O “país à rasca” na rua


Ana Vidal,

 

O “país à rasca” está na rua, literalmente. Na rua, onde foi posto pela empresa, pelo senhorio, pelo banco, pelo hospital. Mas, sobretudo, na rua pela incompetência, abuso e falta de vergonha de quem o tem governado. Até a habitual apatia dos portugueses parece ter chegado ao fim, in extremis.  E alguém se admira?

 

Tristes tempos estes, em que se prolonga a vida para depois se morrer de fome, de abandono, de carência. Estes em que caminhamos sem norte, mas a “alta velocidade”, para o abismo. Estes em que, como li por aí um dia destes, o fim do mês assusta mais do que o fim do mundo.

Convidada: RITA VASCONCELLOS


Ana Vidal,

 

 

 

Rita Vasconcellos

 

Nota 1: Este cartoon foi oferecido ao Delito pela minha amiga Rita Vasconcellos, convidada de hoje na nossa “passadeira vermelha”. Vinha acompanhado das seguintes palavras: “O Walter ficou aterrado com o vosso simpático convite, e a pensar que ia ‘dormir fora de casa’, mandou-me tratar do assunto. Assim, aqui vai um misto do espírito de Magritte (de que tanto gostas) e de Kim Grove. Uma Grove/Glove … ! A ver se os amigos do ‘Delito’ aceitam o desafio de completar a frase.”

 

Nota 2: Parabéns à Rita e ao Walter-Ego, que nasceu num blogue e vai passar a livro muito em breve, pela mão da Leya.

Este país não é para novos


Ana Vidal,

 

Não conheço bem os contornos da lei e não gosto de pronunciar-me sobre assuntos que não domino completamente. Mas há qualquer coisa de profundamente aberrante na atribuição de um “subsídio de maternidade” (é assim mesmo que se chama) a quem pratica voluntariamente um aborto. Não é, sequer, uma questão de moral, mas do mais elementar bom senso. Para começar, é incompreensível – se não provocatória – a própria designação do subsídio, atribuído exactamente a quem rejeita a maternidade. Mas não é só isso: numa década em que a natalidade atingiu em Portugal os níveis mais baixos de sempre, esperar-se-ia do governo um forte incentivo à procriação. Somos cada vez mais um país de velhos, sem que se divise no horizonte quem trabalhe para sustentar a nossa improdutiva – e cada vez maior – longevidade. Nem sequer aqueles miseráveis duzentos euros  que chegaram a ser anunciados como prémio por cada nascimento, ridículos e insuficientes que fossem, acabaram por vingar. Pior: à sombra das omnipresentes medidas de contenção, o governo está a extinguir a eito os abonos de família, o que ajuda ainda mais a que os jovens casais, já temerosos do futuro, não arrisquem sequer constituir família. Estranhamente, parece não haver falta de dinheiro para subsídios que incentivam a opção de não ter filhos. Uma IVG é um acto cirúrgico (ou nem isso, em alguns casos) a que qualquer mulher abrangida pelo SNS tem direito, a coberto da lei, e que inclui  naturalmente as correspondentes regalias sociais. Como qualquer outra situação de baixa, aliás, enquanto a mesma se justifica. Porquê então um subsídio equivalente ao salário de um mês, livre de impostos e a ser gozado em casa ou noutro lado qualquer, à escolha? Porquê esta espécie de férias pagas, um prémio a que algum iluminado se lembrou de chamar, ainda por cima, “subsídio de maternidade”? Alguém me explica a lógica disto?

Convidado: JANSENISTA


Ana Vidal,

 

