“é assim e é até ao fundo até o mais fundo da dor a vontade é uma festa e nós sobretudo nós que já a perdemos não podemos deixar de beber na fonte da palavra vontade não podemos deixar de largar tudo e ainda outra vez deixar tudo e ir atrás do abismo de Lampião seguir um bando uma coluna lançar-nos de novo naquilo que eventualmente chamamos de vontade porque essa vontade era a vontade de viver e reinventar a vida todos os dias e era e é sendo vontade sobretudo para nós bandoleiros que não a pronunciamos mais a própria vida o nosso coração contente.”
Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.
Solução: Gisela Campos – “As idéias todas”. A minha teoria ganha peso, tendo em conta que o número dos comentadores que se inclinaram para a autoria masculina dobra o número dos que tiveram opinião contrária. Perante o reparo de estar a “encolher” os textos para dificultar a análise, prometo um texto mais longo para a próxima vez. Não foi propositado, garanto, mas a crítica não deixa de ser justa. Não faltem à próxima chamada, é já no sábado.


Para já só sei dizer que isto foi escrito no dia em que os pontos finais faziam greve.
E as vírgulas estavam de férias.
E nesse dia, da greve, julgo que um Homem terá escrito isto. Boa????
Gosto da maneira como este senhor usa as vírgulas! 😉
Ana, estranhei não ter publicado o meu comentário na prova do J.L.Borges. 😉
Bjs
Escapou-me algum comentário seu? Ups, não foi de propósito, Ana. Mas não está nenhum por publicar, que estranho…
Mulher.
É o tipo de texto que eu designo por épico-íntimo: alguma grandeza semântica ao serviço da descrição de um estado de alma.
Os homens, quando são épicos, não são íntimos. Guardam o tom grandiloquente para o que lhes é alheio.
Além disso, na frase “não podemos deixar de largar tudo”, há uma necessidade de justificação e explicação que é muito feminina.
Ana, posso estar a espalhar-me ao comprido, mas eu acho isto tão feminino na exposição da dor à flor da pele, na percepção do real através de um olhar dolorido, que apostaria aqui para a desgraça.
Na mouche, Ivone. Este era difícil, mas as suas fundamentações dão sempre matéria para reflectir.
Ana, a literatura é como o anjos, não tem costas e tão-pouco tem género, raça, etc. É ou não é. Feminina? Judia? Gay? Não me parece. Bjs
Olha que não, Patrícia. Não imagino o Hemingway a escrever ‘Orgulho e Preconceito’ nem a Jane Austen a escrever ‘O Velho e o Mar’.
Pedro, estás a fazer batota… não vale comparar épocas e vivências diferentes… 🙂
Pedro, esses dois exemplos talvez sejam complicados de debater, mas há escritores que escreveram peças insuspeitas sob pseudónimo e muitos escreveram romances de cordel, em voz feminina, sendo que são homens com um determinado estatuto intelectual. beijos
Claro, Patrícia. Há escritores (homens) muito capazes de compor personagens femininas credíveis e dar-lhes voz autêntica e uma admirável densidade. O inverso é igualmente verdadeiro, como sabemos. E nem é preciso sair da literatura portuguesa para perceber isso. Mas estes testes destinam-se a procurar a regra – se é que existe – e não a excepção. Beijo.
Pronto, Ana. Dois autores que foram contemporâneos, de um género muito específico: Agatha Christie e Raymond Chandler. Não me parecem intermutáveis. Beijo para ti também.
ah, Pedro, e terás tu lido o livro que Agatha Christie publicou sob pseudónimo e cujo título é um verso de Shakespeare? Talvez não… Raymond Chandler iria apreciar aquela tortura psicológica, nada policial ou criminal. Confessa lá que ficaste curioso…:) beijos
Não li, Patrícia. Livros com títulos de versos do Shakespeare, assim de repente, só me lembro d’ «O Inverno do Nosso Descontentamento» (Steinbeck) e d’ «O Resto É Silêncio» (Erico Veríssimo). Por sinal dois livros de que gostei muito.
