“O grupo Espírito Santo é a história secreta de Portugal”
(Luís M. Jorge, aqui mesmo no Delito e fazendo justiça ao nome deste blogue)
“O grupo Espírito Santo é a história secreta de Portugal”
(Luís M. Jorge, aqui mesmo no Delito e fazendo justiça ao nome deste blogue)
Isto é que não me dá jeito nenhum. Lanço um livro a 27 de Outubro, no Brasil, e temo muito que por lá também seja mundo. A não ser que o “servo de Deus” se tenha outra vez enganado nos cálculos. Com um bocadinho de sorte, talvez seja socialista.
Este grupo de cidadãos, portugueses dos quatro costados e fervorosos militantes do PS, está já a caminho de Penafiel para o comício. Trazem canas, minhocas e anzóis na bagagem, e alguns baldes de plástico para levar para casa os restos da pescaria. Dispensaram o passeio a Rio de Moinhos e apressaram-se a apanhar o TGV Poceirão-Caia para chegarem antes dos autocarros, porque o almoço não está incluído e não querem correr o risco de perder os melhores linguados e garoupas. Não vá o diabo tecê-las e já só restarem carapaus.
Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, as escandaleiras para todos os gostos, as filas da segurança social, o galope do desemprego, o tédio de mais uma campanha eleitoral, as trapaças do costume, os gordos da Júlia, as tribais falácias e humilhações de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar de cinto… ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.
Os jacarandás floriram uma vez mais, exuberantes, talvez a lembrarem-nos de que ainda estamos vivos.

Rebentou ontem na Islândia o vulcão Grimsvotn, com cinzas que já atingem 20 km de altura. Parece que é o pior vulcão desde ha 100 anos, pior ainda do que aquele que paralisou o tráfego aéreo há bem pouco tempo. E o mais estranho é que não se fala nisso nas notícias, ou pelo menos eu não dei por isso. Por aqui, o mais parecido que temos é o debate Sócrates-Passos Coelho…

O meu terceiro filho
Ter um filho é ter o coração fora do corpo e, muitas vezes, escrever um livro é associado a esta ideia de maternidade. Ontem chegou um livro novo à feira do livro e hoje estará nas livrarias. Foi o meu terceiro filho (os outros são mesmo de carne e osso) durante três anos e muitos meses. Escrevi e reescrevi. Deixei de molho como o bacalhau. Vi com algumas amigas. Voltei atrás e à frente.
Escrevi, desde o início, para deixar uma mensagem ao meu filho mais velho e, em resumo, a ideia é que vivemos numa vertigem terrível onde a tecnologia predomina, onde os valores humanos se podem perder. Ser amigo por sms não é o mesmo que abraçar um amigo, digo tantas vezes. Mas a vida e o tempo atropela-nos e, curiosamente, parece que não dominamos a vida que queremos ter. Estamos sempre atrasados, temos emails para responder, mandamos mensagens com abreviaturas e esquecemo-nos de dizer todos os dias: Como estás? Amo-te. Estás triste? O que precisas?
Por Este Mundo Acima é, então, uma peregrinação futurista em Lisboa, levando-nos aos valores mais básicos de sobrevivência e a todos os que nos definem como seres humanos. Num cenário de destruição, que é apenas a moldura que serve de pretexto para contar a história, um velho editor interroga-se: como sobreviveu? Para quê? Recorda a sua vida, os amigos, a força de algumas ideias, os traumas e os segredos. Por fim, a redenção chega através de um manuscrito e de uma criança. A tecnologia é inexistente. Regressámos ao século XIV, mas os valores: o certo e o errado, o bem e o mal, esses, continuam e prevalecem. Somos solidários com os nossos filhos em tudo, até nos disparates. Com um livro a diferença é apenas uma: este novo livro é mais um que acrescentamos ao caminho da escrita e isso reflecte quem e o que somos de momento. Sem pretensões.
A uma entusiasmada peixeira de Matosinhos que, entre beijos e abraços, lhe atirou o desabafo “Só é pena ser do Benfica!”, respondeu José Sócrates, do alto da sua inigualável auto-estima de animal feroz: “Bom, algum defeito havia de ter”. Ajudem-me, por favor. Assim de repente, também não lhe encontro mais nenhum…
Recomendo a leitura desta entrevista. Não só porque me revejo no que ele diz, mas porque Mia Couto surpreende sempre, e sempre pela positiva. De quantas pessoas podemos dizer isto, hoje em dia?
Regra 1 – A vida não é fácil: – habitua-te a isso.
Regra 2 – O mundo não está preocupado com a tua auto-estima. O mundo espera que faças alguma coisa útil ANTES de te sentires bem contigo mesmo.
Regra 3 – Não ganharás 10.000 euros por mês assim que saires da escola. Não serás vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição enquanto não os tiveres ganho por ti próprio.
Regra 4 – Se achas teu professor duro, espera até teres um Chefe.
Regra 5 – Virar frangos ou trabalhar durante as férias não está abaixo da tua posição social. Os teus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam-lhe de oportunidade.
Regra 6 – Se fracassares, não é culpa dos teus pais. Então não lamentes os teus erros, aprende com eles.
Regra 7 – Antes de nasceres, teus pais não eram tão chatos como são agora. Eles só ficaram assim por terem de pagar as tuas contas, lavar tuas roupas e ouvir-te dizer como tu és fixe (e eles são “ridículos”). Por isso, antes de ires salvar o planeta para a próxima geração, querendo consertar os erros da geração dos teus pais, experimenta arrumar o teu próprio quarto.
Regra 8 – A tua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não. Em algumas escolas já não chumbas e tens tantas chances quantas precisares até acertares. Isto não tem a mais pequena semelhança com absolutamente NADA na vida real. Se não fizeres bem, estás despedido… RUA!!!!! Faz as coisas bem à primeira!
Regra 9 – A vida não é dividida em semestres. Não terás sempre os verões livres e é pouco provável que algum patrão esteja minimamente interessado em que te “encontres”. Trata disso no teu tempo livre.
Regra 10 – Televisão NÃO é vida real. Na vida real, as pessoas têm de sair do bar ou da discoteca e ir trabalhar.
Regra 11 – Sê simpatico com os marrões (aqueles estudantes que os demais julgam que são uns totós). Existe uma grande probabilidade de que venhas a trabalhar PARA um deles.
“Dumbing Down our Kids” by educator Charles Sykes
Nota: Encontrado aqui, com lógica, farta e imediata adesão da geração dos “pais à rasca”.
Ouvi ontem uma comovedora declaração de um rapazinho de cabelo em pé, cor de palha seca, afirmando esta coisa espantosa: “Eu antes tinha qualidade mas não tinha cabeça. Agora, graças ao Mister Jesus, tenho qualidade e já tenho cabeça. Sou um homem feliz.”
À parte o tom informal e pouco respeitoso com que o miraculado se referiu a Jesus Cristo – a tradição já não é o que era e a anglofonia impera, assim na terra como nos céus – gostei de saber que ainda há milagres deste calibre no séc. XXI. Já agora, mais um jeitinho e Jesus podia ter tido a caridade de mudar-lhe também o nome. Nenhum homem, mesmo com uma cabeça nova em folha, merece chamar-se Fábio Coentrão.
O documentário Lixo extraordinário relata a trajetória do lixo dispensado no Jardim
Gramacho, o maior aterro sanitário da América Latina, localizado na periferia de Duque de Caxias (Rio de Janeiro), até ser transformado em arte pelas mãos do artista plástico Vik Muniz e seguir para prestigiadas casas de leilões internacionais. Consagrado pelo público como melhor documentário em festivais como Sundance, Berlim e Paulínia, entre outros, o documentário tem direção conjunta de João Jardim (Janela da Alma e Pro Dia Nascer Feliz), da cineasta Karen Harley e da documentarista inglesa Lucy Walker. Lixo Extraordinário também foi exibido fora de competição no Festival do Rio e na Mostra São Paulo, em 2010. Segundo o dicionário, “lixo” significa qualquer material considerado inútil, supérfluo, e/ou sem valor, gerado pela atividade humana. Antes de chegar ao Jardim Gramacho, Vik Muniz e os diretores do documentário não esperavam encontrar nada muito diferente disso, mas se surpreenderam ao conhecer pessoas cativantes, cheias de dignidade, como Tião, jovem presidente da ACAMJG (Associação de Catadores do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho), ou Zumbi, catador.VIK MUNIZ www.vikmuniz.net
(Nota: Explicação que acompanhava o convite que recebi para este documentário extraordinário, com a presença e participação do próprio Vik Muniz. Espero que venha para o circuito comercial português, porque vale mesmo a pena vê-lo. )
É um blogue 100 papas na língua, 100 luvas de pelica nas opiniões, 100 prisões partidárias ou rabos presos, 100 preconceitos na linguagem e 100 qualquer problema em afirmar-se “sem linha editorial ou qualquer outra palermice dessas”. Gosto de gente livre, já o disse aqui mais do que uma vez. Por isso elejo o 100 nada, da Catarina Campos, o nosso blogue desta semana.
Uma das mais tocantes canções que já ouvi (letra e música), aqui magistralmente interpretada por Yvonne Elliman (a primeira Maria Madalena, creio, do musical “Jesus Christ Superstar”). Boa Páscoa para todos os que nos visitam.
Aproprio-me do título do Pedro e amplio-lhe o espectro: enquanto continuarmos neste Carnaval político, alegremente, como se estivesse tudo bem e a fartura fosse o mote nacional, somos um país sem emenda. E siga o circo, que o pão há-de vir por obra e graça do Espírito Santo.
61 anos assumidos e felizes, a voz de sempre e esta invejável energia. Simone é uma inspiração para qualquer mulher. Hoje, no Coliseu do Porto, e depois de amanhã no de Lisboa. Uma boa maneira de esquecer as desgraças durante umas horas. Experimentem.
Desculpe… importa-se de repetir devagarinho, como se eu fosse muuuuuuito burra? Obrigada.