Marisa e os cupcakes
Marisa entrava no banco, picava o ponto, abria o computador e ia tomar o pequeno-almoço ao snack-bar do centro comercial. O pedido era sempre igual. Um galão morno e um bolo que escolhia na altura, de acordo com o humor e o apetite. Se acordava com desejo, o corpo quente, a vulva levemente inchada, pedia um jesuíta. Se a noite fora de insónia, os olhos postos nas horas do despertador, pedia um mil-folhas. Se acordava murcha, tristonha, como lhe acontecia tantas vezes, o amanhecer tão desgraçadinho visto do apartamento da Bobadela, pedia uma bola de berlim recheada. Era um consolo, um regalo, uma satisfação. Nada lhe dava mais prazer do que sentir os cristaizinhos de açúcar nos beiços, os dentes enterrando-se na massa frita e dourada, a boca enchendo-se de doçura, o recheio de doce de ovos, muito amarelo, espalhando-se pela folha do guardanapo de papel. Raramente pedia queques, madalenas e bolos de arroz, que a simplicidade de tais bolos a angustiava. Ficava-lhe, além do mais, a garganta muito seca, a arranhar, tinha de pedir ao empregado do snack-bar um copo de água para ajudar a engolir. Marisa vivia assim, trabalhando na repartição, regressando ao fim do dia ao apartamento da Bobadela, passando os fins-de-semana em fato de treino, em frente da televisão, papando telefilmes e séries americanas. A sua vida era absurda, um verdadeiro contra-senso porque a sua maior alegria era os dias tristes em que encontrava na angústia uma justificação para comer uma bola de berlim.
Um dia, porém, tudo mudou. No centro comercial, no corredor do snack-bar, mesmo à frente da loja de artesanato indiano, abrira um quiosque pequeno, redondo, todo pintado num cor-de-rosa vivo, de muito bom gosto. Vendiam bolinhos. Tinham uma máquina de tirar cafés modernaça, de cromados rutilantes, e duas vitrinas de queques enfiados em formas de papel, com cobertura colorida, feita de um creme que, pela densidade, aparentava ter a maleabilidade da plasticina. Vinham enfeitados com confeitos de açúcar de formas variadas, flores, corações, bolas, estrelas. Marisa nunca na sua vida de bobadelense ouvira falar da Basílica de São Basílio em Moscovo. Porém, se ocupasse menos do seu tempo a enfardar filmes dos canais generalistas e se se ocupasse mais com canais temáticos de viagens, talvez tivesse tido o rasgo de um comentário certeiro em frente da vitrina do quiosque novo e comparasse as coberturas daqueles bolos aos tectos bojudos, inchados, arrepiados da basílica moscovita. A cultura que tinha, conhecia o cristo-rei, o palácio da pena, pouco mais, só lhe permitiu dizer qualquer coisa como Ai, que coisa mais linda de se comer! Naquele instante, pressentiu, no entanto, que o que ali estava era mais do que meia dúzia de filas de bolinhos coloridos.
Uma colega da repartição explicou-lhe que os cupcakes – assim que se chamavam os tais bolinhos – eram uma tendência. Mulher moderna tinha de encher a boca, várias vezes por mês, com um bolo daqueles. Então ela, que tanto gostava de séries americanas, nunca vira aquela série das quatro solteironas de Nova Iorque? Aquelas que dormiam com muitos homens diferentes, vestiam roupas de estilistas famosos para ir passear ao parque e eram incrivelmente bem sucedidas? Não se lembrava? Elas, para além de dormirem com muitos homens, vestirem roupa de estilistas famosos para irem passear ao parque, para além de serem incrivelmente bem sucedidas, comiam cupcakes. Marisa lembrou-se. Apesar da explicação da colega, durante algum tempo, manteve-se fiel à pastelaria tradicional. Continuava a ir ao snack-bar e a pedir um galão morno e um bolo. Porém, cada vez que passava pelo quiosque enchia a boca com aquela palavra nova. Dizia-a devagar, experimentando cada sílaba: cu-pe-ca-ke. Deixava a palavra dançar na sua boca. Livremente. Não era só uma coisa linda de se comer, era também uma coisa linda de se dizer! Marisa descobriu, nesse preciso instante, haver em si um desejo de fuga, de modernidade, de emancipação.
No dia seguinte, voltou a entrar no banco, a abrir o seu computador, a picar o ponto e a sair para ir tomar o pequeno-almoço. Porém, em vez de ir ao snack-bar, dirigiu-se, com um passo envergonhado, ao quiosque cor-de-rosa vivo. Sentia que aquele não era o seu mundo, era um mundo a que queria pertencer, só não sabia se esse mundo a aceitava. Pediu um galão e um cupcake de chocolate. Galão não temos, explicou a empregada, brasileira muito sorridente, de dentes estragados, mas temos latte machiato. Pode ser, respondeu Marisa. Levou o seu tabuleiro e sentou-se numa mesa. Deu uma dentada e ficou à espera. A princípio, não apreciou a textura do que metera à boca. Bem vistas as coisas, mais não era do que um queque. A cobertura, a tal pasta que parecia plasticina, deixou-a mesmo ligeiramente agoniada. Só à terceira trincadela Marisa sentiu vir-lhe de dentro uma confiança que desconhecia. Pareceu-lhe até que o seu corpo mudava. Sentiu as mamas mais tesas e o cabelo, tinha-o ralo e oleoso, pareceu-lhe mais volumoso. Quando acabou de comer, reparou que o angariador de crédito fácil – homem jovem enfiado num fato de três botões que passava o dia a oferecer a quem passava a solução para todos os problemas – a olhava com um olhar ligeiramente bovino.
Marisa nunca mais largou os cupcakes. Não é que gostasse propriamente do sabor, mas, que diabo, percebia que comer um cupcake era muito mais do que comer um bolo. Deixou de vez as bolas de berlim, as parras, os alsacianos, os mil-folhas, toda essa pastelaria tradicional, representativa de um mundo anacrónico, triste, ordinário. Passou a sentir-se uma mulher nova, moderna, uma mulher do seu tempo. Renasceu à conta dos cupcakes. Com a ajuda da colega de repartição, aderiu a uma rede social, arranjou os sobrolhos, meteu unhas de gel, o angariador de crédito fácil avançou. Convidou-a para jantar num buffet asiático e, no fim-de-semana seguinte, papou-a no apartamento da Bobadela. Marisa sentiu-se profundamente agradecida aos cupcakes e às coberturas coloridas de queijo creme. Rapidamente se viciou na internet. Passava a noite na blogosfera e nas redes sociais, mostrando-se e sendo vista. Aprendeu depressa a linguagem das mulheres modernas, cheia de palavrões e detalhes de fornicanços. Soube ter muito cuidado na escolha das fotografias que colocou na sua página pessoal, que alguém podia assustar-se com o rosto equídeo e os dentes encavalitados. Descobriu que havia um mundo de deboche consentido que se abria todas as noites à sua frente.
Marisa continuou a comer cupcakes durante muito tempo. Quantos mais os comia, mais liberta se sentia, mais fornicava, mais gastava o ordenado em sandálias-bota e livros de auto-ajuda. Estava cada vez mais moderna. E feliz. Até que um dia, não se sabe bem o que se passou, talvez a cobertura de queijo creme não estivesse nas melhores condições ou as artesãs culinárias tivessem exagerado no corante alimentar, apanhou uma gastroenterite. Passou dois dias de cama, a vomitar um líquido viscoso, azedo, cor de cereja. A sofisticação e a modernidade saíram-lhe, dias depois, muito fedorentas, pelas tripas.


Magnífico texto, Ana, como sempre. Gostei de a ver por cá.
Uma bela alegoria do “estado de sofisticação e de modernidade” de grande parte da tribo urbana desta nação e das suas consequências finais – o vómito azedo que já está aí e o resto que virá.
Em vez de Marisa podia ter usado o nome Lusa. 😉
Você detesta pessoas que colocam comentários em blogues (ou pelo menos escreveu qualquer coisa nesse sentido em tempos) e ainda tenho o factor agravante de ser do sexo masculino, mas tenho de aproveitar a oportunidade para lhe dizer que aprecio os seus textos. Por um lado, você escreve tão bem que eu sinto inveja. Por outro, consegue ser tão furiosamente crua que sinto ainda mais inveja (e um pouco de medo). Por fim (há sempre pelo menos três lados para cada questão) é reconfortante ir acompanhando – à distância – neuroses alheias.
Bem-vinda, Ana. O texto é excelente e não pode estar mais de acordo com o espírito do Delito. É um tema que dá pano para mangas.
Muito bom, como sempre.
Gostei do texto, pela narrativa e pelo inusitado da história, que ao fim e ao cabo é de um realismo total.
Apenas não gostei do fim. Não pelos vómitos, nem pela alusão às tripas, mas porque a história não me pareceu bem terminada, tendo em conta o elevado nível do texto (que se pode chamar de conto, de resto).
Que texto tão arrogante. Leu-se bem até à primeira Bobadela, a partir daí caiu num poço de clichés saturados de raiva digna de ser dissecada.
Excelente texto. Parabéns.
Achei imensa piada ao final, pobre Marisa!.
Muito Bom!
Chego ainda a tempo de dizer que gostei muito, o que aliás não (me) surpreende.
É de aproveitar a oportunidade para lhe dizer que escreve muito bem. Mesmo não gostando de comentários, façamos de conta que a encontrei na rua e lhe disse isto, que gosto muito do que escreve. Se calhar nem me responderia, mas como por aqui também não, digo-lhe: Façamos de conta, então, mas que raio, os seus textos são fabulosos.
Muito obrigado pelo seu texto, por este e por todos os que posta no seu blogue. São, sem dúvida, os textos mais deliciosos de toda a blogosfera.
Também estive para não comentar. Por respeito e coerência. E também – por que não admiti-lo – um pouco por despeito, que se nunca abre as caixas de comentários é porque se calhar não gosta de nós… (Brincando). Mas depois não resisti. Caixa de comentários aberta? É fartar, vilanagem!
Gosto tanto de a ler… Certas pessoas deviam ser obrigadas a escrever todos os dias para nos deixar a todos mais bem dispostos. Pronto. Era só isto. Obrigada por continuar a escrever.
(um) beijo de mulata
Eu adoro os textos da Ana Cássia Rebelo, que não quer que gostemos deles…mas eu gosto, e muito.
Cristina, vejo que anda a ler o Delito de ponta a ponta. Fico contente. E também eu gosto muito dos textos da Ana Cássia Rebelo.
Devaneios são diretamebte proporcionais as circunstâncias. Vc vai se superar e afirmar-se quando escrever como um despojado que os quereres não contam. Otima escrita,otimo devaneio, regras afirmadas…e a trangressão ? Cadê Te achei aqui no brasil por um minerador de dados da web que te classificou como importante na minha procura. Os critérios foram neo-liberais ou vc conseguiu entrar na rotina de iconoclastas: Escreva para não ser aceita que nós admiraremos assim mesmo. Sorte sua ser escolhida pela máquina de opiniões universal: a matrix