(disto ainda há, felizmente!)
O Gambrinus festeja 75 anos e continua em grande forma, como sempre.
O sr. Ramires tem a melhor fruta de Sintra. É impossível passar-lhe à porta e não entrar por ali dentro em absoluto êxtase olfactivo, logo seguido de uma degustação compulsiva, patrocinada pelo sorridente proprietário das grades que exibem aquelas incontáveis e luzidias maravilhas. Mas os talentos do sr. Ramires vão muito para além de saber escolher boa fruta: como qualquer português que se preze, percebe de tudo um pouco e debita, solenemente, sábios conselhos aos fregueses sobre qualquer assunto que os atormente, desde a insolvência financeira às dores nas cruzes. Espicaça-o a concorrência do barbeiro, mesmo defronte, também ele um homem da Renascença, qual Leonardo. Um, domina o público masculino. O outro, o feminino.
Quando entrei ontem, hipnotizada por uns figos cheirosos e de um tamanho que só no Entroncamento, discutia-se a magna questão da dívida soberana. Ou melhor, o sr. Ramires perorava com toda a segurança, perante uma plateia de três pensionistas, sobre ráting (não tem nada a ver com ratos, dona Ilda, não fique já pr’aí toda arrepiada…), o FMI (agora entregaram aquilo a uma mulher, vamos a ver no que dá…), os mercados (já viu, dona Adelina? e a gente a achar que nos mercados só se vendia peixe, fruta e hortaliças, e vai-se a ver vendem países…), a Europa (eu sempre disse que isto de juntar anões com gigantes ia dar bota…), enfim, os grandes temas da actualidade. Mal me apanhou a jeito, fragilizada pela malabarística tarefa de abrir um figo em cruz sem faca e sem me sujar, disparou, do alto da sua longa experiência de analista de macro-economia: “Atão, menina, já viu isto da Mudes? (a fonética era esta, mais coisa menos coisa). Afinal era aquela gente do diabo que nos estava a comer as papas na cabeça!”. E, de rajada, antes que eu tivesse tempo de pensar numa resposta à altura de tão grande responsabilidade, acrescentou, a coçar a orelha: “Olhe, mas ainda bem, que isto assim resolve-se em duas penadas. Já disse ao meu Renato, que está por lá a bulir há dezoito anos, que se venha embora e não deixe lá nem mais um tostão. Ele e os outros todos. Se os emigrantes sairem todos da América, eu sempre quero ver quem vai trabalhar para os camones. A Mudes fecha a porta enquanto o diabo esfrega um olho, e a gente fica por cá outra vez sossegados na nossa vidinha!”.
Saí consolada. A solução da crise internacional está encontrada, finalmente. Falta só avisar a Mudes.
Olhe o que se pode fazer com… LIXO!
Chamada à pedra pela Laura e correndo o risco de saltar imensos livros importantes, aqui vai:
1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Imensos. Em prosa e assim de repente: “Ficções”, do Borges. “Memórias de Adriano”, da Yourcenar. “O amor nos tempos de Cólera”, do Garcia Marquez. “As velas ardem até ao fim”, do Marai. O Eça de ponta a ponta, que me faz sempre rir. “A louca da casa”, da Rosa Montero. “Os capitães da areia”, do Jorge Amado. “O sol dos Scorta”, do Laurent Gaudé. “Don Quixote de La Mancha”, do Cervantes. “Memorial do Convento”, do Saramago. “A Paixão”, do Almeida Faria. “Teoria da Viagem”, do Michel Onfray. “Cartas a um jovem poeta”, do Rilke. Os contos exemplares da Sophia, os (igualmente exemplares) da Clarice Lispector e os orientais da Yourcenar (gosto de contos, como se deve notar). O maravilhoso e inesgotável “Livro do Desassossego”, do Pessoa-Soares. Os do Agostinho da Silva, que são eternos e sempre surpreendentes. E muitos outros que agora me falham.
Depois há a poesia, que nunca se lê da mesma maneira por mais que se repita a leitura.
Enfim, releio cada vez mais.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Vários e por várias razões:
“O Nome da Rosa”, do Umberto Ecco, porque vi o filme quando estava a meio e já não consegui acabá-lo (e achei o filme melhor do que o livro, ao contrário do costume).
Um livro de que já nem lembro o nome, que estava a ler quando fiquei grávida do meu filho mais velho. Enjoei tudo, tudo mesmo, livro incluído. Mais tarde ainda tentei ler o resto, mas tinha náuseas de cada vez que lhe pegava. Desisti.
Os livros do Thomas Mann, por exemplo, porque não entram nem à bala mas eu achava que tinham de entrar. Depois deixei-me disso. Ler não pode ser nunca um frete, e há tantos livros que ainda não li com prazer…
3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Em prosa, “O livro do Desassossego”, sem qualquer hesitação. Estão ali muitos livros dentro. E toda a boa poesia, essa escrita caleidoscópica que muda com o estado de espírito do leitor e nunca cansa.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
A Divina Comédia. Mas já o comprei em formato simpático e vou-me atirar ao Dante, salvo seja.
5. Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
“O amor nos tempos de cólera”. As últimas 10 páginas são inesquecíveis e valem todo o livro. Diria mesmo que valeriam toda a obra do Gabo, mesmo que ele não tivesse escrito mais nada de jeito. E escreveu muita coisa de jeito.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia tudo o que apanhava a jeito, sem qualquer critério, e muitos livros antes do tempo certo. Por exemplo, li o Jorge Amado de fio a pavio, porque era excitante e mais ou menos proibido, embora lá em casa estivesse à mão de semear. “O Crime do padre Amaro”, pelas mesmas razões. Quanto aos “certos”, adorava o Emílio Salgari (o Sandokan, que maravilha!), o Júlio Verne e o Dumas, que me faziam sonhar com aventuras e viagens. Li a saga do Tolkien muito cedo e ainda hoje me apaixona aquele mundo simbólico. E li todos os d’”Os Cinco”, claro. Lembro-me também de um fraquinho lacrimejante por “O Diário de Isabel”, da Berthe Bernage. Mais tarde devorei tudo o que encontrei sobre o Holocausto, foi uma moda um bocadinho mórbida mas muito instrutiva. Depois vieram o Morris West, o Maugham, o Green, o Huxley, etc. E a Agatha Christie, que li até esgotar o último livro. Mas aí já tinha deixado a infância lá para trás, embrulhada em “tios patinhas” e “donalds”.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Os do pobre Júlio Dinis. E só porque era obrigatório. Um bocejo! Nem como documento histórico lhes acho graça.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Os que me saltam de imediato à memória já estão ditos. Depois há muitos outros, claro. Os de poesia nem enumero, a lista seria interminável.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Três ou quatro ao mesmo tempo, como sempre faço. Neste momento tenho três pilhas de livros de poesia lusófona na mesa de cabeceira. E dois livros de prosa de autores portugueses contemporâneos.
Nota: Quem quiser acorrentar-se ao jogo não faça cerimónias. Em post próprio ou nesta caixa de comentários, conforme o caso e a vontade.
Entristece-me assistir à morte de alguém, seja ela real ou metafórica. Mais, ainda, à de um homem por quem já tive admiração. Fernando Nobre foi, em tempos, alguém que criou e desenvolveu uma obra meritória e pioneira em prol dos mais desfavorecidos. Mas isso não lhe bastava, sabemo-lo agora. A tentação da ribalta falou mais alto e ele deixou-se armadilhar pela própria ambição, sabiamente manipulada, muito provavelmente, por outros muito mais experientes nessas artes. E assim disse e se desdisse continuamente, descendo a pulso na vida política e na imagem que dele tínhamos. Fernando Nobre não precisou que ninguém lhe desse um tiro na cabeça – nesse dramatismo de novela mexicana que era, afinal, premonitório – para morrer aos olhos de todos nós. No caso, para suicidar-se. Ele próprio agarrou na arma, encostou-a à têmpora e premiu o gatilho. E fê-lo aos poucos, lenta e dolorosamente. Tão altas expectativas para acabar assim, tristemente, sem nobreza nem dignidade. Cai o pano sobre uma figura triste, que ultimamente só tem feito tristes figuras.

Leio no Expresso de hoje que a ex-Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, recusou reunir-se com o novo Secretário de Estado da Cultura para a protocolar passagem de testemunho, com o argumento de que “ministro não passa pasta a secretário de estado”. Para além da arrogância expressa nesta atitude (tiques do governo anterior, aprendidos com o mestre?), pergunto que direito tem um ministro demissionário de decidir isto assim, de ânimo leve. Concorde ou não com a nova fórmula encontrada para a cultura pelo actual governo, o acto da passagem de pasta não é opcional. Gabriela Canavilhas tem de cumpri-lo, porque a isso a obrigam, para além da mais elementar educação, a natureza das funções que aceitou. E, convenhamos, tanta superioridade não corresponde sequer à realidade: que me lembre, a ex-ministra não deu à cultura portuguesa, para além de uma imagem gráfica pessoal notável (que não é mérito seu), nada de relevante. O importante não é o nome do cargo, mas o que se faz com ele.
Bem-vindo à cultura, Francisco José Viegas, seja com que título for. Mudanças precisam-se, urgentemente. A começar na atitude.
