Acabo de ouvir uma investigadora da Universidade do Minho (não fixei o nome), entrevistada na RTP1, classificar de “eufusivo” o discurso de Sócrates no congresso. Pareceu-me efórica.
Eforias
Ana Vidal,
Acabo de ouvir uma investigadora da Universidade do Minho (não fixei o nome), entrevistada na RTP1, classificar de “eufusivo” o discurso de Sócrates no congresso. Pareceu-me efórica.
Lugar
Há uma rosa no solitário da janela, champagne nos copos, Verdi no ar. O relógio parou. Eu leio-te o desejo nos olhos, tu lês-me Borges depois do amor. O lugar, que importa? Pode ser uma mansarda em Montmartre, uma villa em Scirmione, uma caverna em Matmata, uma cabine no Expresso do Oriente, uma cubata no Quénia ou um mosteiro suspenso nos Himalaias. Ou pode ser simplesmente o nosso quarto, com o mundo inteiro aos pés. O lugar somos nós, onde quer que estejamos.
(Imagem: René Magritte)
O Gato de Janeiro
Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.
Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.
A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank. O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.
Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.
Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas “Auschwitz cat” trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.


Se o Cinema é a Arte da repetição (mas essa é outra conversa), aproveito para deixar aqui mais um dito que anda na boca do nosso povo há anos, e que reza mais ou menos assim: «Tendo nós novecentos anos de História, com tantas histórias, porque é que não retiramos daí inspiração para criarmos argumentos para os nossos filmes?». Pois… Não sei, ou prefiro não saber. Mas, é fácil de perceber que a vida de Dom Afonso Henriques daria uma extraordinária longa-metragem, com todos os ingredientes de que os espectadores gostam: um herói, acção, aventuras, perseguições, sexo, amor, batalhas, viagens, paisagens, mistério, segredos, traição, ódio, sangue, e por aí fora… Já que estamos lançados, aproveito para lembrar que todo e qualquer um dos nossos Reis daria um filme de fundo bom em qualquer parte do planeta. Não é exagero, é uma convicção formada no visionamento e análise de centenas de filmes históricos. Um possível slogan para estas películas de época seria: «Oitocentos anos de Monarquia são a nossa garantia».
Pelo meio — entre as histórias, que se escrevem e planificam a fim de passarem a imagens em movimento com som e tudo, e as estrelas, também já nossas conhecidas, que brilham na tela — ficam os recursos técnicos de várias áreas estéticas: imagem, som, montagem, direcção artística (cenários e guarda-roupa). Nestas matérias, não julgo haver problemas de maior. Afinal, temos dos melhores profissionais do mundo nestes ofícios artísticos. Bem sei que alguns andam lá por fora a lutar pela vida, mas talvez regressem para ajudar a criar, definitivamente, uma Indústria de Cinema em Portugal. Havendo mercado, haverá dinheiro e remuneração condigna para quem a merece.

Finalmente, guardei ainda um pouco de tinta para falar de financiamentos. Embora Portugal tenha hoje — mais do que nunca — uma burguesia burgessa, inculta, e pouco dada a investimentos culturais (salvas raríssimas e honrosas excepções), é aí — apesar de tudo — que reside a esperança para um salto de escala da produção nacional. Os cineastas do futuro terão de libertar-se dos subsídios, e começar a pensar na preparação dos seus projectos com outras mais saudáveis engenharias financeiras. Todas as grandes Cinematografias estrangeiras (tirando a Soviética) se edificaram sobre uma estrutura económico-financeira empresarial privada. Já tinham reparado nisso?
E, por aqui me fico, antes que ofenda alguma alma mais sensível de algum confrade cinéfilo…
Apesar de todo o meu desgosto, atrás expresso, em relação ao actual panorama do Cinema Português (sendo sério, não poderia ter dito outra coisa), a minha esperança é muito maior do que o meu pessimismo e acredito no surgimento, no século XXI, de uma Indústria de Cinema em Portugal (feita por portugueses, mas aberta às co-produções lusófonas e europeias) capaz de produzir obras suficientes, em qualidade e quantidade, para serem exportadas para o planeta inteiro, superando barreiras linguísticas com boas traduções e legendagens, e, especialmente, tratando assuntos que cativem os públicos mundiais pela sua originalidade e identidade.
