Dois nomes, dois símbolos


Ana Vidal,

Ia escrever qualquer coisa exactamente sobre o tema deste excelente texto de Fernanda Câncio. Mas está lá tudo o que eu diria, e muito mais bem dito. Limito-me a acrescentar um ponto que me parece importante: infelizmente, existem loucos, fanáticos e psicopatas em todas as ideologias políticas. Breivik pertence à extrema direita (Hitler fez escola, este caso é mais uma triste prova disso), mas também podia ser da extrema esquerda e escolher outros alvos (seguindo o mestre Estaline) com o mesmíssimo objectivo, mas de sinal contrário. O que quero dizer é que recuso acreditar que por detrás deste grau máximo de malignidade não esteja um muito sério distúrbio mental. Porque é sempre nestes perfis estranhos – autênticas bombas-relógio à solta nas sociedades – que melhor medram o fanatismo religioso ou político, a amoralidade e o ódio, transformando-os em exterminadores implacáveis num qualquer banho de sangue que glorifique a sua distorcida noção de justiça. E será sempre muito difícil – se não mesmo impossível – identificá-los como tal antes de perpetrarem as suas desvairadas vinganças.

20 comentários em “Dois nomes, dois símbolos”

  1. Estás carregada de razão. É que os exterminadores implacáveis são sempre de sinal contrário — contrário aos seres humanos. Não sei se a tentativa para os identificar através de um qualquer fundamentalismo exacerbado resultaria, mas pode deixar-nos alerta para os isolarmos.

    1. João, o problema é que eles são normalmente seres discretos, e até quase invisíveis, antes do “grande dia do vingador”. Por isso é tão difícil detectá-los e prevenir estes actos.

  2. Arrepiante, Ana! Não sei o que me assusta mais: se a matança, se a nossa impotência total contra estes seres dotados de mimetismo, que jamais dão sinal até ao dia D, em que nos apanham completamente desprevenidos.
    Em termos mais gerais, é por isso que é extraordinariamente importante (quase revolucionário) uma “coisa” como esta aqui:
    http://publico.pt/Sociedade/base-de-dados-adn-ja-conta-com-o-primeiro-perfil_1422610

  3. O texto da câncio é uma espécie de publicidade de spa ou de resort para classe média pretensiosa, um exercício de abstracção em nome do «bem-estar».

      1. Compreenderá que sobre qualquer vítima de actos destes será possível elaborar breves souvenirs pieux.
        Se o texto de Cancio ficasse por aí, nada a dizer. Acontece que Câncio se espraia em considerações sobre a democracia e as qualidades que ela acha serem as da sociedade ocidental. Ora, a questão começa no saber os motivos que levam pessoas a fazerem a opção política ilegítima e criminosa do uso terrorismo numa sociedade democrática e que devia possuir os mecanismo de funcionamento político para evitar essas opções. Essa é que é a questão e que nos deve levar, no limite, a interrogarmo-nos o que e porquê, em nome de «aquis» diversos, alguns com o seu quê de inconsistência, vamos retirando do domínio da política, da decisão política.

        1. Compreendo, VSC, mas divergimos num ponto fundamental: eu não acredito que este acto tresloucado tenha sido uma “opção política”, acho que o homem só pode ser um psicopata. Repare nos requintes de malvadez – as balas envenenadas, a fragmentação dos projécteis em estilhaços – que indicam claramente tratar-se de uma cabeça profundamente doente. Além disso, creio que no dia em que uma democracia estiver munida dos “mecanismos de funcionamento político para evitar essas opções” é porque se transformou entretanto numa ditadura. O preço da liberdade é este… trágico, elevadíssimo, mas inevitável.

