Natália Correia – “Verdadeira litania para os tempos da revolução”
Resposta a este repto de Mário Cesariny:
Burgueses somos nós todos
ó literatos
burgueses somos nós todos
ratos e gatos
Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens! O que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.

Ana, a carcaça da Natália Correia deve ter dado duas sacudidelas na tumba quando a sua alminha impoluta, lá no céu dos burgueses, assistiu a esta oportuna evocação. Sempre tive medo da mulher (imaginava-a com voz de trovão a apontar para mim bramindo “tu, tu és HOMEM!”), mas sempre simpatizei com ela por me lembrar a minha bisavó Marques. E agora vou para o Algarve beber whiskies de malte — há que dar algum assunto aos colegas. Beijocas.
Sempre generoso, colega.
Quanto à Natália, era um monumento em todas as frentes: no mau feitio, na beleza e no talento poético. Ainda a conheci no Botequim, mas já muito quebrada.
Beijos e bons whiskies. A malta aqui fica-se pelas bejecas, é a crise…