O sexo da escrita – Prova cega (3)


Ana Vidal,

 

“A primeira fotografia guarda para sempre a imagem de um altivo cavalheiro dolorido que procura em vão ocultar, sob elegantes atributos convencionais – um chapéu de copa, um colarinho engomado e uma bengala que as mãos seguram – o que o seu olhar tristíssimo denuncia: que é o mais infeliz dos homens. A segunda mostra-nos HJ com a mesma indumentária, olhando, não sem assombrosa incredulidade, o primeiro retrato. Esse jogo do homem visto pelos outros, do homem visto por si mesmo, foi sem dúvida sugerido por J. O rosto que qualquer uma das fotografias capta, corresponde, estóico e ausente, à inexorável imagem que a obra deixa transparecer.”

 

Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.

 

Solução (às 22.45h): Jorge Luis Borges – Prólogo para o conto de Henry James “The friends of the friends”. Desta vez o labiríntico Borges não enganou a maioria dos argutos – e cultos – comentadores do Delito de Opinião. Talvez o próximo texto não seja tão consensual.

 

45 comentários em “O sexo da escrita – Prova cega (3)”

  1. Texto de homem.
    A descrição dos “atributos convencionais” também é muito convencional: o chapéu, o colarinho, a bengala. Uma mulher repararia noutras coisas, na brancura da camisa, no corte do fato.
    E “indumentária” é palavra de homem, revela desprendimento relativamente à roupa masculina.
    (isto é tão engraçado)

    1. Ivone, ainda bem que eu pedi justificação para as vossas opiniões… o que eu tenho aprendido!
      Mas no caso deste texto não quero induzir ninguém em erro por minha culpa, por isso devo avisar que a tradução do original é minha. O que me levará, pensando bem, (tendo em conta a questão pertinente da influência do género do tradutor, que a Ana Cláudia levantou no texto anterior), a aprender também alguma coisa sobre mim própria. 🙂

  2. Homem. Já a justificação é sempre complicada. É mais a sensação que me é transmitida pela linguagem. Talvez o hábito de se agarrar aos códigos pelos objectos e pela forma de interagir com eles em vez da interacção entre as pessoas. Talvez eu veja a escrita masculina como mais “física” (descritiva dos objectos e da sua importância e do seu uso) e a feminina mais “empática” (nas relações entre as pessoas e os seus estados de espírito).

      1. Talvez não, por isso fiquei na dúvida, mas acabei também por chegar à mulher nesse. Um pouco de sorte, suponho, até porque Yourcenar é daquelas autoras que não é homem nem mulher, é apenas e só grande.

  3. Bem, a prova anterior terminou como eu pensava: 3º sexo 🙂
    E juro que não identifiquei o autor, mas o certo é que me lembrei imediatamente, sem suspeitar, da Yourcenar, talvez por causa das fontes de inspiração classicista.
    Desta feita, vou numa lógica de puro bridge… aposto num homem!
    Não, não é aleatório: talvez seja a objectividade da descrição e a simplicidade dos qualificativos. Que mulher resistiria a espraiar-se para além do necessário, num terreno de caracterização psicológica?
    Como diria o Pedro, é “azul”!
    (além disso, lembra a escrita do GM).

  4. Este, parece-me masculino. Honestamente, e em ambos os três, não é por nenhuma especificação precisa. Sempre pelo estílo, mais do que por qualquer outra coisa. Hum, gosto deste jogo. Aguardo o próximo texto 🙂

    1. E assim cai por terra o mito de que só as mulheres adjectivam em demasia, Teresa! (como eu disse antes, não acrescentei um único adjectivo ao traduzir o texto).

  5. Ana: para a prova ser mesmo ‘cega’ convinha esclarecer se é um original em português ou um texto traduzido (ser traduzido por homem ou mulher não é irrelevante, como a Ana Cláudia já salientou). Feita esta ressalva, e mantendo o meu entusiasmo por esta série, diria que… é alguém que usa em média dois adjectivos por cada substantivo. Exs: “altivo cavalheiro dolorido”; “elegantes atributos convencionais”; “rosto estóico e ausente”.
    Vou ponderar melhor e já te digo.