E há ainda, ‘roubado’ a Shakespeare, o título do meu filme favorito do Hitchcock: «North by Nordwest».
🙂 cada um com a sua pancada, não é? Quanto ao livro de AC, o pseudónimo é Mary Westmacott e vale a pena procurar e ler porque são livros que revelam uma narrativa distinta e uma abordagem, pensamento, consideração (o que quiseres) que não estamos habituados em AC. Se quiseres posso emprestar. Beijos
Não li, Patrícia. Livros com títulos de versos do Shakespeare, assim de repente, só me lembro d’ «O Inverno do Nosso Descontentamento» (Steinbeck) e d’ «O Resto É Silêncio» (Erico Veríssimo). Por sinal dois livros de que gostei muito.
E há ainda, ‘roubado’ a Shakespeare, o título do meu filme favorito do Hitchcock: «North by Northwest».
Com esses dois, concordo (também não conheço esse livro da AC sob pseudónimo, Patrícia). Mas a nossa diferença de prisma é esta, Pedro: aquilo que tu consideras a regra eu considero a excepção. Beijo para ambos.
Pedro, esses dois exemplos talvez sejam complicados de debater, mas há escritores que escreveram peças insuspeitas sob pseudónimo e muitos escreveram romances de cordel, em voz feminina, sendo que são homens com um determinado estatuto intelectual. Há o contrário. Há autores que escrevem brilhantemente na voz feminina e autores gay cuja sexualidade não está reflectida no que escrevem e por aí fora. Posso fazer uma lista, fazer listas é a minha especialidade. beijos
Engraçado: também gosto de fazer listas. É um dos meus passatempos preferidos.
Minha linda, isso é o que acho também. Veremos se consigo prová-lo…
Mas tem valido a pena o exercício nestas caixas de comentários. Os nossos comentadores são um luxo!
Já o disse antes e repito-o: se há um jeito feminino distinto do modo masculino em todas as coisas da vida (e há), não seria natural que o mesmo não se verificasse na literatura. Há excepções? Claro. Como em todas as coisas da vida.
Para mim as excepções são muitas, João. Tantas, que as considero… regra. 🙂
A mim parece-me muito feminina, mas há ali um je ne sais quoi que me faz dizer que é homem o autor destas linhas. Talvez aquela vontade de brincar com os sons das palavras (não é exclusivo masculino, bem o sei) me faça dizê-lo. Ou a insistência no tema da “vontade” e de “viver”. Isto até me faz lembrar um autor, mas vou esperar pela resposta para ver se o poeta que tenho em mente (que já morreu) foi de facto o autor destas linhas (claro que me vou espalhar, mas tem mais piada assim :)).
Já agora, João André, qual era o autor que tinha em mente? É que a Gisela campos também é uma poeta brasileira contemporânea, muito versátil aliás como prova este texto.
“Ir a trás do abismo do Lampião”…
Mulher: – Leonor Pinhão, sócia nº656432 do Benfica.
Acertei!!!
LOL. Bem visto, lagarto.
Segundo o meu achómetro, acho que foi escrito por um homem. São os homens que menos gostam de vírgulas e mais gostam de metáforas.
Olhe que não, Fernanda, as mulheres também gostam muito de metáforas… 🙂
Eu aposto no homem. Esta escrita assim, sem pontuação, fez-me lembrar o Saramago. Mas não será dele, seria fácil demais…
De qualquer maneira, não me consigo desligar da sombra dele, ao ler estas linhas. Além disso, embora se sinta a depressão, desespero mesmo, acho que uma mulher seria mais intimista.
O Saramago fez escola, Cristina, é um facto. E é natural que seja assim.
«Ir atrás do abismo de Lampião?» Chiça. É gajo. E do Benfica.
Primeira falha, Pedro. Gostei! 😉
Esta foi a brincar, Ana. Para a próxima volto ao registo sério, prometo.