Efeitos anímicos
Foi despedida, exactamente dez minutos, antes da sua hora de saída do escritório. Com efeito imediato. E nem precisou de dar dias à empresa.
Arrumou tudo mecanicamente. Não teve tempo de dizer adeus à colega das fotocópias. Nem do rapaz dos cafés. Ficara mesmo sem saber o nome dele. Seis meses ali a trabalhar e nem lhe sabia o nome.
Estava agora na rua, numa noite fria de Outono baço, à espera do metro. Na estação só um homem, já velho e de ar abstraído, sentado no banco.
Ignorou-o. Na sua cabeça só pairavam as palavras da chefe: irresponsável, sempre atrasada, distraída, lenta, burra, sem iniciativa, tímida de mais. Palavras que cada vez mais iam subindo de volume, ao ponto de ter de agarrar-se à cabeça, para as parar de escutar.
Já o homem mantinha-se descontraído, e sacara do bolso do sobretudo um corta-unhas. Cruzara as pernas para ficar mais confortável e sem mais nada: clique-claque, clique-claque, clique-claque… na noite acústica.
Concentrado, limava com os dentes sépia, uma falha ou outra que escapara à destreza do corta-unhas, mirava as mãos de frente, polia com saliva, sorria como uma manicure e voltava à carga: clique, claque, clique, claque, clique, claque…
Aquela sonância metálica, repetitiva; a voz interior que lhe atirava ofensas de irresponsável, atrasada, tímida; a baba do velho a ser sugada pelas unhas baças; o lenta, o sem iniciativa, o burra; a cabeça a estalar; o está despedida; o clique-claque, clique-claque, clique-claque; a voz da chefe; a privacidade do velho…
Não suportou tamanho som junto. E na chegada do metro à plataforma, empurrou-os a todos numa só força: a chefe, a tímida e a burra, o corta-unhas, a colega das fotocópias, o emprego no escritório, o nome que não sabia do rapaz dos cafés, o clique-claque, a dor de cabeça, a noite gelada daquele Outono, a vida toda.
E o homem das unhas sujas também.

Volto a citar Sebastião da Gama para lembrar este sonho de que falei aqui há algum tempo. Gostei muito de saber agora, não só que ele persiste – apesar de todos os pesares que se adensam à nossa volta – como tem ganho um merecidíssimo destaque e já chegou a um programa de televisão de grande audiência. Vejam o video, vale a pena. Fico muito contente pela “Maria” (agora já sabemos que se chama Susana) e tenho a certeza de que vai conseguir o seu objectivo, custe o que custar. É um exemplo admirável de tenacidade e força. Precisávamos de muitos portugueses como ela.
Enjoy.
Marisa e os cupcakes
Marisa entrava no banco, picava o ponto, abria o computador e ia tomar o pequeno-almoço ao snack-bar do centro comercial. O pedido era sempre igual. Um galão morno e um bolo que escolhia na altura, de acordo com o humor e o apetite. Se acordava com desejo, o corpo quente, a vulva levemente inchada, pedia um jesuíta. Se a noite fora de insónia, os olhos postos nas horas do despertador, pedia um mil-folhas. Se acordava murcha, tristonha, como lhe acontecia tantas vezes, o amanhecer tão desgraçadinho visto do apartamento da Bobadela, pedia uma bola de berlim recheada. Era um consolo, um regalo, uma satisfação. Nada lhe dava mais prazer do que sentir os cristaizinhos de açúcar nos beiços, os dentes enterrando-se na massa frita e dourada, a boca enchendo-se de doçura, o recheio de doce de ovos, muito amarelo, espalhando-se pela folha do guardanapo de papel. Raramente pedia queques, madalenas e bolos de arroz, que a simplicidade de tais bolos a angustiava. Ficava-lhe, além do mais, a garganta muito seca, a arranhar, tinha de pedir ao empregado do snack-bar um copo de água para ajudar a engolir. Marisa vivia assim, trabalhando na repartição, regressando ao fim do dia ao apartamento da Bobadela, passando os fins-de-semana em fato de treino, em frente da televisão, papando telefilmes e séries americanas. A sua vida era absurda, um verdadeiro contra-senso porque a sua maior alegria era os dias tristes em que encontrava na angústia uma justificação para comer uma bola de berlim.