Lex Loci Delictus


Raramente me tenho aventurado para fora do Ashram; mas, de vez em quando, solicitado, lá arrasto penosamente a minha artrose intelectual para fora dos portões.
Como estou aqui numa visita de cortesia, deixem-me explicar como é que cometi o delito de converter o call sign Jansenista numa coisa mais demolidora da pureza da ideia jansenista do que a própria bula Unigenitus.
A ideia inicial era a de dar testemunho de veneração pelo meu pai. Na missa de sétimo dia José Hermano Saraiva, um confesso admirador, entre rasgados elogios à elegância nos gostos e nas atitudes, “dignas de um príncipe”, aludiu à lealdade inabalável e à obstinada reserva, “a atitude de um jansenista”; e eu retive a ideia. Depois vieram o “Tous les Matins du Monde”, releituras de Pascal, a minha atávica francofonia e francofilia, os ecos de uma infância austera e desafiadora, as lembranças de uma espiritualização quase paradoxalmente secularizada e intelectualizada, Rousseau, Kant, o meu republicanismo e a minha impiedade galicana-pietista, e aqui, e ali, e assim, e assado.
Admito que o propósito se manteve intacto por muito pouco tempo, porque o meio parecia propício a deambulações e a entrechoques muito férteis, e eu sentia-me desafiado por tudo. Podia ter seguido a via do blogue unitemático, mas o apetite omnívoro venceu tudo. Vieram lutas, tempestades, conversas com espíritos elevados, celebrações de nascimentos e de mortes (muitas!), risos, melancolias – coisas que deixam cicatrizes, e que por isso começaram a reclamar, crescentemente, a maquilhagem anti-envelhecimento.
No Outono do Ashram (estas coisas tendem a ter vida curta) a maquilhagem tornou-se tudo, e a evolução fez-se na direcção da ditadura da estética, o que pode tomar-se por capitulação perante a aridez das ideias (a aldeia Potemkine atrás da qual nada existe), mas mais generosamente se considerará ser uma exploração das potencialidades de partilha sensorial que o meio também propicia.
Que longe vai a austeridade que se proclamava na visão sobre a “espuma dos dias”! Como a rotina é capaz de causar a erosão das boas ideias!
E no entanto tenho a sensação de que de muito pouco me arrependo, nestes ziguezagues erráticos  de que se compõe esta falta de unidade que espelha a falta de unidade dos meus pobres talentos.
E no entanto, um blogue que se tornou pluritemático não será que exibe mais claramente o seu tema, que é o da tradução autêntica daquilo que acontece sem tema?
Proust dizia que os livros são como cemitérios nos quais as lápides têm inscrições que o tempo apagou (na linguagem dos comuns, são um compósito de dívidas de que não retivemos a primitiva autoria). Faute de mieux, recobri as minhas lápides com cromos coloridos e músicas que me soam bem – como se fosse um jansenista traidor, um daqueles que ainda foram a tempo de se reconciliarem com a vida.

 

 

O Jansenista

Convidada: GRANDE JÓIA


Ana Vidal,

 

Viajantes

 

Parecem viajantes, deslocam-se com malas de médio porte em passo lento pelas calçadas. Assim de repente, ficamos com a ideia que pelas cidades passeiam ora jovens de outras nacionalidades com mochilas e rolamentos, ora gente de meia-idade à procura de alojamento. Em Londres, por exemplo, é normal a correria entre metro, comboio e autocarro, casa ou emprego com as malas pelo caminho. Logo pela manhã, o passo apressado que se verifica nos passeios da cidade é acompanhado por pessoas que saem com destino marcado, seja uma estação de comboio, um aeroporto ou apenas mais um dia de trabalho. Por isso, quem habituado a uma vida de correria entre pontos de encontro observa cidades, não lhe parece estranho ver gente arrastando malas rua acima rua abaixo. Quando o olhar se cruza com quem se desloca ou nos deparamos com quem a dada esquina ou montra de loja conversa com outro viajante, verificamos que afinal a mala é a casa e o viajante vive acompanhado pelos seus pertences, almoça ou janta no albergue mais próximo, veste roupa lavada e usa as facilidades sanitárias dos banhos públicos ou casas de apoio e de solidariedade ao dispor. São reflexos dos tempos, escolhas de outros, dizem alguns, são os viajantes sem tempo, eternos andantes de um lado para o outro, com medo de morrer num lugar onde nem os cães os encontrariam. São os desconsiderados pela família, pelos vizinhos, pelos conhecidos, são os corpos castigados pelo sistema que por eles vai zelar e que no final lhes penhora a mala ou a vida. São pessoas que têm cara lavada e roupa a condizer e que, no Portugal supostamente ainda solidário, nos parecem apenas viajantes.

 

A morte da idosa abandonada há nove anos num apartamento perto de Sintra vem de forma abrupta pôr em causa a ética social em que vivemos e para quem a palavra dos vizinhos não bastou e a falta de respeito da família levou à execução fiscal. Tivesse a pobre senhora feito parte dos viajantes com mala a reboque e, muito provavelmente sem querer tal sorte, ainda contemplaria a vida pela janela duma ilusão mais consoladora.

Escolher é um direito, optar por uma escolha nem sempre é igual a estar melhor, mas é seguramente um dever de todo o cidadão e um direito duma sociedade democrática. Pensemos, então, no que podemos fazer para evitar casos semelhantes e olhemos menos criticamente para esses viajantes que, não tendo casa, vivem de forma errática pelas cidades.

