Lex Loci Delictus
Raramente me tenho aventurado para fora do Ashram; mas, de vez em quando, solicitado, lá arrasto penosamente a minha artrose intelectual para fora dos portões.
Como estou aqui numa visita de cortesia, deixem-me explicar como é que cometi o delito de converter o call sign Jansenista numa coisa mais demolidora da pureza da ideia jansenista do que a própria bula Unigenitus.
A ideia inicial era a de dar testemunho de veneração pelo meu pai. Na missa de sétimo dia José Hermano Saraiva, um confesso admirador, entre rasgados elogios à elegância nos gostos e nas atitudes, “dignas de um príncipe”, aludiu à lealdade inabalável e à obstinada reserva, “a atitude de um jansenista”; e eu retive a ideia. Depois vieram o “Tous les Matins du Monde”, releituras de Pascal, a minha atávica francofonia e francofilia, os ecos de uma infância austera e desafiadora, as lembranças de uma espiritualização quase paradoxalmente secularizada e intelectualizada, Rousseau, Kant, o meu republicanismo e a minha impiedade galicana-pietista, e aqui, e ali, e assim, e assado.
Admito que o propósito se manteve intacto por muito pouco tempo, porque o meio parecia propício a deambulações e a entrechoques muito férteis, e eu sentia-me desafiado por tudo. Podia ter seguido a via do blogue unitemático, mas o apetite omnívoro venceu tudo. Vieram lutas, tempestades, conversas com espíritos elevados, celebrações de nascimentos e de mortes (muitas!), risos, melancolias – coisas que deixam cicatrizes, e que por isso começaram a reclamar, crescentemente, a maquilhagem anti-envelhecimento.
No Outono do Ashram (estas coisas tendem a ter vida curta) a maquilhagem tornou-se tudo, e a evolução fez-se na direcção da ditadura da estética, o que pode tomar-se por capitulação perante a aridez das ideias (a aldeia Potemkine atrás da qual nada existe), mas mais generosamente se considerará ser uma exploração das potencialidades de partilha sensorial que o meio também propicia.
Que longe vai a austeridade que se proclamava na visão sobre a “espuma dos dias”! Como a rotina é capaz de causar a erosão das boas ideias!
E no entanto tenho a sensação de que de muito pouco me arrependo, nestes ziguezagues erráticos de que se compõe esta falta de unidade que espelha a falta de unidade dos meus pobres talentos.
E no entanto, um blogue que se tornou pluritemático não será que exibe mais claramente o seu tema, que é o da tradução autêntica daquilo que acontece sem tema?
Proust dizia que os livros são como cemitérios nos quais as lápides têm inscrições que o tempo apagou (na linguagem dos comuns, são um compósito de dívidas de que não retivemos a primitiva autoria). Faute de mieux, recobri as minhas lápides com cromos coloridos e músicas que me soam bem – como se fosse um jansenista traidor, um daqueles que ainda foram a tempo de se reconciliarem com a vida.


Parabéns por este bom momento literário.
Gosto de vê-lo por cá, Jansenista. Um abraço.
Formidável, como seria de esperar, mas inesperado, porque nunca o imaginaria fora do Ashram.
É boa, a vida com surpresas assim agradáveis.
(Por estas e outras preciosidades, Ana, é que se torna tão alta, a fasquia…
)
Vénia a todos os ilustres: o escriba supra, os anfitriões e os passageiros intemporais.
Maggie, aqui no Delito gostamos da fasquia alta. E todos são bem-vindos para o desafio de mantê-la!
Um beijo
🙂
O maior, o caro Jansenista. ! Já nos “conhecemos” há muitos anos blogoesféricos.
Obrigado aos anfitriões e aos comentadores. As comentadoras há muito que acarinham a causa mendicante de Port Royal – mas obrigado mais uma vez, tout de même.
Que verdadeiro delito, mon cher Janséniste, esta anfitriã que chega à festa depois do convidado de honra, que ainda por cima arrancou ao conforto sofisticado do seu amado Ashram! Terei perdão?
Resta-me, penhorada, agradecer esta visita que muito nos honra. Foi um prazer lê-lo, como sempre.
Salut et bon retour à Port-Royal!
Ignorava em absoluto este delito de opinião. Aqui cheguei por ser leitor diário do O Jansenista via Combustões. São blogs de visita diária assim como era este http :/ misantropoenjaulado.blogspot.com / já extinto. Ainda visito com frequência o http :/ dragoscopio.blogspot.com / mas como sionista que sou já fui mais regular nas idas ao Dragão.
…
Para quem quiser ter o prazer da leitura num puro deleite literário recomendo humildemente o Hugo Gonçalves linkado aqui : http :/ ilhas.blogspot.com /2011/01 fado-de-outono.html
Saudações Açorianas
João Nuno Almeida e Sousa
www ilhas.blogspot.com
Fico contente por nos ter descoberto, caro João Nuno. Se vem pela mão do Jansenista e do Miguel CB, vem com muito boas referências. Seja muito bem-vindo.
E talvez não saiba, mas eu tenho muito gosto em dizer-lhe, que hoje em dia pode ler o Paulo Cunha Porto no blogue Jovens do Restelo, que está ali na nossa barra lateral.
Volte sempre.
Esqueci-me de dizer que sou uma apaixonada irremediável pelas suas ilhas!
Um abraço à Atlântida.
Cara Ana Vidal,
Quando cá vier a São Miguel em Ponta Delgada sou pessoa fácil de encontrar e convido-a, com gosto, para um chá e uma massa sovada com doce de capucho. Agradeço a ref. aos “jovens do restelo ” que já está na minha barra de favoritos. Quanto ao http://www.ilhas.blogspot.com vai a caminho de uma década de existência e já viveu dias melhores mas ainda assim é uma referência, nem que seja “histórica”, de uma certa forma de estar no mundo vivendo nas ilhas por escolha própria. Visitem-no quando quiserem.
Saudações Açorianas,
João Nuno Almeida e Sousa
Muito obrigada, meu caro, não vou esquecer esse amável convite!
E o seu “Ilhas” já está também na nossa barra lateral.
Um abraço