Um dia, porém, tudo mudou. No centro comercial, no corredor do snack-bar, mesmo à frente da loja de artesanato indiano, abrira um quiosque pequeno, redondo, todo pintado num cor-de-rosa vivo, de muito bom gosto. Vendiam bolinhos. Tinham uma máquina de tirar cafés modernaça, de cromados rutilantes, e duas vitrinas de queques enfiados em formas de papel, com cobertura colorida, feita de um creme que, pela densidade, aparentava ter a maleabilidade da plasticina. Vinham enfeitados com confeitos de açúcar de formas variadas, flores, corações, bolas, estrelas. Marisa nunca na sua vida de bobadelense ouvira falar da Basílica de São Basílio em Moscovo. Porém, se ocupasse menos do seu tempo a enfardar filmes dos canais generalistas e se se ocupasse mais com canais temáticos de viagens, talvez tivesse tido o rasgo de um comentário certeiro em frente da vitrina do quiosque novo e comparasse as coberturas daqueles bolos aos tectos bojudos, inchados, arrepiados da basílica moscovita. A cultura que tinha, conhecia o cristo-rei, o palácio da pena, pouco mais, só lhe permitiu dizer qualquer coisa como Ai, que coisa mais linda de se comer! Naquele instante, pressentiu, no entanto, que o que ali estava era mais do que meia dúzia de filas de bolinhos coloridos.
Uma colega da repartição explicou-lhe que os cupcakes – assim que se chamavam os tais bolinhos – eram uma tendência. Mulher moderna tinha de encher a boca, várias vezes por mês, com um bolo daqueles. Então ela, que tanto gostava de séries americanas, nunca vira aquela série das quatro solteironas de Nova Iorque? Aquelas que dormiam com muitos homens diferentes, vestiam roupas de estilistas famosos para ir passear ao parque e eram incrivelmente bem sucedidas? Não se lembrava? Elas, para além de dormirem com muitos homens, vestirem roupa de estilistas famosos para irem passear ao parque, para além de serem incrivelmente bem sucedidas, comiam cupcakes. Marisa lembrou-se. Apesar da explicação da colega, durante algum tempo, manteve-se fiel à pastelaria tradicional. Continuava a ir ao snack-bar e a pedir um galão morno e um bolo. Porém, cada vez que passava pelo quiosque enchia a boca com aquela palavra nova. Dizia-a devagar, experimentando cada sílaba: cu-pe-ca-ke. Deixava a palavra dançar na sua boca. Livremente. Não era só uma coisa linda de se comer, era também uma coisa linda de se dizer! Marisa descobriu, nesse preciso instante, haver em si um desejo de fuga, de modernidade, de emancipação.
No dia seguinte, voltou a entrar no banco, a abrir o seu computador, a picar o ponto e a sair para ir tomar o pequeno-almoço. Porém, em vez de ir ao snack-bar, dirigiu-se, com um passo envergonhado, ao quiosque cor-de-rosa vivo. Sentia que aquele não era o seu mundo, era um mundo a que queria pertencer, só não sabia se esse mundo a aceitava. Pediu um galão e um cupcake de chocolate. Galão não temos, explicou a empregada, brasileira muito sorridente, de dentes estragados, mas temos latte machiato. Pode ser, respondeu Marisa. Levou o seu tabuleiro e sentou-se numa mesa. Deu uma dentada e ficou à espera. A princípio, não apreciou a textura do que metera à boca. Bem vistas as coisas, mais não era do que um queque. A cobertura, a tal pasta que parecia plasticina, deixou-a mesmo ligeiramente agoniada. Só à terceira trincadela Marisa sentiu vir-lhe de dentro uma confiança que desconhecia. Pareceu-lhe até que o seu corpo mudava. Sentiu as mamas mais tesas e o cabelo, tinha-o ralo e oleoso, pareceu-lhe mais volumoso. Quando acabou de comer, reparou que o angariador de crédito fácil – homem jovem enfiado num fato de três botões que passava o dia a oferecer a quem passava a solução para todos os problemas – a olhava com um olhar ligeiramente bovino.
Marisa nunca mais largou os cupcakes. Não é que gostasse propriamente do sabor, mas, que diabo, percebia que comer um cupcake era muito mais do que comer um bolo. Deixou de vez as bolas de berlim, as parras, os alsacianos, os mil-folhas, toda essa pastelaria tradicional, representativa de um mundo anacrónico, triste, ordinário. Passou a sentir-se uma mulher nova, moderna, uma mulher do seu tempo. Renasceu à conta dos cupcakes. Com a ajuda da colega de repartição, aderiu a uma rede social, arranjou os sobrolhos, meteu unhas de gel, o angariador de crédito fácil avançou. Convidou-a para jantar num buffet asiático e, no fim-de-semana seguinte, papou-a no apartamento da Bobadela. Marisa sentiu-se profundamente agradecida aos cupcakes e às coberturas coloridas de queijo creme. Rapidamente se viciou na internet. Passava a noite na blogosfera e nas redes sociais, mostrando-se e sendo vista. Aprendeu depressa a linguagem das mulheres modernas, cheia de palavrões e detalhes de fornicanços. Soube ter muito cuidado na escolha das fotografias que colocou na sua página pessoal, que alguém podia assustar-se com o rosto equídeo e os dentes encavalitados. Descobriu que havia um mundo de deboche consentido que se abria todas as noites à sua frente.
Marisa continuou a comer cupcakes durante muito tempo. Quantos mais os comia, mais liberta se sentia, mais fornicava, mais gastava o ordenado em sandálias-bota e livros de auto-ajuda. Estava cada vez mais moderna. E feliz. Até que um dia, não se sabe bem o que se passou, talvez a cobertura de queijo creme não estivesse nas melhores condições ou as artesãs culinárias tivessem exagerado no corante alimentar, apanhou uma gastroenterite. Passou dois dias de cama, a vomitar um líquido viscoso, azedo, cor de cereja. A sofisticação e a modernidade saíram-lhe, dias depois, muito fedorentas, pelas tripas.
Para mim, um bom filme tem de ter, acima de tudo, uma boa história. Imediatamente a seguir, uma boa representação. E só depois, tudo o resto: realização, fotografia, som, cenários, figurinos, etc. Os aspectos técnicos de um filme não me prendem muito nem me empolgam, provavelmente porque não percebo o suficiente do assunto para que isso aconteça. Digamos que só reparo neles quando são excepcionalmente bons ou ostensivamente maus, o que já diz tudo sobre a minha capacidade crítica. Dêem-me um bom argumento, defendido por bons actores, e está garantida a minha paixão.
Quem tem medo de Virgínia Woolf? é um bom exemplo disso, e talvez por isso o elejo como um dos “filmes da minha vida”. Está entre o Teatro e o Cinema, ou não fosse este argumento uma obra prima de Edward Albee, um dos grandes dramaturgos americanos e mestre em tramas de labirintos psicológicos. E é esse despojamento de artifícios o que mais me apaixona no filme, porque, dispensando aparentemente tudo o que é acessório, não nos deixa escapatória ao colete de forças em que se vai transformando, a cada minuto que passa. E no entanto, o filme foi nomeado para TODOS os Oscares do ano em que concorreu (1967), façanha ainda hoje única na história do cinema. Das 13 nomeações ganhou 5, nas seguintes categorias: Melhor Actriz (Elizabeth Taylor); Melhor Actriz Secundária (Sandy Dennis); Melhor Direcção de Arte – Preto e Branco; Melhor Fotografia – Preto e Branco e Melhor Figurino – Preto e Branco. As outras 8 nomeações: Melhor Filme; Melhor Realizador; Melhor Actor; (Richard Burton); Melhor Actor Secundário (George Segal); Melhor Montagem; Melhor Banda Sonora; Melhor Argumento Adaptado e Melhor Som.
Albee convida-nos – ou obriga-nos, melhor dizendo – a um perturbante mergulho no abismo da intimidade de um casal maduro, desgastado e em queda livre. O meio intelectual a que pertencem não serve de bálsamo, mas antes de agravante, aos argumentos de ambos, sofisticadamente ácidos e letais. É uma luta de galos condenada a um desfecho trágico, por entre jogos de sedução e perversidade próprios de quem se conhece profundamente e se compraz numa auto-destruição lenta, torturante, sádica e falseada até à exaustão. A parada é alta, muito alta. O confronto é generosamente regado a álcool, tornando ainda mais terríveis as acusações, ainda mais expostas as fracturas, ainda mais patéticas as fragilidades, ainda mais desesperadas as tentativas de salvação. Somos arrastados para um sorvedouro de emoções que nos tira o ar dos pulmões, impotentes voyeurs diante de um espectáculo íntimo em que nos sentimos simultaneamente intrusos e cúmplices. Cúmplices de Martha e de George, à vez, ou de ambos, por percebermos que o cimento que une um casal nem sempre é feito de nobreza ou de beleza, mas não deixa por isso de ser cimento. E também cúmplices dos atónitos e manipuladíssimos Honey e Nick, dois jovens a quem as ilusões de um eterno romantismo conjugal são arrancadas de uma só vez e a sangue frio, pelo aterrador espelho de um possível (provável?) futuro. Uma simples e inocente visita de cortesia, após uma festa, transformada num pesadelo que os marcará para o resto da vida.
Quem tem medo de Virgínia Woolf? é o esplendor e a miséria da condição humana vista à lupa, à nossa disposição durante uma hora e meia. E nada nos perturba mais do que aquilo que nos serve de espelho. Nas palavras do próprio Edward Albee, “o Teatro do Absurdo serve para que possamos mergulhar um pouco mais nas nossas próprias loucuras e deixar de ver as dos outros com tanta supresa”.

Bette Davis e James Stewart (e também James Mason, ao que consta) chegaram a estar indicados para encarnar este casal psicótico, mas a escolha final da arrasadora dupla Taylor-Burton – casados na vida real por duas vezes e protagonistas de guerras e reconciliações antológicas – confere ao filme um misticismo especial e uma insubstituível chancela de realidade. A bela Elisabeth Taylor deixou-se engordar e desfigurou-se para melhor servir esta personagem devastada pela vida e pelo álcool, o que lhe valeu, além do Óscar, o respeito de quem não a considerava como actriz. Richard Burton, por excelência um homem do Teatro, está magistral no papel do frustrado George. E também os novos – Sandy Dennis e George Segal – parecem ter nascido para aqueles papeis. A tensão do texto foi de tal ordem que Sandy Dennis, grávida de poucos meses no início das filmagens, abortou espontaneamente.
Finalmente, last but not the least, o realizador: na sua primeira obra, Mike Nichols assina uma verdadeira peça de arte. E estava inspirado, já que logo no ano seguinte realizou outra – The Graduate – outro dos filmes da minha vida.
Nota: Republico hoje este post em memória de Liz Taylor.
CREIO
Creio nos anjos
que andam pelo mundo
Creio na deusa
com olhos de diamante
Creio em amores lunares
com piano ao fundo,
Creio nas lendas,
nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho
que falta mais fecundo
De harmonizar
as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno
num segundo,
Creio num céu futuro
que houve dantes,
Creio nos deuses
de um astral mais puro,
Na flor humilde
que se encosta no muro
Creio na carne
que enfeitiça o além
Creio no incrível,
nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o amor que tem asas
de ouro. Amén
Natália Correia
(por uma vez, um “dia de” a que não me importo de aderir. embora o sejam todos, afinal)
cada um é o milagre de si
há quem veja o milagre como uma prece ouvida por Deus, eu diria que é antes Deus expressando-se em nós. durante anos e anos fizeram-nos crer que era Deus lá em cima no céu e nós cá em baixo na terra e que re-ligar uns e o outro exigia a uns sacrifícios e ao outro misericórdia – para além de uma série de dogmas com que se disciplinaram as práticas religiosas, um pouco por todo o mundo. nunca estivemos tão longe de podermos ser um e o mesmo como durante estes tempos, em que acreditámos que o céu e a terra não eram um só e que a redenção era a promessa divina para a resistência ou mesmo a recusa aos pecados humanos.
se no princípio era o verbo, o som puro, depressa nos apropriámos dos seus timbres ocultos para transformar em palavras o que ele apenas intuía, soprando. e foi assim, acredito, que fomos gerando tantos equívocos. o milagre deixou de respirar das nossas entranhas – como ainda hoje respira das entranhas dos bichos, das árvores, dos rios – para se tornar num pedido a algo ou a alguém fora de nós. de co-criadores, passámos a seres criados à semelhança de Deus, sendo porém maiores as diferenças do que as semelhanças que nos consubstanciam na mesma essência.
não nos bastasse este logro, inventámos ainda que nem sequer Deus era um e o mesmo e demos-lhe designações, consoante a nossa cultura, a nossa história, os nossos mentores e, acima de tudo, os nossos medos. e as re-ligações – do que afinal sempre esteve ligado – ou as religiões que nos separaram do Todo – enraizaram em nós esta crença profunda de que temos de nos esforçar, de nos sacrificar, de carpir muito e de ser muito bondosos para podermos merecer a presença de Deus nas nossas vidas.
querer é um delito da mente, mas crer é um deleite do espírito. querer que o santo nos cure, que Nossa Senhora nos traga o alívio para as dores, que o Buda nos ilumine, que Alá nos receba de braços abertos, que os anjos nos guardem de todos os perigos não é mais, afinal, do que recusar expressar o milagre que cada um é para transformar em pedido o nosso desejo mais íntimo: sermos, à semelhança de Deus, os co-criadores do Universo e da Vida.
assim como a culpa dos males que nos grassam não é de terceiros, também a graça dos bens que colhemos não se fica a dever a benesses alheias. não creio sequer que possamos falar de bens e de males como se fossem coisas distintas, mas antes frequências da mesma espiral de energia, todas elas presentes em nós – e em Deus. não posso sequer garantir que faça um milagre maior o que aspira às alturas e sobe ou se é, afinal, o que desce aos abismos e mergulha no escuro o que verdadeiramente transmuta as sombras em luz. de uma coisa, porém, tenho a certeza: cada um é o milagre de si, sempre que crê ser parte do todo e se cura e se alivia das dores e se ilumina e se recebe de braços abertos e se resguarda dos perigos que o medo lhe impõe. o resto são histórias que nos contaram, mas nas quais é urgente repor a verdade: não há mesmo quem faça milagres por nós!
Cenário e personagens:
Uma típica middle class teenager americana: bonitinha, loira, filha única, mimada, indolente, insolente, a caminho da obesidade a passos largos.
Em suma – uma criaturinha insuportável.
Um típico middle class teenager americano, namorado oficial da dita: ar razoavelmente saudável mas apatetado, convencido, feiote, indolente, insolente, magro e borbulhento.
Em suma – uma criaturinha insignificante.
Uma típica middle class housewife americana: diligente, puritana, dependente, preconceituosa, opinativa, ignorante, resignada, lamechas, numa batalha perdida contra a obesidade.
Em suma – uma criatura frustrada.
Um típico middle class male americano: alarve, machão, preconceituoso, ignorante mas convencido da sua superioridade, obeso assumido, todo-poderoso, cruel, ditador.
Em suma – uma criatura perigosa.
***
Os pais não gostam do namorado da filha, acham que ela merece muito melhor. O namorado não gosta dos pais dela, e acha que ela tem muita sorte em tê-lo fisgado. A filha defende o namorado (sem grande convicção, diga-se) mas acha que não perde nada em dar o benefício da dúvida a mais alguns candidatos a um lugar no seu coração.
E começa o espectáculo: os pais entrevistam vários jovens, à vez – as perguntas de selecção são simplesmente inenarráveis – e cada um deles escolhe o que lhe parece o melhor para a filha. O pai escolhe um troglodita parecido consigo, mas numa versão teen e musculada, porque acredita que ele “tomará conta da filha” e que não deixará que lhe falte nada, no futuro. A mãe escolhe um invertebrado meloso e supostamente romântico, porque acredita que assim a filha terá sempre ramos de rosas e joelhos em terra, coisa que ela própria jamais soube o que é.
A filha presta-se ao papel de passar algumas horas com cada um dos dois eleitos, que tentará seduzi-la e conquistá-la com as armas que tiver e com as preciosas dicas que os pais lhe facultaram. Os pais ficam no sofá da sala, com o namorado entre eles, assistindo todos, na televisão (e comentando a três…) a evolução desses encontros, filmados em directo. Ouve-se frases tão extraordinárias como “O filho da puta está apalpá-la toda!”, uma legítima indignação manifestada pelo namorado e logo secundada pelo pai, pela primeira vez concordantes e irmanados no ciúme mais primário, ou “Estão a ver como ele é romântico? Até a deixou repetir o gelado!”, uma frase da mãe, embevecida, que lhe vale dois olhares de absoluto desprezo.
Por fim, a princesa tem de escolher o seu príncipe. O namorado a-ser-substituído-ou-não, um duque de paus que acredita firmemente no seu trunfo – um conhecimento mais aprofundado – volta ao baralho, em igualdade de circunstâncias com os dois ases finalistas: o Rei dos Músculos e o Rei das Frases Feitas. A menina, melíflua, aponta os defeitos e qualidades de cada um, reflectindo interiormente na contabilidade mais satisfatória. Por fim, baixa o polegar a dois deles, sem contemplações, e ergue-o ao terceiro, sorridente. Qual deles escolhe? Pasmem: não o namorado, que dizia amar e defendia da injustiça dos pais, não a inflamada lêndea que lhe ofereceu rosas e gelados batendo as pestanas, mas… o egótico brutamontes que era a aposta do pai e que virá a dar-lhe, seguramente, um tratamento parecido com aquele que a mãe recebe desde sempre.
Esta aberração chama-se “Parental Control” e é – ou foi (não sei se a programação era requentada) – um aclamado programa de televisão nos EUA. Mais um produto do voyeurismo televisivo, de infindável capacidade imaginativa. Quando eu penso que o modelo está esgotado e já bateu no fundo definitivamente, há sempre mais um lixo destes que me surpreende. É por estas e por outras que praticamente já não vejo televisão. Tenho plena consciência de que a maior perversão destes reality shows é o facto de serem tão hipnóticos que, sob os mais diversos pretextos, ficamos invariavelmente a vê-los até ao fim. Foi o que me aconteceu.
Não sabia que ele estava “dentro” , mas a sentença parece-me muito curta.
