Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião. Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar; tempo de matar e tempo de curar; tempo de derrubar e tempo de construir. Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar; tempo de chorar e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las; tempo de abraçar e tempo de afastar. Há tempo de procurar e tempo de perder; tempo de economizar e tempo de desperdiçar; tempo de rasgar e tempo de remendar; tempo de ficar calado e tempo de falar. Há tempo de amar e tempo de odiar; tempo de guerra e tempo de paz.
Eclesiastes 3, 1-8.
À ida, espero que Mubarak perceba finalmente que não é possível enganar todos durante todo o tempo, como pretendia o patético canto do cisne que foi o seu último discurso. Ou, melhor dizendo, a sua última manhosa canção do bandido. O Egipto acordou, e num despertar como este não há recuo nem operação cosmética que satisfaça um povo. Se o povo egípcio não está maduro para uma democracia ao fim de quase cinco mil anos, quando estará? Esta hora é de celebração, de emoção, de alegria. Porque para tudo tem de haver um tempo. Os profetas da desgraça, geralmente sentados nos seus confortáveis sofás ocidentais, parecem não querer perceber esta simples e eterna premissa: mesmo que os piores perigos se venham a confirmar, mesmo que este povo tenha ainda de sofrer outras opressões, mesmo que esses perigos signifiquem uma ameaça para o resto do mundo, o curso da História é imparável e faz-se de momentos destes. De grandes ou pequenos avanços, de erros corrigidos, dolorosos quase sempre. Quem teimou durante três semanas ao relento, paciente e pacificamente, até conseguir o que queria, também saberá fazê-lo de novo se preciso for. O que for soará. O que foi, para já, é uma lição para todos nós. Como dizia aqui o nosso Rui, citando António Machado, o caminho faz-se ao andar.

Tchim, tchim, Ana. À liberdade.
Talvez fosse mais apropriado o coro dos escravos do Nabucco, mas não resisti a escolher esta marcha triunfal no Egipto.
Foi uma excelente escolha, Ana.
“o caminho faz-se ao andar.”
Andemos, pois…
(que para o ano tenha, senão entretanto, prenda igual. Parabéns atrasados…)
E à volta há outra banda sonora para as belíssimas palavras do Eclesiastes: http://www.fileden.com/files/2009/5/3/24 27914/Byrds%20-%20Turn%20Turn%20Turn.mp3
Mas a tua foi muitíssimo bem escolhida. É Egipto, é triunfal. É Verdi, pronto! 🙂
Teresa, mas que bela malha para a volta!
E tens razão. Felizmente, não é só o pensamento que é livre hoje no Egipto, como no Nabucco. Mas Verdi é como as massas da Nacional: É bom!
Obrigada, Rogério. Mas não espero a mesma sorte todos os anos… era pedir de mais.
O que foi, para já, é uma lição para todos nós.
Não sei quem preetende abranger com esse “todos nós”. Os autores do blog? Os democratas? Os portugueses? Os europeus?
A lição não tinha já sido dada antes? Quantas vezes só no século passado?
Será, então, mais uma lição. E é, sobretudo, uma lição para quem mede pela mesma bitola todos os seguidores do Corão, como se todos fossem extremistas, perigosos e incapazes de uma acção pacífica.
A citação do Eclesiastes, no post, falha completamente o sentido original e contextual do trecho em questão.
Contudo, tal erro é muito comum.
Porquê, Sampy?
O livro é um hino ao sem-sentido e absurdo da existência (que o autor reconhece, ainda que resista a aceitá-lo).
É nessa linha que deve ser lida a passagem citada: no mundo há espaço e tempo para tudo (e o seu contrário). É como as moedas: têm sempre duas faces. Se hoje sai cara, lá virá o tempo para sair coroa. E vice-versa. Inexoravelmente, sem que nehuma delas prevaleça, numa repetição cíclica interminável.
Aplicando: hoje canta-se a queda da ditadura; lá virá o tempo em que ela se erguerá de novo. Hoje juram-se loas de amor à democracia e à liberdade; mais um pouco e soarão os gritos de ódio e perseguição. Tudo o que estamos a ver a nascer tem já os dias contados. Nada faz sentido, tudo é uma perda de tempo. “Nada há de novo debaixo do sol”.
Certamente que não era esta a linha de interpretação que se buscava quando se postou a citação…
Pelo contrário, Sampy, mantenho que a citação serve muito bem o meu texto. Mesmo dando como certa essa interpretação – que não é taxativa, uma vez que nem sequer o autor do Eclesiastes é comprovadamente conhecido – este belíssimo trecho fala dos inexoráveis ciclos da vida (a questão de que eles façam ou não “sentido” é discutível, a própria expressão é muito relativa) e, sobretudo, da sabedoria que há em aceitar esses ciclos e viver intensamente cada momento, sem querer antecipar o que se segue. E este momento, no Egipto, é de celebração. O resto se verá, a seu “tempo”. Era isso mesmo o que eu queria dizer.