    1. Ah, acabo de ler a resposta que deste à Ivone, o que me ajudou a esclarecer dúvidas. Suponho que será prosa (original) de homem. Os homens reparam mais nos “atributos convencionais”. As mulheres estão instintivamente mais receptivas a vislumbrar “atributos não convencionais”. Penso eu de que.

    2. Tens razão, vou passar a referir isso nos textos. Neste caso, como já disse, a tradução é minha. Mas garanto que não acrescentei um único adjectivo ao original! 🙂

  6. Ana, adoro o desafio, mas não acerto uma resposta, já reparou?
    Escolhe meticulosamente os textos o que nos coloca sempre numa zona cinzenta, pouco clara. Parabéns. Eu, com a minha falta de pontaria, aponto para ima mulher. Não pelos adjectivos, mas pelo ambiente criado, pelo enredo que se adivinha. No entanto, em nenhum dos textos encontro ima marca clara do sexos o que vai de encontro ao que penso. O que dizer de alguns registos de Virginia Woolf? Toda a obra marcada pela escrita no feminino? Não creio… Enfim, aguardemos…

      1. Minha cara,
        Anda por aí alguma confusão e assim não vai lá. O meu blog trata de coisas do passado que remexo num baú. Destina-se a estudantes desde o nível pré-universitário, até às últimas fases do ensino superior.
        A avaliação ou a escolha de uma palavra ou frase, é uma simples questão de gosto.

        Com os melhores cumprimentos,
        JC

  7. Gosto muito deste desafio. Tenho tido muitos monólogos interiores à conta deste assunto. Realmente é muito comum dizer-se que as mulheres têm mais aptidão do que os homens para uma coisa e vice-versa. Ou que há coisas tipicamente femininas, ou tipicamente masculinas. Nunca me ocorreu aplicar isso à literatura. É por isso que gosto tanto da blogosfera e do vosso blogue.
    Durante o fim-de-semana, ocorreu-me uma dúvida tremenda. E pensar que viria fazer aqui um brilharete, quando vejo que a Ana Cláudia estava em sintonia com o meu pensamento. De facto, se pudéssemos concluir que as escritas feminina e masculina são marcadamente diferentes e identificáveis, a tradução de um texto por alguém do sexo oposto minaria, sem sombra de dúvida, o “género” do texto original.
    Acontece que uma outra dúvida paira na minha cabecinha. Será mesmo correcto falar de género? Ao falarmos de géneros estamos a circunscrever capacidades e talentos a estereótipos do tempo da Maria Cachucha. Os homens são duros, as mulheres são sensíveis. Os homens são boémios, as mulheres são românticas. E por aí a fora…
    Comecei a pensar que talvez os homens tivessem mais tendência para escrever textos analíticos, ou históricos, mas isso não corresponde à realidade. Também poderia dizer que as mulheres tendem a escrever mais romances de cordel e lembrei-me da Nora Roberts. Automaticamente, vieram-me à memória prateleiras cheias de livros do Nicholas Sparks, que escreve exactamente os mesmos tipos de romances, com a sensibilidade necessária para fazer qualquer romântico chorar.
    Isto levou-me a pensar que, em se tratando de ficção, o autor pode ser capaz de adequar o seu estilo ao público-alvo, em vez de deixar transparecer mais de si. Tipo uma produção automática, em que se usam repetidamente as fórmulas de sucesso já testadas. Afinal de contas, é um produto para massas. Mas dizer que existe uma literatura específica para agradar mulheres não é de todo correcto, porque eu sou mulher e não tenho paciência para ler esses romances. Logo, terei em mim uma característica mais masculina? Ou serão livros escritos por românticos (homens e mulheres) que se destinam a românticos lamechas (homens e mulheres)?
    E o que dizer das mulheres que escreveram sob um pseudónimo masculino? Fosse essa distinção possível, Mary Ann Evans (George Eliot), provavelmente, nunca teria escrito um livro.
    E os homossexuais? Homens assumidamente mais sensíveis e femininos do que muitas mulheres que conheço seriam capazes de iludir quem se baseia nessa teoria da distinção. Já as mulheres poderão explorar o seu lado mais masculino, ou exprimir a sua paixão pela feminilidade com uma crueza incomparável.
    Contudo, há diferenças. Tenho aprendido muitas delas a ler estes comentários. Mulheres e homens vivem e sentem de maneira diferente. Nada mais natural do que isso se reflicta na sua escrita. Ainda assim, custa-me a crer que todo este processo seja assim tão linear. As semelhanças e/ou diferenças poderão dever-se a múltiplos aspectos como o género literário que cada um desenvolve, a educação do autor (familiar e académica), os ambientes que o influenciam, o país, a cultura e não necessariamente o género, o sexo, ou a identidade sexual.
    Quanto a este texto, e perdoem-me o comentário tão longo, eu diria tratar-se de um texto escrito por um homem. Porquê não sei. Já estou demasiado confusa com tudo isto.