Claro, claro… 🙂
(Já disse que não acredito tendencialmente no sexo da escrita, mas pronto, os ossos de ofício habituaram-me a fundamentar tudo e mais alguma coisa…)
– Não é jurista, porque não pontua, ignorando que uma vírgula pode mudar o mundo ;.)
– Não é velho(a), antes pelo contrário.
– Emprega UM ÚNICO adjectivo em todo o texto.
– Usa sobretudo verbos, e verbos de acção
– O ritmo é galopante
– Não sofre a tentação de explicar uma emoção
– O resultado final, apesar de tudo, é sóbrio e preciso.
– «…para nós “bandoleiros”…»?!
É «de Homem»!
(eheh, estou curiosa….)
Acertaste em tudo… menos na conclusão. 🙂
ahahah 😉 😉 No fundo, no fundo, eu estava a desejar esta derrota… Muito mesmo, para fundamentar a minha tese.
de derrota em derrota até à vitória final? eheheheh
Peço uma correcção à mesa! Foi a primeira derrota…
Certíssimo! Tenho é esperança de que não seja a última… 😉
Mulher. Pelo modo tão íntimo como escarafuncha na dor.
Boa malha, Fernando.
Aposto numa mulher. Pela cadência da escrita e pela profunda consciência da “circularidade”, da roda do movimento que se inicia, se cumpre, se abandona e se retoma, num corpo de Gaia que ousa a reinvenção mais radical. Apaixonadamente.
Grande argumentação, Leonor! 🙂
Aproveito este novo desafio para deixar a minha opinião quanto a este “definir” do sexo do autor. Aliás, já foi quase tudo dito em comentários anteriores.
A escrita tem um sexo próprio, que não é muitas vezes o mesmo que o do(a) autor(a). O escritor sagaz é capaz de se colocar no lugar de outrém (de outra idade, de outra origem e mesmo de outro sexo) para escrever, mesmo que não assumam heterónimos como Pessoa.
Por isso, passarei a deixar expressa a minha opinião sobre a característica mais feminina ou mais masculina da escrita, não do autor.
Esta parece-me uma escrita com características femininas, muito introspectiva.
Estamos completamente de acordo, Zedeportugal. E acertou na… escrita.
Homem. Parece-me que é um texto com ideia fixa.
Os textos estão a ficar mais pequeninos. É truque fácil para ficar mais difícil… 😉
Touchée… embora não tenha sequer pensado nisso. O próximo será mais longo. Mas não tenha ideias fixas, homem.
O texto em si parece-me masculino, mas a cadência, oh a cadência que o transmuta e lhe dá uma musicalidade tão feminina, um despejar de emoções de um só sopro…. Arrisco a ser uma mulher, não tenho outra alternativa.
É a cadência que nos mata, Paula… 😉
Só um homem teria o desplante de escrever um texto sem qualquer pontuação durante tanto tempo. Só um homem teria a ousadia (pode ser no mau sentido da palavra) daquilo que me parece uma profunda falta de estética e uma enorme dificuldade de leitura.
Mas quem sou eu, que fui um dos três que falhou o primeiro teste…
Ah, vizinho, não se fie nisso: as mulheres também têm grandes desplantes e ousadias! 🙂
“Nós bandoleiros”? Acho que foi a Laura que o sublinhou e eu subscrevo: é uma comparação que me parece mais fácil de ocorrer a um homem. O texto é sentido, mas segue sempre na segunda pessoa do plural. A descontextualização pode estar a induzir-me em erro, mas o uso do “nós” pode ser um indicador de reserva e pudores masculinos.
Admito que a descontextualização pode induzir em erro, Teresa. É o mal desta fórmula, aliás, mas não há outra hipótese…
hmmm, eu apostei num homem, mas bem me dizia o instinto que me soava feminino… Eu sabia que me ia espalhar ao comprido…
Quem disse que se espalhou, João André? Só está a ajudar a provar a minha tese, nada mais…