          1. Estava a escrever uma resposta, mas o texto evaporou-se entre as teclas. Se aí chegar… Retomando, agradeço a sua resposta. Durante muito tempo também excluía o mal, pelo menos o mal mais maléfico, da normalidade da acção humana (mas não exluía o bem, os grandes altruísmos, etc, – e isto sem embargo de bem e mal poderem ser, como quase todas as acções humanas, mesmo as mais anódinas, produto de psicopatologias). Acontece que o terrorismo existiu e existe e tenta-se evitá-lo através de medidas políticas e não de consultas de psiquiatria. Ninguém pensou enviar os responsáveis das FARC, da ETA, do IRA, das Brgiadas Vermelhas ao psiquiatra. O uso do terror, como de qualquer outra medida política obedece a critérios de custo/benefício e de oportunidade e o seu remédio é político. A idade contemporânea abriu com o terrorismo de estado de 1792, e nos anos 20 e 30 do séc. XX, os bolcheviques usaram-no numa escala nunca vista, não por serem loucos mas porque o terror é eficaz.
            Quanto aos mecanismos de funcionamento das democracias a que aludi para evitar o tipo de acções que lamentamos agora, não se encaminham para ditadura, mas no sentido de mais e mais discussão política. Não é que da discussão nasça sempre a luz (de facto, raramente nasce), mas por estar convencido que da falta dela nascerão muitas mais vezes as trevas. Se reparar, por exemplo, como os cidadãos europeus foram, ou impedidos de se exprimirem votando, ou chantageados (caso dos Irlandeses) no processo de “construção” europeia -que agora se desmoronou – terá um exemplo perfeito do que considero a sonegação ao domínio da política de problemas que são dela. E alguns prendem-se não com a “construção da euiropa” mas com comezinhas mesquinharias, “petitesses” e egoísmos, isto é, as preocupações que engendraram a democracia representativa…

          2. VSC, só agora li este seu comentário. As questões que traz aqui são muito relevantes, sobretudo essa perspectiva em que nunca tinha pensado e me parece muito interessante: estamos sempre prontos a considerar o mal extremo como uma patologia, mas nunca o seu contrário. E a verdade é que alguns actos de grande altruísmo poderiam ser avaliados como comportamentos suicidas, por exemplo, e por isso desviantes também. Será a nossa fé na possibilidade de sublimação da raça humana, ou o nosso medo da vertigem sempre presente de uma besta que sabemos ter dentro? Não sei, mas nunca tinha visto a questão sob esta perspectiva e fiquei a pensar nisso.
            Seja como for, a verdade é que não considero comparáveis os actos de uma organização terrorista como os exemplos que enumera – FARC, ETA, IRA, Brigadas Vermelhas – e o acto isolado de um psicopata, muito menos estratégico e, logo, muito mais emocional. Bem sei que o terrorismo organizado existiu e existe e que a única forma de combatê-lo e desencorajá-lo (porque evitá-lo é impossível) é através de medidas políticas eficazes e não de consultas de psiquiatria. Mas o caso da Noruega, salvo prova em contrário, é muito diferente. Um louco só pode internar-se, tratar-se ou prender-se, ou tudo junto. Porque não é sensível a nenhuma lógica, nem a medidas políticas que não sejam aquelas que preconiza para a sociedade, que são sempre muito pouco recomendáveis…
            No resto, dou-lhe razão: penso que a Europa sofre de um desequilíbrio de forças que há-de ser a sua ruína, se o caminho que segue não for corrigido. Calar pessoas – e neste caso povos inteiros – para impor-lhes, à força, regras aparentemente absurdas que ainda por cima os prejudicam, nunca pode dar bom resultado.

  4. “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” , as Invasões Francesas tiveram esse lema…e Napoleão não fica atrás, desse louco…mais Democracia!!?? a democracia para alem de ser uma ideia bonita…não passa disso! em Portugal, democracia é igual a banca-rota…já para não falar que democracia é esta que decidem qual o programa de Governo de um país…uma sociedade que promove e paga, o assassinio, legal, de Seres Humanos é uma sociedade desvairada…

    “(…)que melhor medram o fanatismo religioso ou político, a amoralidade e o ódio, transformando-os em exterminadores implacáveis num qualquer banho de sangue que glorifique a sua distorcida noção de justiça(…)”

    p.s.-1 o engraçado na Fernanda Cãncio, para alem de ser a moralista, um extremista moralista, partilha o blogue Jugular com a fanatica religiosa ateísta, Palmira…

    p.s.2- isto de partir de um caso particular, para a generalização, mais logo estão a escrever que os “encontros” de 13 de Maio deviam ser proíbidos…mas enfim…isto das generalizações…

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