Nunca me desiludem, os pivots das notícias da manhã. Hoje, compungido e convicto, oferecia-nos um deles – durante uma entrevista a alguém que falava da catástrofe no Japão – esta pérola de sabedoria e profundidade: “Depois de tudo isto, é imperial ajudar o povo japonês”.

O segredo dos Beatles – confissões de um coleccionador
Toda uma geração adorava (adora) aqueles objectos redondos, negros e simples que nos davam alento, amores, paixões e amizades em apenas 45 rotações por minuto, e durante cerca de três minutos o mundo ficava melhor.
Não tínhamos Walkman ou iPod, mas tínhamos gira-discos de mala ou gira-discos tipo torradeiras, que engoliam os discos e, claro, em todo o seu esplendor e mistério, a Rádio: “Quando o Telefone Toca – pode dizer a frase.”
Quando hoje se fala em remasterizações e sons clean, não deixo de sorrir e de pensar naquelas caixinhas em que já todos gostávamos daqueles sons monofónicos e em que aprendemos a lição da canção perfeita e todos os outros cultos e rituais do pop e do rock, era todo um fascínio muito físico: a capa, o retirar do disco, colocá-lo no prato do gira-discos, lançar a agulha… e depois aquele abandono agridoce.
E tudo isso está de volta, as novas gerações descobriram essa obra ao negro – o vinil.
O vinil é muito cá de casa desde 1967. Tudo começou com uma surpresa dos meus Pais, um gira-discos Philips de mala, portátil, a pilhas. Tantos anos depois, as pilhas agora são de discos nas prateleiras!
Muita festa, muita música, muitas camisas (de xadrez), calças à boca de sino (dos Porfírios) e muitas dunas fez aquele Philips, nas férias maiores do que a própria vida, sempre na praia da Saúde, Costa de Caparica, no tempo em que a ponte não era uma miragem.
Aprendemos tudo com os Kinks, os Stones, os Dave Clark Five, os Sheiks e, claro, os Beatles, naqueles Verões de todos os nossos amores. Sempre que tinha boas notas, a Mãe ia comigo à Concorrente, em Campo de Ourique, e comprava-me um disco ou um livro. Assim nasceu a minha paixão pelos Beatles e assim começou esta demanda da música (e dos livros) que sempre me acompanhou. Não sou fundamentalista, venham todos os formatos, mas o primeiro amor ninguém esquece, e o meu primeiro amor foi o vinil em 45 rpm (… e a Kitta).
Os primeiros discos foram All You Need Is Love (o single) e o EP Strawberry Fields Forever/Penny Lane, e ainda um brinquedo, Yellow Submarine da Corgi, que ainda hoje acompanha o dono. Para iniciado, não foi nada mau.
Depois veio o nove do meu contentamento, o autocarro verde que me levava à Baixa de Lisboa e fez emergir o fascínio daquela rua do Carmo; o meu mundo perdido estava lá, a Universal, a Melodia, a Discoteca do Carmo, a Custódio Cardoso Pereira e, continuando, a Valentim de Carvalho, com a sua parede Beatles.
O nove quase desapareceu, a Valentim e os outros também, mas os Beatles continuam, ao lado de Miles Davis, dos Van der Graaf Generator e de Wagner. Só dos Beatles juntei cerca de 5000 peças entre discos, bonecos, carrinhos, pins, revistas, filmes, loiças, etc. Um universo mágico, uma vida em cada música, uma alma em cada capa, uma história da nossa vida em flash-back.
Não gosto da palavra coleccionador, mas foram a imensa paixão e a colecção imensa das emoções dos Beatles que me levaram a escrever o livro The Beatles – Discografia Portuguesa a 45 RPM.
E é este o segredo dos Beatles. Não adianta… não é para explicar, é para sentir, para viver sem saudosismo, mas com um brilho nos olhos, é a minha homenagem aos Beatles e a todos os meus amigos, que não são forever (como o blogue), mas são aqui, ali e em qualquer lugar.
E não se poderá defenestrar este governo por uma janela de oportunidade?