 

Grande Jóia (GJ)

 

 

 (Imagem: Graça Morais)

Convidado: PAULO ALMEIDA


Ana Vidal,

 

Elisabete Matos

 

Quando li as primeiras linhas do convite da Ana Vidal, pensei tratar-se de um equívoco. O que poderia eu ter a dizer que interessasse aos leitores do Delito de Opinião? Logo a seguir encontrei a resposta e o convite tornou-se irrecusável.

 

Os jornais e as televisões contam-nos todos os dias o que sentiu o Cristiano antes e depois do golo e o país contém a respiração se se vislumbra a hipótese de um pequeno desentendimento entre Mourinho e o presidente do Real Madrid. Porém, se esquecermos o futebol, pouco se fala de quem tem sucesso fora deste pequeno país. Tão pequeno que quem é grande não cabe nele, perde a paciência para a pequenez dos grandes que cá mandam e vai à sua vida.

 

(A nossa special one da música, aqui nos agradecimentos na récita de estreia no Met, entre o tenor Marcello Giordani e o maestro Nicola Luisotti)

 

Elisabete Matos nasceu em Caldas das Taipas, estudou violino e canto em Braga e, graças a uma bolsa da Fundação Gulbenkian, continuou os estudos em Madrid, onde reside actualmente. Cedo começou a receber convites para cantar em Barcelona, Hamburgo, Tóquio, Milão, Nápoles, Roma, Washington, ao lado de José Carreras, Plácido Domingo, Deborah Polaski, com maestros como Barenboim, Muti, Maazel ou Mehta. Para a reabertura do Teatro Real de Madrid em 1997, após longos anos de obras, foi escolhida a ópera “Las Divinas Palabras”, de García Abril, com Elisabete Matos e Plácido Domingo no elenco.

Por cá, devagarinho, alguém ia percebendo que tínhamos ali cantora e, com muita timidez, os primeiros convites foram surgindo, normalmente para papéis pequenos, não fosse Elisabete Matos não dar conta do recado. Foi preciso alguém chamar a atenção de quem de direito para a “Tosca” que Elisabete estava a cantar no Porto para que o Teatro de São Carlos a convidasse para esse mesmo papel. Em 2008, finalmente, Matos interpretou em Lisboa uma das maiores personagens da ópera italiana. A “Salome” prometida para a temporada seguinte não chegou a acontecer. Ou melhor: aconteceu, mas os desígnios do destino, que é como quem diz, quem dirigia o Teatro Nacional de São Carlos, não quiseram que ela a cantasse, perdendo-se assim a oportunidade de vermos Elisabete Matos estrear um grande papel do reportório straussiano em Lisboa.

 

No actual momento da nossa crise, as perspectivas não são risonhas. Elisabete Matos estará no concerto de abertura de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, mas os seus projectos mais imediatos passam primeiro por Roma, numa nova produção de “Nabucco” que comemora os 150 anos da Unificação da Itália, com transmissão pelo canal Arte a 17 de Março (anote na agenda). Desejamos a Riccardo Muti uma rápida recuperação e que ele possa estar em Roma a dirigir essas récitas. Depois, entre outros compromissos, virão “Tosca” no Chile, “Turandot” em Las Palmas, “Macbeth” em Salzburgo, “Tosca” no Rio de Janeiro e o regresso a Nova Iorque. Em Dezembro do ano passado Elisabete Matos surpreendeu e deslumbrou o público do Met com a sua interpretação de Minnie, de “La Fanciulla del West”, repetindo o sucesso uns dias mais tarde ao substituir, por motivo de doença, a all-American diva Deborah Voigt.

 

 

Já ouviu? Acrescente-se que o Met, onde as temporadas e os elencos são definidos com dois ou três anos de antecedência, convidou Elisabete para voltar já no Outono como Abigaille (“Nabucco”).

Além do grande reportório italiano para soprano lírico-spinto e soprano dramático, Elisabete Matos aborda também as personagens wagnerianas de peso e acrescentou recentemente Isolda ao rol, papel que estreou em Oviedo escassas semanas após a Fanciulla do Met e com o qual obteve mais um enorme sucesso. O célebre Liebestod, a cena final de “Tristão e Isolda”, foi registado durante o ensaio geral. Proponho que fiquemos agora com ele, na esperança de que alguém ali pelo Chiado se lembre da dívida para com Elisabete e reconheça a imprescindibilidade da sua Isolda no Teatro Nacional de São Carlos.

