Rasgos (31)


Ana Vidal,

Natália Correia – “Verdadeira litania para os tempos da revolução”

Resposta a este repto de Mário Cesariny:

 

Burgueses somos nós todos

ó literatos

burgueses somos nós todos

ratos e gatos

 

Mário nós não somos todos burgueses

os gatos e os ratos se quiseres,

os literatos esses são franceses

e todos soletramos malmequeres.

Da vida o verbo intransitivo

não é burguês é ruim;

e eu que nas nuvens vivo

nuvens! O que direi de mim?

Burguês é esse menino extraordinário

que nasce todos os anos em Belém

e a poesia se não diz isto Mário

é burguesa também.

Burguês é o carro funerário.

Os mortos são naturalmente comunistas.

Nós não somos burgueses Mário

o que nós somos todos é sebastianistas.

2 comentários em “Rasgos (31)”

  1. Ana, a carcaça da Natália Correia deve ter dado duas sacudidelas na tumba quando a sua alminha impoluta, lá no céu dos burgueses, assistiu a esta oportuna evocação. Sempre tive medo da mulher (imaginava-a com voz de trovão a apontar para mim bramindo “tu, tu és HOMEM!”), mas sempre simpatizei com ela por me lembrar a minha bisavó Marques. E agora vou para o Algarve beber whiskies de malte — há que dar algum assunto aos colegas. Beijocas.

    1. Sempre generoso, colega.

      Quanto à Natália, era um monumento em todas as frentes: no mau feitio, na beleza e no talento poético. Ainda a conheci no Botequim, mas já muito quebrada.

      Beijos e bons whiskies. A malta aqui fica-se pelas bejecas, é a crise…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *