“Nós, os que escrevemos, temos na palavra humana, escrita ou falada, grande mistério que não quero desvendar com o meu raciocínio que é frio. Tenho que não indagar do mistério para não trair o milagre. Quem escreve ou pinta ou ensina ou dança ou faz cálculos em termos de matemática, faz milagres todos os dias. É uma grande aventura e exige muita coragem e devoção e muita humildade. O meu forte não é a humildade em viver. Mas ao escrever sou fatalmente humilde. Embora com limites. Pois do dia em que eu perder dentro de mim a minha própria importância, tudo estará perdido. Melhor seria a empáfia, e está mais perto da salvação quem pensa que é o centro do mundo, o que é um pensamento tolo, é claro. O que não se pode é deixar de amar a si próprio com algum despudor. Para manter a minha força, que é tão grande e helpless como a de qualquer pessoa que tenha respeito pela força humana, para mantê-la não tenho o menor pudor.”
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Solução (às 22.30h): o texto foi retirado do livro “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector. A maioria dos comentadores inclinou-se para uma escrita feminina, mas bastam três opiniões em contrário para derrubar a tese do reconhecimento infalível. E aposto que os próximos textos serão menos consensuais. Obrigada pela animada participação e fiquem atentos, haverá duas provas cegas em cada semana.


Não posso responder. Conheço o texto, sei de quem é.
Ok, Ivone, fica para o próximo.
Antes de me desgraçar em público, preciso de mais informação. As respostas erradas descontam no resultado?
As respostas erradas serão multadas à grande e à portuguesa, com juros e correcção de câmbio…
Não fiz batota, não sei quem escreveu este texto, mas palpita-me que foi uma mulher. Afirmo-o sem convicção, pois começaste com um exemplo que não é nada fácil. Fundamento o meu palpite nesta deriva final pela autoanálise, de que as mulheres tanto gostam. Embora não tenham o exclusivo da escrita confessional…
Não têm, de facto. Comecei por este texto por causa do tema, é uma espécie de homenagem minha a quem escreve. 😉
«uma espécie de homenagem minha a quem escreve. ;-»
Olá Ana,
Só podia ser mesmo. 😉
«Escrever sem estilo é o máximo, que quem escreve, chega a desejar.»
Já tinha saudades suas, Ana VViidaaaallll 🙂
Na minha opinião o que existe aqui é uma escrita andrógina: um ser autenticamente “dois-em-um”.
Já agora acrescento que gostei muito da sua escolha para leitura de férias.;-)
Concordo, Ana. E… branco mais branco não há! lol
O que vale é que estamos a chegar ao fim do dia e daqui a pouco faço o balanço das respostas. 🙂
Viva, Anaaaa! 🙂
Eu não diria “sem estilo”, talvez antes “sem género”. E não tenho a certeza se é um ideal, por isso abri esta discussão. Mas não arrisca uma opinião, ou já conhece a autoria do texto?
Arrisquei opinião, pois! 🙂
A vida está cheia de estranhas coincidências, chère Ana. Reparou na hora que comentei das duas vezes?! lolol
Fez-me lembrar o episódio piloto! :)))))
Bj
:-)) Bjs
Menina Ana Vidigal
Como fã das suas escritas e do blog em geral não gostaria de deixar de responder…. .mas a minha cultura não chega lá… assim, perguntei à minha professora das Novas Oportunidades e ela disse-me que esse texto
relaciona-se com uma deusa que viveu á muito– muito tempo – 2 mil anos antes da Biblia…. deusa Ananna… Mas, a” malandra” da professora mandou-me pesquisar na internet… o sexo_da _ mulher escrita. httm… Vou nessa… depois respondo, pode ser?
Obrigado.
A sua professora disse-lhe que foi uma deusa que viveu á muito? Diga hà sua professora que os deuses não costumam morrer.
Menina Ana
Muito lhe agradeço os reparos: filosoficos e gramaticais…. como disse ’tou a estudar nas Novas Oportunidades, pelos visto a professora também está a precisar de reciclagem….
Como a menina Vidigal ecreve tão bem que até confunde a minha cabeça, não vou responder ao desafio baseado nos textos que pesquisei na internete… não quero passar pelo reparo das vergonhas.
Passar bem…
Parece-me que os seus óculos é que precisam de reciclagem, não? Talvez nas Novas Oportunidades lhe arranjem uns mais em conta, quem sabe?
AMendes, o seu recado será entregue à menina Ana Vidigal.
Sabe, vizinha, isto é uma maçada. Comecei ler o texto e tive a presunção de ter identificado quem o escreveu. À medida que avançava, o nome batia-me na cabeça, e não consegui afastá-lo, pelo que a minha análise não ficou isenta. Para ser honesto (até porque não sei se acertei no nome) não consegui identificar o sexo, se bem que me inclinasse para “homem”. Porquê? Não sei bem explicar, uma escrita mais “dura”, talvez. Ou é o tema, sei lá eu…
Tenho algum prémio pelo reconhecimento da incapacidade? E pela evidência de uma argumentação fraca?