 

 

Paulo Almeida

Convidada: ANDREA CARVALHO ROSA


Ana Vidal,

 

Manhã

 

Com a queda, a face direita colou-se-lhe ao chão. Sentiu a frescura da tijoleira da cozinha e, sem saber porquê, soube-lhe bem. Um ligeiro formigueiro percorreu-lhe o corpo, quis mexer-se e não conseguiu. Passados os instantes de aflição, entregou-se à paz anestesiada que veio embalá-la, num aconchego que lhe lembrou o da avó paterna, lá muito longe, quando era menina. Era manhã, uma aragem fresca vertia-se pelas frinchas das janelas e tomava o espaço silencioso, teimando contra os primeiros raios do sol. Os canários ensaiavam trinados na marquise. Ao longe ouvia-se o rumor do dia a levantar, os carros a acelerar no viaduto, uma criança nas escadas. Não chegara a casar, nem tivera filhos. Saiu intempestivamente da aldeia quando o noivo lhe deu um estalo por ter entrado sozinha no café, à sua procura. Este pequeno incidente alterou-lhe a vida, foi a gota a mais que a fez largar um futuro que não queria para nada e desaguar em Lisboa, para o pé da irmã. Foi a melhor coisa que fez, disse-o pela vida fora. Em Lisboa, empregou-se numa casa de família, fez seus os filhos dos patrões, que recebia com mimos e pão-de-ló, quando chegavam do colégio. Nas manhãs soalheiras de Sábado, cantava alegremente, as cantigas que ouvia na rádio, os meninos entrando-lhe na cozinha a cheirar o almoço, a comer da massa dos rissóis que estendia, rindo-se das suas cantorias. Namorar era complicado, não lhe sobrava tempo para assuntos que tais. Os Domingos passava-os em casa da irmã, faziam croché no sofá, junto à janela, e ajudava na lida da casa, que a irmã trabalhava para fora.

Não tinha medo de morrer. Assim como assim, a vida trazia-lhe já poucas alegrias, os dias sucedendo-se iguais, da cama para a cozinha para o televisor. Juntara-se, tarde, a um senhor viúvo, partilharam a casa meia dúzia de anos, meia dúzia de anos de sossego conjugado, depois a doença levou-o, havia já tanto tempo. A partir daí custara-lhe, sobretudo, o silêncio. Sentia, ao final dos anos, a falta das tarefas que se encadeavam nas seguintes e não lhe deixavam tempo para pensar na vida. De pouco lhe serviam agora as mãos, outrora habilidosas. Quando as pernas fraquejaram deixou de sair e, com o tempo, deixara de se importar com isso, afinal, sair era uma trabalheira, para ela e para quem fosse que a levasse. Ultimamente vivia mergulhada no passado, as memórias e as novelas ocupavam-lhe os dias e os bichos faziam-lhe companhia. Não, não tinha receio da morte. Sentia a tranquilidade das coisas inevitáveis e a irmã, serena, do lado de lá.

Soube da presença do cão, lá longe, junto de si, mas já não pôde sentir-lhe a língua quente nas mãos apaziguadas. Sorriu, percebendo na boca o gosto dos quadrados de noz que os meninos tanto gostavam e que comia no dia seguinte, ao pequeno-almoço, com o café aguado da cafeteira de esmalte. Veio-lhe à memória aquela canção que cantarolava nas manhãs de sol, quando a casa se aquietava e se entregava à lida. Como é que era? Ah, sim, começava assim:

 

Andrea Carvalho Rosa

O atestado ou a vida?


Ana Vidal,

 

Esta cena obscena (a cacofonia soa bem aqui, condiz com o tema) não se passou num país africano, na América latina ou numa das ditaduras árabes agora em queda livre. Não, passou-se nesta muito democrática república portuguesa, à beira mar plantada e entregue aos bichos. Pois é, pasme-se. E sabem que mais? Não é Vara, o pequeno déspota de pacotilha, quem eu censuro. Dessa figura sinistra já não espero nada e nada me espanta. Censuro a médica, que dobra a espinha de imediato ao hitlerzinho que confunde um centro de saúde com o seu bunker privado. Eu  punha-o na rua, aos berros, não por ter esperança nalguma réstia de vergonha que exista ainda no homem, mas para que todos soubessem que nem todos somos boys & girls. E que  ainda não vivemos no Irão.

Rasgos (29)


Ana Vidal,

 

Pssst, chegue aqui e espreite esta maravilha que lhe trago hoje. Passeie-se pelos corredores dos maiores museus do mundo, detenha-se numa peça e analise-a até ao mais ínfimo pormenor. Fique o tempo que quiser, não paga mais por isso. Enfim, viaje pelo mundo encantado da Arte sem sair do seu sofá. Em tempos de crise, não se pode pedir mais, pois não?

 

Uma preciosa dica que agradeço à Eugénia.

Ceci n’est pas un post (23)


Ana Vidal,

 

Um beijo


É só um beijo, dizes. Não, não é. Um beijo, consentido e com sentido, nunca é só um beijo. É um vocábulo explícito de uma linguagem ancestral, planetária e inequívoca. Encerra sempre, num molde indestrutível, o desejo que o forjou. Traz em si a memória de beijos passados,  a expectativa de beijos sonhados e o embrião de beijos futuros. E mesmo que não tenha passado nem futuro, cada beijo é, por si só, um universo.

 

(Imagem: René Magritte)

Dias de


Ana Vidal,

A embirrante febre dos “dias de” que se instalou por todo o lado, com a ajuda – e o esfregar de mãos! – dos comerciantes, dá em aberrações como este anúncio que encontrei no facebook:

 

Dia 14 de Fevereiro, Segunda-feira é o dia V de São Valentim ou tb dia N dos Namorados. Será tb o dia B de Branqueamento dentário. Faça o seu branqueamento em XXXXXX. A clínica XXXXXX oferece-lhe o do seu namorado e um jantar para os dois.

Mais estapafúrdio ainda – ou mais ironicamente significativo – é que o Dia dos Namorados seja também o Dia Internacional da Disfunção Eréctil. Das duas, uma: ou já esgotaram os dias do calendário, ou esta é mesmo a piada do ano! Sugiro que a Associação Nacional de Farmácias aproveite a dica dos dentes e ponha um anúncio também:

Dia 14 de Fevereiro, Segunda-feira é o dia V de São Valentim ou V de Viagra. Porque é tb dia DE de Disfunção Eréctil, corra já à sua farmácia a comprar os amigos azulinhos, ou arrisca-se a que a sua namorada recorde para sempre este dia como o dia M de Merda. Por cada duas caixas oferecemos-lhe um jantar para dois, enquanto esperam pelo efeito.

Adenda de 14 Fev: Ouvi de manhã, nas notícias, que hoje é também dia nacional DC de Doente Coronário. Não há dúvida de que os dias do calendário já não chegam para tantos “dias de”. Seja como for, à cautela não vá na conversa das farmácias. Pior do que a sua namorada ter um dia M por causa da sua DE que o levou à vertigem de querer um dia V, é você acabar por ter um dia H de Hospital. Ou, pior ainda, um dia C de Cemitério.

À ida


Ana Vidal,

Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar. Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.

Eclesiastes 3, 1-8.

     

    À ida, espero que Mubarak perceba finalmente que não é possível enganar todos durante todo o tempo, como pretendia o patético canto do cisne que foi o seu último discurso. Ou, melhor dizendo, a sua última manhosa canção do bandido. O Egipto acordou, e num despertar como este não há recuo nem operação cosmética que satisfaça um povo. Se o povo egípcio não está maduro para uma democracia ao fim de  quase cinco mil anos, quando estará? Esta hora é de celebração, de emoção, de alegria. Porque para tudo tem de haver um tempo. Os profetas da desgraça, geralmente sentados nos seus confortáveis sofás ocidentais, parecem não querer perceber esta simples  e eterna premissa: mesmo que os piores perigos se  venham a confirmar, mesmo que este povo tenha ainda de sofrer outras opressões, mesmo que esses perigos signifiquem uma ameaça para o resto do mundo, o curso da História é imparável e faz-se de momentos destes. De grandes ou pequenos avanços, de erros corrigidos, dolorosos quase sempre. Quem teimou durante três semanas ao relento, paciente e pacificamente, até conseguir o que queria, também saberá fazê-lo de novo se preciso for. O que for soará. O que foi, para já, é uma lição para todos nós. Como dizia aqui o nosso Rui, citando António Machado, o caminho faz-se ao andar.

    Our times


    Ana Vidal,

     

    “It is the logic of our times,
    No subject for immortal verse –
    That we who lived by honest dreams
    Defend the bad against the worse.”

    Cecil Day-Lewis

     

    (Nota: Além da sua poesia, Cecil Day-Lewis deixou-nos um talentosíssimo – e bonito, já agora – filho)

     

    Fotografia: Chema Madoz