O segredo dos Beatles – confissões de um coleccionador
Toda uma geração adorava (adora) aqueles objectos redondos, negros e simples que nos davam alento, amores, paixões e amizades em apenas 45 rotações por minuto, e durante cerca de três minutos o mundo ficava melhor.
Não tínhamos Walkman ou iPod, mas tínhamos gira-discos de mala ou gira-discos tipo torradeiras, que engoliam os discos e, claro, em todo o seu esplendor e mistério, a Rádio: “Quando o Telefone Toca – pode dizer a frase.”
Quando hoje se fala em remasterizações e sons clean, não deixo de sorrir e de pensar naquelas caixinhas em que já todos gostávamos daqueles sons monofónicos e em que aprendemos a lição da canção perfeita e todos os outros cultos e rituais do pop e do rock, era todo um fascínio muito físico: a capa, o retirar do disco, colocá-lo no prato do gira-discos, lançar a agulha… e depois aquele abandono agridoce.
E tudo isso está de volta, as novas gerações descobriram essa obra ao negro – o vinil.
O vinil é muito cá de casa desde 1967. Tudo começou com uma surpresa dos meus Pais, um gira-discos Philips de mala, portátil, a pilhas. Tantos anos depois, as pilhas agora são de discos nas prateleiras!
Muita festa, muita música, muitas camisas (de xadrez), calças à boca de sino (dos Porfírios) e muitas dunas fez aquele Philips, nas férias maiores do que a própria vida, sempre na praia da Saúde, Costa de Caparica, no tempo em que a ponte não era uma miragem.
Aprendemos tudo com os Kinks, os Stones, os Dave Clark Five, os Sheiks e, claro, os Beatles, naqueles Verões de todos os nossos amores. Sempre que tinha boas notas, a Mãe ia comigo à Concorrente, em Campo de Ourique, e comprava-me um disco ou um livro. Assim nasceu a minha paixão pelos Beatles e assim começou esta demanda da música (e dos livros) que sempre me acompanhou. Não sou fundamentalista, venham todos os formatos, mas o primeiro amor ninguém esquece, e o meu primeiro amor foi o vinil em 45 rpm (… e a Kitta).
Os primeiros discos foram All You Need Is Love (o single) e o EP Strawberry Fields Forever/Penny Lane, e ainda um brinquedo, Yellow Submarine da Corgi, que ainda hoje acompanha o dono. Para iniciado, não foi nada mau.
Depois veio o nove do meu contentamento, o autocarro verde que me levava à Baixa de Lisboa e fez emergir o fascínio daquela rua do Carmo; o meu mundo perdido estava lá, a Universal, a Melodia, a Discoteca do Carmo, a Custódio Cardoso Pereira e, continuando, a Valentim de Carvalho, com a sua parede Beatles.
O nove quase desapareceu, a Valentim e os outros também, mas os Beatles continuam, ao lado de Miles Davis, dos Van der Graaf Generator e de Wagner. Só dos Beatles juntei cerca de 5000 peças entre discos, bonecos, carrinhos, pins, revistas, filmes, loiças, etc. Um universo mágico, uma vida em cada música, uma alma em cada capa, uma história da nossa vida em flash-back.
Não gosto da palavra coleccionador, mas foram a imensa paixão e a colecção imensa das emoções dos Beatles que me levaram a escrever o livro The Beatles – Discografia Portuguesa a 45 RPM.
E é este o segredo dos Beatles. Não adianta… não é para explicar, é para sentir, para viver sem saudosismo, mas com um brilho nos olhos, é a minha homenagem aos Beatles e a todos os meus amigos, que não são forever (como o blogue), mas são aqui, ali e em qualquer lugar.



Obrigado aos amigos do “Delito de Opinião”, no meio da crispação nacional, encontraram o tempo perfeito para falar de algo intemporal. Diziam os Beatles LET IT BE, ou melhor DEIXA ANDAR, um post para desenjoar da crise.
Abel Rosa
Nós é que agradecemos, Abel. Um tema para “desenjoar da crise” é essencial, de vez em quando, à sanidade mental de todos nós. E deste tema percebes tu como ninguém!
Caro Abel
Viajei nessas memórias que também são as minhas
O submarino amarelo era um objecto bem pesado por sinal e o album Magical Mystery Tour que tem a música dos Beatles que mais gosto – the fool on the hill
1. “Magical Mystery Tour” 2:43
2. “The Fool on the Hill” 3:00
3. “Flying” (Lennon/McCartney/Harrison/Starkey) 2:16
4. “Blue Jay Way” (Harrison) 3:56
5. “Your Mother Should Know” 2:29
6. “I Am the Walrus”
Abraço
Obrigada
Olá Rita
Obrigado pelos comentários… o melhor é viajarmos todos no submarino amarelo, para não nos fazerem mais “fools”!
Abel Rosa
🙂
Bóra
abraço
Soube-me tão bem ler estas linhas, precisamente para desenjoar da crise… Obrigado, Abel. Eu ‘beatlemaníaco’ também me confesso.
Um abraço.
Um Abraço Pedro, ainda bem que “desenjoou”, mas suspeito que a coisa ainda vai ficar mais turbolenta, nem o submarino nos salva, segundo consta só o contrato é que era amarelo!
Obrigado, caro Abel e parabéns por manter o vício e a colecção.
António
A colecção está viva, recomenda-se e ouve-se!
ABel Rosa
“a capa, o retirar do disco, colocá-lo no prato do gira-discos, lançar a agulha…”
A capa, sim, o culto da capa… O orgulho com que eu andava, pelo liceu, com certas capas debaixo do braço… 🙂
Abel, é sempre com um “brilho nos olhos” que leio o que escreves.
Olá HMD
Com um brilho nos Olhos…também é bonito, não é Beatles, mas pode ser Sérgio Godinho!
Abel Rosa
Olá Cristina
É isso aí…os disquitos debaixo do braço, aquela admiração de apresentar uma última edição que ninguém ainda conhecia ( vinha pelo correio no catálogo da Tandys) ou então algo hermético que só meia dúzia de “gajos de óculos” é que conheciam, uma importância!
Abel Rosa
Obrigado a todos pelas palavras simpáticas, se um dia for possível, dêem uma espreitadela ao meu livro (suponho que restam muito poucos nas livrarias Bulhosa, Barata e FNAC) The Beatles – Discografia Portuguesa a 45 rpm, está lá esse fascínio pelos discos e pelas capas (portuguesas), conseguimos ouvir em cada página uma banda sonora personalizada e como bónus um pequeno segredo, uma espécie de retrato de Dorian Gray, que não nos deixa envelhecer.
Abel Rosa