(Obrigada, Woody, pelo empréstimo do título deste post)
Gosto da “pinta” da nova Presidente da Assembleia da República. Não por ser mulher – não subscrevo o facilitismo das quotas, que sempre me irritou e reduz as mulheres a uma condição de favor – mas por me parecer uma Mulher de fibra. Tempos difíceis requerem escolhas arrojadas. É preciso reagirmos, e eu começo lentamente a sair do meu cepticismo dos últimos anos. Há uma nova esperança no ar, é inquestionável. Uma espécie de alívio colectivo. Sócrates deixou atrás de si um país profundamente devastado, não só nas finanças como, muito pior do que isso, na sua capacidade de acreditar. Toda a classe política – da direita à esquerda – sofreu, por arrasto, uma desconfiança generalizada. São feridas abertas na auto-estima, já de si tradicionalmente frágil, de um povo que tende sempre para o desânimo e para a apatia. Mas, se olharmos a História, veremos que sempre fomos capazes de “virar a mesa” e surpreender. Sempre in extremis, é certo, mas acabamos por fazê-lo. Quero acreditar que o faremos de novo, agora que a própria soberania está em causa. E, para isso, nada melhor do que um governo de gente nova, plural, com poucos vícios de gabinete e com garra para enfrentar os tempos duríssimos que aí vêm. Tenho pena de que não inclua um socialista, mas talvez isso já fosse pedir de mais. Seja como for, há uma subtil nuance na composição deste governo que me anima, para além da juventude óbvia e do consensual reconhecimento de competências: pela primeira vez em muitos anos, os novos ministros não me parecem patinhos a nadar em fila indiana atrás de uma “mãe” protectora. A sensação que me dão é a de tencionarem, depois dos inevitáveis bailados nupciais, ir cada um à sua vida e às suas tarefas, sem euforias e sem esperar por aplausos e prémios. Não haverá período de tréguas. Aceitaram uma missão quase impossível e sabem-no, por isso só podem atirar-se-lhe de cabeça, com a fé dos resistentes. Desta vez precisamos mais de bons e firmes executantes do que de uma liderança forte. Essa já existe, quer queiramos ou não, e chama-se troika.
Gosto muito de uma frase de Jean Cocteau que sempre orientou a minha vida: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. É o lema que desejo a este diminuto grupo de bravos que terá pela frente os doze (ou mais) trabalhos de Hércules, num caminho que será muitas vezes solitário e sem margem para desvios. E desejo-lhes sorte, que é o mesmo que desejá-la para mim.
“As cerejas fazem bem até aos calos!”
Cavaco Silva, Presidente da República, na Festa da Cereja.
Pena. Ao contrário das cerejas, devia saber-se parar a tempo as conversas.
“Estou com o coração cheio de amor pelo meu país e pelos meus compatriotas. Quero ser feliz nos próximos anos.”
(Sócrates, o miraculado)
“O Partido Socialista deu tudo o que tinha nestes últimos 6 anos”.
(Sócrates, o mártir)
Acho que faltou ali uma palavra no teleponto: “O Partido Socialista deu tudo o que Portugal tinha nestes últimos 6 anos”.
… o animal feroz virou cordeirinho outra vez. Será um urso bi-polar?
Gostei de registar a ausência de euforia nos vencedores, o que seria totalmente descabido nos tempos que atravessamos. Parece-me um bom prenúncio, ou, pelo menos, quero acreditar que o seja. Reforçando o que salientou a Ana Sofia ali em baixo, citando Paula Teixeira da Cruz, “O país não tem nenhuma razão para celebrar”. É bom lembrar que nos esperam dias muitos sombrios, e também particularmente difíceis para quem estiver no governo, seja de que cor for. Espero que se mantenha este realismo prudente e lúcido, que significa um pudor mais do que justificado.
“Estou aqui junto ao elevador mais famoso do Altis”, diz o repórter da SIC. Olho com mais atenção, a ver se o reconheço, mas nada. Concluo, mais uma vez, que ando muito arredada da vida dos famosos. E ainda por cima fico sem saber quem é, porque, ao contrário dos famosos das revistas cor-de-rosa nacionais, que falam que se desunham, o elevador decidiu não dar entrevistas. Deve ser alemão.

Não, não venho falar de política. Nem de eleições. Nem de crise. Nem de tristezas avulsas, que é o que não falta por aí. Venho dar os parabéns e desejar toda a felicidade do mundo ao nosso querido e talentoso Bandeira e à sua mais-que-tudo, que ontem deram o nó. Um homem que declara o seu amor desta maneira a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e insuperável
Amar-te é gelar numa frágua
Subir ao cume da planície
É respirar debaixo de água
E sufocar à superficie.
merece tudo o que a vida tem de bom para dar. E vai tê-lo, aposto. Muitos parabéns, Zé e D., e que o Partenon seja só vosso por uns dias!
(isto se a amiga Afrodite não vos emprestou o apartamento do Olimpo para a lua-de-mel…)
Nota: João Carvalho, não queres sacar um bolo dos teus, a propósito da ocasião?
“Não se preocupem com isso”, disse ele. Mas parece que houve quem se preocupasse, e eu concordo com as galinhas: mal empregados ovos, tanta omoleta perdida…
(Cartoon adaptado à circunstância, com as minhas desculpas ao autor)
O que é ser-se realmente GRANDE? É isto.
Bom fim-de-semana.