Bem-vindo a Além do Défice, Dr. Sampaio


Rui Rocha,

Jorge Sampaio foi seguramente o Presidente que proferiu os discursos menos inteligíveis da história da democracia. Todavia, foi muito claro quando afirmou que há vida para além do défice. E tinha razão. Devia era ter acrescentado que viver acima das possibilidades implica, a médio prazo, uma vida com determinadas características. Ontem, uns bons anos depois de ter proferido a célebre frase, sacudiu a modorra para nos explicar que tipo de vida é essa:

“A insustentável acumulação da dívida externa, privada e pública, o insuficiente desempenho da economia, o aumento do desemprego, a estagnação e mesmo diminuição do nível de vida dos portugueses, com cerca de 18% da população em risco de pobreza e grandes desigualdades de rendimento, fazem com que Portugal – permitam-me a expressão – esteja em apuros”,

É um excelente diagnóstico. Todavia, peca por tardio. Os portugueses já tinham percebido. Há uns meses largos que sabem exactamente o que é viver nessa terra prometida.  E têm já uma ideia muito nítida de como será o futuro próximo aqui em Além do Défice. Por isso, importa dizer ao Dr. Sampaio que o país prescinde de diagnósticos e soluções requentadas (“plataforma de entendimento sim, eleições não” é o novo slogan do Dr. Sampaio) propostas, com uma lágrima de comoção ao canto do olho, por quem patrocinou a jornada em direcção a Além do Défice.

12 comentários em “Bem-vindo a Além do Défice, Dr. Sampaio”

    1. Está longe de ser o principal culpado, Carlos. Mas, tem a responsabilidade de não ter apontado um caminho de rigor e de exigência das contas públicas.

  1. Quanto mais, melhor

    Era uma vez um défice que vive nas bocas do mundo. Dia sim, dia sim, o défice dá sinais de vida. Há mais défice para além da vida! Muito mais, infelizmente. Com mais ou menos austeridade, o défice permanece bem activo e devastador, alimentando a insustentável gula do Gigante, claro. Qual parasita social! E, paulatinamente, a economia vai definhando. Contra factos não há argumentos.

    Nestas condições, a existência do défice assemelha-se, de facto, a um parasita num organismo debilitado. Pouco a pouco, ganha força à custa de outros, a começar pelos mais fracos. Destrói tudo o que lhe apareça à frente, sobretudo empresas e empregos. Vale quase tudo, por enquanto, menos tirar olhos. E o Gigante assiste, impávido e sereno, a tal espectáculo deprimente. Pudera! Grão a grão, o buraco vai aumentando.

    A falta de vergonha, extinta há algum tempo, permite que muitos se regozijem com a utilização de truques contabilísticos habilidosos, mas igualmente lodosos. Ou seja, a contabilidade criativa que transforma fundos de pensões em pozinhos orçamentais. Realmente, é muita criatividade para tanta trafulhice. As aparências iludem, alguns… Mais tarde ou mais cedo, pagaremos bem caro tais números ilusionistas miseráveis. Não há almoços grátis, definitivamente. Os números reais não enganam! Como o algodão…

    Deste modo, repetem-se os PEC’s (Programa de Estabilidade e Crescimento). Como em qualquer sequela cinematográfica, a paciência esgota-se. Reparem, até a própria designação é falaciosa, logo, chunga. Miseravelmente, chunga. O que é que esses programas têm de estabilidade? Bem, crescimento só se for da carga fiscal. O Gigante, por sua vez, adora PEC’s. Quantos mais, melhor! Se a aldrabice pagasse impostos, rapidamente teríamos superávite em vez de défice.

  2. Rui, também escrevi qualquer coisa no Quinta Emenda sobre isto. É, contudo, um olhar diferente porque me parece que “matamos” os “senadores” e eles ainda não deram por nada…

    1. Viva, Eduardo. Já fui dar uma vista de olhos. É verdade que os tempos que vivemos fazem com que sejamos rápidos a pressionar o gatilho. Existe o risco de não ficar pedra sobre pedra. Agora, parece-me também que quem quer ser senador tem que lhe vestir a pele. E não se pode guardar para o diagnóstico da doença quando esta já é praticamente incurável.

      1. Parece-me, Rui, que já não há por aí pele de senador… Há umas coisas sintéticas que não passam de disfarces. Bons para esta altura de carnaval e de máscaras, mas nada mais que isso.

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