“Não sei nada dos meus gestos. Nunca soube. Foram gestos do mundo, não meus, os que lhe passei pelo peito forte de deus olímpico. Eu sei que foi um sonho. Eu sei. O rochedo ainda lá está, meio na praia meio no mar. O meu sonho é que não. Aquela mulher foi mais forte do que eu, porque desde sempre lhe beija os pés, lhe abraça o corpo, o encharca dia após dia com as suas lágrimas salgadas de mãe que luta sempre para não perder o filho que gerou, naquela prisão de ser, de ser apenas o tempo a gastar-se em beijos e carícias. Eu vivi o instante, o instante que conteve em si a eternidade. Mas não passou dum instante. E foi a chorar que eu consegui sorrir, nessa vertigem de me enamorar pela beleza. E a beleza foi isso. O instante em que retive o sonho dentro da sensação sonhada. M. tinha razão. E ela ia-o cobrindo cada vez mais, cada vez mais, naquele abraço que só a rotação da terra, a outra Mãe, permite. As imagens sucediam-se, na sensação da imagem que aquela imagem me dava, e que era a Imagem afinal, daquele que eu procurava, e, que assim disfarçado de rochedo e abraçado pela água, Mãe, acabou por me ensinar mais um dos nomes de Deus.”
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Solução (Domingo, 23,50h): José Manuel Arrobas – “A impossível solidão”. Desta vez sem consensos nem maiorias absolutas, embora tenha havido mais respostas certas. Gostei das hesitações e das alterações do sentido de voto…





