A solução da crise


Ana Vidal,

 

O sr. Ramires tem a melhor fruta de Sintra. É impossível passar-lhe à porta e não entrar por ali dentro em absoluto êxtase olfactivo, logo seguido de uma degustação compulsiva, patrocinada pelo sorridente proprietário das grades que exibem aquelas incontáveis e luzidias maravilhas. Mas os talentos do sr. Ramires vão muito para além de saber escolher boa fruta: como qualquer português que se preze, percebe de tudo um pouco e debita, solenemente, sábios conselhos aos fregueses sobre qualquer assunto que os atormente, desde a insolvência financeira às dores nas cruzes. Espicaça-o a concorrência do barbeiro, mesmo defronte, também ele um homem da Renascença, qual Leonardo. Um, domina o público masculino. O outro, o feminino.

 

Quando entrei ontem, hipnotizada por uns figos cheirosos e de um tamanho que só no Entroncamento, discutia-se a magna questão da dívida soberana. Ou melhor, o sr. Ramires perorava com toda a segurança, perante uma plateia de três pensionistas, sobre ráting (não tem nada a ver com ratos, dona Ilda, não fique já pr’aí toda arrepiada…), o FMI (agora entregaram aquilo a uma mulher, vamos a ver no que dá…), os mercados (já viu, dona Adelina? e a gente a achar que nos mercados só se vendia peixe, fruta e hortaliças, e vai-se a ver vendem países…), a Europa (eu sempre disse que isto de juntar anões com gigantes ia dar bota…), enfim, os grandes temas da actualidade. Mal me apanhou a jeito, fragilizada pela malabarística tarefa de abrir um figo em cruz sem faca e sem me sujar, disparou, do alto da sua longa experiência de analista de macro-economia: “Atão, menina, já viu isto da Mudes? (a fonética era esta, mais coisa menos coisa). Afinal era aquela gente do diabo que nos estava a comer as papas na cabeça!”. E, de rajada, antes que eu tivesse tempo de pensar numa resposta à altura de tão grande responsabilidade, acrescentou, a coçar a orelha: “Olhe, mas ainda bem, que isto assim resolve-se em duas penadas. Já disse ao meu Renato, que está por lá a bulir há dezoito anos, que se venha embora e não deixe lá nem mais um tostão. Ele e os outros todos. Se os emigrantes sairem todos da América, eu sempre quero ver quem vai trabalhar para os camones. A Mudes fecha a porta enquanto o diabo esfrega um olho, e a gente fica por cá outra vez sossegados na nossa vidinha!”.

 

Saí consolada. A solução da crise internacional está encontrada, finalmente. Falta só avisar a Mudes.

13 comentários em “A solução da crise”

  1. Delicious! Delicious! LOOLLLLL

    O meu senhorio chama-lhes “os gajos das ratações”. – “lá andam eles outra vez c’oas ratações”! Se fôsseis maizé trabalhar!”

    P.S. (salvo seja): se eu pudesse mandáva-lhe um saco de pêras D. Joaquina já nesta caixa de comentários. Já provou? Muito pequeninas, dulcíssimas, suculentas. São cá do Norte. ;).
    Fica a intenção.

    1. Acho que não conheço, Fátima. Costumo cozer em vinho do Porto umas muito pequeninas (verdes e duras) que ficam óptimas, mas essas não são muito doces nem suculentas.
      Mas muito obrigada pela intenção! 🙂

    1. Obrigada, Fernanda. Mal de nós quando perdermos o sentido de humor… aí é que qualquer Mudes nos vai afundar, não é? 🙂

      E, aqui para nós, os senhores Ramires é que levam a vida com sabedoria…

        1. Tenho, Fernanda, mas sou muito irregular nos posts. Às vezes faço link destes que escrevo aqui no Delito, e não o contrário. Mas é fácil encontrar-me lá.

    1. É uma das minhas frutas preferidas. Mesmo quando não são muito doces como-os com requeijão e mel. Uma delícia. E fazem muito bem às cruzes! (a todas elas, incluindo as figuradas)
      🙂

  2. Ana, acabei de encontrar um pérola no meio do espaço cibernético. Este blog. E diga-se de passagem foi por intermédio de um “fait-divers” que li no Expresso-online.
    Seja o que for e como eu estava a dizer acabei de encontrar este blog, agora mesmo. Comecei a lê-lo e acho que identifico “ponto-por-ponto” com a “ideologia”(não será o termo correcto mas não encontro melhor) deste blog. E deixe-me que lhe diga que, ao ler este “post” foi como entrar num café qualquer perto da minha casa(tirando como é óbvio o aroma aos figos assustadoramente substituido por um cheiro nauseabundo a fumo de cigarros e charutos).
    Queria dizer-lhe também (a título de curiosidade, ou de complemento da minha ideia) que já estava na hora, a meu ver dos políticos deste Nosso País ouvirem o que pensam realmente as pessoas…o Sr,Ramires…o Sr.José do pão…a D.Maria…enfim,o País “real” de toda esta “desordem” que se vive…

    Parabéns a si, em particular por este “post”, e aos demais colaboradores deste “Delito de Opinião”…

    1. Fico contente que nos tenha descoberto, e agradeço em nome de todos.
      Aqui será difícil encontrar uma ideologia única (somos muito diferentes, em todos os aspectos), mas temos em comum o gosto e o respeito pela liberdade de opinião. Nem poderia ser de outra forma, com o nome que escolhemos.
      Seja muito bem-vindo e volte sempre, Gilberto.

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