    1. Que fantástico comentário, Helena! Estamos em sintonia, sabe? O que tento aqui provar é exactamente que não é nada linear a distinção clara de género na literatura, muito pelas razões que invoca. Será que conseguirei convencer alguém? Veremos. Darei a mão à palmatória com muito gosto, se a maioria com opinião contrária for esmagadora. Seja como for, também eu tenho aprendido imenso e é sempre muito gratificante reflectirmos sobre temas interessantes, mesmo que não se chegue a nenhuma conclusão. Pensar faz bem.
      Obrigada pelos elogios ao Delito e volte sempre, que será muito bem-vinda.

      1. Pois eu perco de vez os pruridos e afoito-me numa convicção que tenho exprimido em tom cauteloso e dubitativo: tendencialmente, não acredito realmente no género da escrita, sobretudo quando se trata da grande escrita. E aqui reside a primeira separação, em termos de metodologia. Esta não é uma falsa fronteira. Para mim, é simplesmente fundamental. Porque o grande escritor, que trabalha seriamente o texto e eleva a sua criação a patamares de excelência, é de tal forma ímpar e singular que deixa de ser analisável através dos pequenos tiques, indisfarçáveis, da escrita espontânea e imperfeita (talentosa que seja). A questão está em que, quando exploramos os grandes nomes pela primeira vez, já lhes conhecemos o género. E assim nos vamos auto-induzindo, descartando os casos dissonantes. – Saint-Exupéry , por exemplo. M ou F? DH Lawrence ? M ou F? Joyce , em algumas obras? M ou F? Camilo, nos requintes de romanticismo ? M ou F? Etc. .
        E já excluo daqui a lírica, por natureza sentimental, introspectiva – assexuada, portanto – ainda que possamos descobrir-lhe vislumbres de género (?)
        Se não fossem os identificativos, como os pronomes , e os nomes, quantos textos em prosa resistiriam a uma prova cega? Muitos.
        Finalmente, outra achega: a chamada emancipação da mulher é, historicamente – e em termos sintéticos – uma luta pela conquista de um direito de autoria. Autoria de vida. Passando de seres quase juridicamente irrelevantes, de simples actoras » passivas, a cidadãs de pleno direito, com existência própria, vontade própria, prerrogativas incondicionáveis e (Marx tinha razão) capacidade de autosubsistência.
        Pois, nessa luta, qual foi o primeiro dos primeiros terrenos libertadores? O que andou sempre muito à frente da condição objectiva de cidadania ? Precisamente, a escrita.
        Uma acção solitária, individual, libertadora, em que as armas não eram tão desiguais, porque não tinham de defrontar-se com as forças exteriores de descriminação social, com os guetos do gineceu e as limitações de vida quotidiana. Pensamento contra pensamento: a equidade pura.
        Logo, qual é a dúvida? A escrita foi o primeiro dos grandes baluartes masculinos a cair e a ser tomado por elas. Aqui, são já séculos de luta igual, embora desigualmente avaliados. Mas até isso ( a hetero-avaliação ) mudou.
        As mulheres escritoras são há muito tempo patriarcas.
        Para quê teimar em determinar-lhes o sexo pela palavra? Ainda que isso seja irrelevante, como é.