Maçada nenhuma. E eu é que tenho um prémio por vê-lo aqui, caríssimo vizinho! 🙂
Eu acho que ganhei um prémio qualquer, sabe? Apostei num “sexo” quando tenho fortes suspeitas de quem é o/a autor/a do texto. Mas fui pela interpretação, mais do que pela ideia de quem escreveu. Ora isto chama-se arrojo, se bem que também se possa chamar patetice. Há um prémio para estes?
Há sempre um prémio para os arrojados, João, mas nem sempre vem quando se espera e nem sempre parece um prémio. Já os patetas (jamais o seu caso!) recebem na hora um prémio qualquer, porque tudo lhes parece um prémio… 🙂
Eu tinha a certeza (passe a presunção) que era a Lispector, se bem que nunca tivesse lido este texto. Decidi ser honesto e espalhei-me. No fundo, no fundo, é o que acontece a quem o é num país de trafulhice generalizada. Voltarei escrevendo sobre pseudónimo, só revelando o nome no momento da glória, escondendo-o na altura da desgraça.
Bem, na falta de informação adicional, vou votar sob protesto. Digo que é mulher. Sobretudo por causa do helpless.
Nunca te sentiste helpless, Rui? Sortudo! 🙂
Claro que sim. Mas, quando se dá o caso, escrevo sobre futebol.
lol
Parece muito escrito por uma mulher.
Fundamentar é difícil. Eu tendo a não compreender bem, a achar indefinidos, os textos escritos por mulheres. Esses textos tendem, além disso, a meu ver, a saltar de um assunto e de um raciocínio para outro sem conexão aparente. É o caso deste.
Não entende a escrita das mulheres porque as acha incoerentes, Luís Lavoura? Isso significa que só lê autores homens? Grande lacuna, caramba. No caso deste – e não digo ainda se é de homem ou de mulher – eu não vejo qualquer incoerência ou errância no texto.
Se a Ana usa para me criticar a fundamentação que eu dou para achar que é uma mulher a autora, então eu vou deixar de apresentar qualquer fundamentação.
Não estou para ser criticado por algo que lhe dei gratuitamente porque Você pediu.
Pelo contrário, argumente à sua vontade. Não foi uma crítica, estranhei foi essa generalização da incoerência feminina, que me parece muito limitativa nas suas escolhas literárias. Mas já cá não está quem falou.
Não se rale com as minhas escolhas literárias porque eu leio muito pouco em geral e literatura ainda muitíssimo menos; quase só leio livros técnicos.
Será então falta de hábito.
Sem dúvida uma mulher.
O estilo feito a buril e o uso de expressões , como “fatalmente humilde”e helpless “, que primam pela ausência de testosterona.
Tanta certeza assim, Helena? 🙂
Arrisco Mulher moderna (lol). Motivos:
– referência à dança como forma de arte (menos comum na universalia masculina)
– comiseração (que creio mais presente no discurso feminino)
– helpless – estrangeirismo tão comumente utilizado nos dias de hoje pela mulher moderna…
disclaimer: não sou machista, hein !
Ninguém aqui lhe chamará machista por essa opinião, FB. 🙂
Também subscrevo a possibilidade feminina.
A barricada feminina ganha cada vez mais adeptos, estou a ver…
Declaração de princípio: não acredito no ‘sexo da escrita’, com força de lei.
Mas arriscaria pelo feminino.
. Só uma mulher poderia escrever «… com o meu raciocínio, que é frio». Um homem não sentiria necessidade de o afirmar.
(?)
. Depois, o vício qualificativo: adjectivos e advérbios sucessivos, mas precisos e não redundantes. Um homem não alcança certas subtilezas, tenderia seguramente a abdicar de 3 em favor de 1, que considerasse melhor cumprir a função qualificativa. Por outras palavras, o que para eles é tautológico, para elas não é.
(?)
Como tu, não acredito no sexo da escrita como princípio. Os escritores têm muitas peles. Mas há casos e casos, claro, e alguns são inconfundíveis. Este parece-me um daqueles casos mais emblemáticos de dúvida, por isso o trouxe aqui.
(acho que tens razão nessa coisa do vício qualificativo feminino… não é um exclusivo, mas é uma característica mais acentuada em nós)
«Empáfia»? «Pudor/despudor»? «Helpless»?
É menina.
Menina?? Cor-de-rosa, portanto. Eheheheheh
Eu arrisco o masculino precisamente por causa do “raciocínio que é frio”.
Haja alguém que se atreva à contradição, Helena! 🙂
Pois é… Eu atrevo-me e erro muitas vezes :-p
Só não erra nunca quem nunca se atreve, Helena. 🙂
Pela dança, pelo ênfase emocional, pela sensibilidade: uma mulher.
Ou um homem com um género mais feminino. Pela formação britânica (helpless), não me pareceria mal que o autor fosse Fernando Pessoa.
Resposta: provavelmente mulher, certamente “feminina”.
Bem fundamentado, Hugo Monteiro.
Então pode ser um “híbrido” ? Castelo Branco por exemplo ? Não o Camilo, o Zé !
…piadinhas… 🙂
Dos dois, só um sabia escrever. E esse não engana muito…
É uma mulher, tem demasiados rendilhados, demasiadas explicações, demasiadas justificações.
Taxativo? Muito bem.
🙂 Não conheço o texto. Sou das que julga haverem diferenças, embora, não sejam lineares. Podem perfeitamente existir formas de escrita assexuadas, embora não me pareça o mais frequente. Pessoalmente, e regra geral, prefiro escritas masculinas. Não obstante, quando gosto do que uma mulher escreve, posso chegar a gostar mesmo muito. Quanto ao texto, sem certezas, parece-me feminino. Porquê? Apenas pelo estilo.
Carla, o seu comentário suscitou-me um reparo neste preto/branco que procuramos. É que há ainda uma variante dentro da escrita claramente sexuada: uma escrita sexuada, mas de sinal contrário ao género do(a) escritor(a). É isso que quero dizer quando invoco as várias peles de quem escreve, o que faz alternar os pontos de vista. Uma escrita totalmente assexuada parece-me que só pode ser artificial.
A autoria do texto, quanto mim, pode ser tanto dum homem como duma mulher – conheço alguns autores (não muitos, também por não ser uma uma grande leitora) que sabem muito vestir outras peles. Mas a minha intuição diz que esse excerto é discurso de homem – “Está mais perto da salvação quem pensa que é o centro do mundo…” . Embora a seguir reconheça que seja “um pensamento tolo”.
Obrigada à Ana Vidal por mais esta Série. Muito interessante. Irei segui-la com prazer e com vontade em aprender…
Júlia, just in time! Vou agora mesmo publicar o resultado, veja se acertou… 🙂
Vejo que o meu comentário está confuso. Com “discurso de homem” queria dizer que a “fala” seria duma personagem masculina.
Nesse caso tinha razão, Júlia.
pena Ana, não cheguei a tempo…Mas li o texto antes de chegar à solução e diria que é uma escrita masculina. Mas tive dificuldade em decidir, o que revela o cinzento da escolha…:-)
Amanhã já tem outro desafio, Fernanda. 🙂
Esta prova cega confirmou a minha tese, Ana: a escrita tem sexo. Ao nível do vocabulário, ao nível da sintaxe, ao nível até da pontuação.
A esmagadora maioria das respostas apontou na direcção certa.
Venham mais!
(eu depois contribuirei com aquele excerto que já leste)
Não deites foguetes ainda… os próximos textos não são nada óbvios.
(o teu é um must, mas é muito fácil!)
Se me permitem, não resisti a colocar este link aqui.
http://www.citador.pt/textos/a-mulher-po rtuguesa-tem-um-bocado-de-pena-dos-homen s-miguel-esteves-cardoso
«O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada.»
Don’t let yourself be talked into just anything; remember to respect yourself and stick to your boundaries.
ah poisé 😉
Escrita pode ter sexo e tal acontece muitas vezes.
Mas dependerá do género de literatura, assunto e
provavelmente também da língua do autor que pode acentuar ou diminuir os sinais.
Por exemplo se formos ao género de crime e mistério as diferenças tornam-se mais ténues. Dorothy L.Sayers é um exemplo.
—-
“O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada”
vs
“mas bastam três opiniões em contrário para derrubar a tese do reconhecimento infalível.”
Note-se que 2 das opiniões erradas foram de mulheres.
O seis sentidos não estavam a funcionar ou estavam a trabalhar contra um força ideológica mais poderosa: desejo de igualdade?
Não tenho a certeza se percebi a sua pergunta. Além disso, a ideia não é transformar este passatempo numa guerra de sexos, Lucklucky. Convido-o a participar amanhã, nem que seja para demonstrar a sua superioridade masculina…
Não fiz uma pergunta, fiz vários comentários.
Parece-me que reagiu de forma demasiado sensível a um deles, não me parece que uma crítica seja extrapolável para uma situação genérica de “superioridade”.
Parece-lhe? E a mim parece-me que uma frase que termina num ponto de interrogação é uma pergunta.
Mas afinal era uma crítica em forma de pergunta.
Erro meu no respeitante ao último parágrafo.
Min, o que queres dizer é que esse texto, pata quem não soubesse a autoria, passaria facilmente por um texto de uma mulher? Se é isso, concordo absolutamente. O MEC é um bom exemplo de que nada disto é infalível.
Puxa … menina… foi dificil … reciclei os óculos como me sugeriu, pesquisei.. respiquisei trirrespizei e descobri:
Metade homem metade metade mulher:- Um transexual…
Ganhei ( pense mas não diga)