os filhos, retomando um ciclo nunca quebrado, nunca traído. Embalam, finalmente, todos os amores vividos, as promessas antigas, os planos adiados, juntam-lhes memórias de tempos felizes e de tudo fazem uma manta quente com que agasalham os dias de solidão. Embalam saudades. Embalam a vida. Embalam o mundo.
Todas as mulheres são mães. Mesmo as que nunca o foram. Mesmo as que nunca o serão.
Quem as embala?
(Imagem: René Magritte)


Belo, como sempre.
🙂
Ana, parabéns pela sua escrita, é de uma sensibilidade que me fez ficar comovida.
Já escrevi e apaguei algumas vezes este comentário, é que é de uma verdade tão grande que me deixou sem palavras.
Parabéns, e aproveito para desejar a todos os delituosos e famílias um Bom Natal.
Muito obrigada pelas suas palavras, Maria.
E um optimo Natal para si também.
Embaladoras. É o que nós somos. Muito bom, Ana.
Quase uns berços, Leonor. É o que somos, e ainda bem.
Belíssimo texto, Ana. Parabéns.
Obrigada, Pedro.
Ana, bonito post, gostei muito. Um Feliz Natal .
Beijinho
:))
E eu gosto muito de vê-la por cá, Ariel.
Feliz Natal e um beijinho natalício.
Pode imaginar-se a dor de ter mãe sem ser assim?
Eu não posso, A. Tive uma mãe excepcional.
Gostei muito, Ana. Quem as embala? Pois. That is the question…
Pois é, Teresa. Mas acho que nunca deixaremos de embalar por não termos retorno. Está-nos no sangue.
Ana, é recorrente. Cada quadro/poema seu remete-me para um outro poema. Desta vez ocorreu-me “O recreio” de Mário de Sá Carneiro:
Na minha Alma há um balouço/ Que está sempre a balouçar/Balouço à beira de um poço,/Bem difícil de montar…/- E um menino de bibe/Sobre ele sempre a brincar…/Se a corda se parte um dia/(E já vai estando esgarçada),/Era uma vez a folia:/Morre a criança afogada…/- Cá por mim não mudo a corda,/Seria grande estopada…/Se o indez morre, deixá-lo…/Mais vale morrer de bibe/Que de casaca… Deixá-lo/Balouçar-se enquanto vive…/- Mudar a corda era fácil…/Tal ideia nunca tive…”
Imagino um «exaurido náufrago», neste retrato do terror/ fascínio pelo momento em que se esse embalo, por algum motivo, quebra. Onde encontrar (então) a nau/ berço da paz?
Obrigada pelo poema delicioso. Fico contente por saber dessas associações poéticas, que muito me honram.
Um Feliz Natal para si, Leonor.
(esqueci-me de preencher o registo e o comentário que acabei de enviar saiu anónimo).
Mas assim posso desejar um feliz Natal 🙂
ui, eu teria tanto para dizer sobre este teu texto… 😉 prefiro piscar-te o olho!!!
beijinhos querida
Calculo, calculo… beijos, miúda.
Bom ano!