        1. Ena, grande padeira de Aljubarrota! Escusado será dizer que concordo quando dizes que muitos textos resistiriam a uma prova cega se não houvesse alguma auto-indução prévia (e como sou muito mais preguiçosa do que tu, fico-me por aqui).

          1. Ana, a culpa é toda tua ;.) E da Ivone, que provocou essa coisa apetitosa a que se chama fundamentação desenvolvida, «pica» a que não resisto e com que os comentadores do DO nos (te) brindam . Sou fã absoluta desta série, já sabes. Porque há muito tempo que, preguiçosamente, este tema me convoca. Só tenho de te agradecer pelos exercícios! E espero mais, para avaliar as minhas convicções que, de resto, estou pronta a rever em qualquer momento: sou opinativa mas não julgo ter o monopólio da razão ;.) Queremos mais!

          2. Outros virão, prometo. A minha preguiça não é extensiva à procura de textos, coisa que aliás me dá muito gosto. E não é só por preguiça que não interfiro muito nas caixas de comentários, é porque prefiro deixar a palavra aos meus comentadores de luxo e porque o meu raciocínio pode já estar influenciado pela escolha dos textos, que foi minha.

  8. Eu também aposto no homem. Tem muitos adjectivos, sim, mas é objectivo, quase matemático, embora fale de tristeza e infelicidade.

    Ainda não tinha entrado neste jogo, é interessante. Espero que continue.

    1. Aposto num homem. Os objectivos são de agrado masculino, (altivo, elegantes atributos convencionais, estóico e ausente…), a descrição é masculina, e até o tema (roupa) é tratado de forma masculina. Uma mulher centrar-se-ia muito mais nos detalhes que na imagem inteira.

          1. Alguns leitores pretendem levar este debate para o campo da “orientação sexual” (ou deverei escrever “orientação de género”?) dos escritores. Salvo melhor opinião, não é nada disso que está em causa. O que aqui se debate é a existência – ou não – de características de escrita masculinas e femininas. Isto independentemente, ou para além, da “orientação sexual” ou dos hábitos sexuais de cada um. Dumas, Balzac e Byron, por exemplo, eram escritores “promíscuos”. Ou o nosso Bocage. Pessoa e Borges seriam assexuados, Kafka talvez também. Não me parece que isso seja relevante para o interessantíssimo debate que tem vindo a ser travado nestas caixas de comentários, pela mão da Ana.

          2. Não é isso que está em causa, de facto. Não sei se chegaremos a alguma conclusão, como já disse aqui, mas o debate é o mais interessante e tem sido muito rico.

  9. Um homem. Pela arrogância – “o que o seu olhar tristíssimo denuncia: que é o mais infeliz dos homens”, pelo narcisismo quase «poliédrico», pela perseguição da essência de um rosto que corresponderá, assim o crê, a uma alma.

          1. Obrigada, repito, mas traduzir Borges é uma temeridade que não tenciono bisar… só o fiz porque o meu livro está no original e a língua reduziria muito as hipóteses.

  10. Isso é assim tão importante?… o texto da mulher é diferente do texto do homem? .. uma refeição feita por uma mulher é diferente de uma refeição confeccionada por um homem? quem faz melhor?
    Somos tão ambíguos, tão diferentes, tão iguais, entre mulheres, entre homens, entre homens e mulheres… Estar a seleccionar excertos de livros para identificar sexos? qual a finalidade? chegar à conclusão que escrevemos de formas diferentes? Que a mulher é mais sensível e que o homem é mais directo? Mas que há situações em que não é bem assim? E…???

    1. E… tem sido pretexto para uma reflexão interessante, Sónia. E divertida. Não pretendemos publicar nenhum decreto depois dela, mas apetece-nos discutir o sexo dos anjos… escritores. Alguma coisa contra? Se não lhe apetece entrar na liça, é claro que não é obrigada a isso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *