O sexo da escrita – Prova cega (2)


Ana Vidal,

 

“Pasmaram os deuses por encontrarem entre os homens aquela imaginação infinita do Mal, aqueles inumeráveis recursos e angústias do prazer e do pecado. Num pântano ao fundo do cemitério, a cabeça de Kali ondulava como um lótus, e os seus longos cabelos negros nadavam à sua volta como raízes flutuantes. Recolheram piedosamente aquela bela cabeça exangue e puseram-se em busca do corpo que a sustentara. Um cadáver decapitado jazia junto à margem. Tomaram-no, pousaram a cabeça de Kali naqueles ombros e reanimaram a deusa. Esse corpo era o de uma prostituta, executada por tentar inquietar as meditações de um jovem Brâmane. Privado de sangue, aquele pálido cadáver parecia puro. A deusa e a cortesã tinham na coxa esquerda o mesmo sinal preto.”

 

Pergunta-se: Este texto foi escrito por um homem ou por uma mulher? Fundamente a sua resposta. O nome do(a) autor(a) será divulgado logo que haja respostas suficientes para que este desafio tenha algum interesse. E, para que tenha realmente interesse, por favor evite a batota. Isto não é um concurso de erudição nem o objectivo é identificar os autores. O que realmente se pretende é discutir se existe ou não uma escrita literária sexuada, ainda que as amostras que aqui apresento sejam, como é óbvio, necessariamente insuficientes para classificar toda a obra de um autor.

 

Solução (7 Agosto às 21.15h): Marguerite Yourcenar – “Contos Orientais”. Como eu calculava, desta vez as opiniões dividiram-se e as apostas rondaram os 50%/50%. O que prova que o tema não é, pelo menos, linear. Obrigada a todos pela participação, e já amanhã estará aqui novo desafio. Vamos aos palpites!

57 comentários em “O sexo da escrita – Prova cega (2)”

  1. Há um “conto do imprevisto” em que as protagonistas filhas são uma rapariga de cerca de 16/18 amos e uma sua irmã uns 20 anos mais velha. Já bem no final do conto, aparece uma terceira irmã, cuja idade intercala entre as duas, misturando a fogosidade da juventude à sabedoria da idade, impossível de conciliar apenas numa das primeiras irmãs….
    Um bom escritor(a) consegue aquilo que as duas irmãs não conseguiram, não lhe sendo difícil fazer-se passar por um do género oposto. Dito isto, opto, apesar de tudo, por um escritor homem, com dúvidas….

      1. Homem !! Mulher que se preze não deixava de chamar à devassa da Kali os nomes todos que ela merece !!

        (não faço a mais pálida ideia… )

  2. Mais difícil, esta… Escolheste bem a peça para baralhar os os apostadores, uma vez que se trata agora de um relato de acção. Hum… eu diria que é mulher, mas confesso que não sei porquê. Mero instinto.
    Pronto, já sei: aposto que é do 3º sexo.

  3. Parabéns pela interessantíssima iniciativa. De facto, não acredito muito no sexo da escrita mas esta minha convicção é muito pouco forte e menos sustentada ainda. Arrisco o meu voto no feminino, pelo recurso a frases longas com imagens aparentemente contraditórias, numa escrita cheia de palavras arrastadas que quase ecoam.
    “aqueles inumeráveis recursos e angústias do prazer e do pecado.”
    “Recolheram piedosamente aquela bela cabeça exangue”
    “ondulava como um lótus, e os seus longos cabelos negros nadavam à sua volta como raízes flutuantes.”
    “aquele pálido cadáver parecia puro.”

  4. Eu diria homem (e apenas porque a descrição é locativa), mas não de todo a certeza. Mas levanto aqui uma questão (que pode ou não interessar), Ana: será que o texto, quando traduzido, se torna mais difícil de identificar em termos de género do seu autor?

      1. Excelente questão, Ana Cláudia. O que nos pode levar a um subgénero de teste: o texto de homem traduzido por mulher e o texto de mulher traduzido por homem. Com interessantíssimas peculiaridades e sugestivas revelações.

      2. Muito boa, a tua variante da questão. E eu ainda acrescentaria: será que o sexo do tradutor influencia a tradução? Isto daria outra série, igualmente interessante.

  5. Difícil de opinar e comentar mas, quanto a mim, um texto escrito por um homem e, como autor, com poderes inimagináveis e arrepiantes.
    Bom fds

  6. Hum… há uma certa voluptuosidade na descrição do cadáver da jovem que bem pode sair da pena de um homem. Aquela referência ao sinal nas coxas também pode ser um indicador a levar em consideração. Por outro lado a prosa tem uma cadência suave, feminina. Arrisco a dizer que é texto de macho, mas sem grande convicção 🙂

    1. É um texto de mulher muito aristocrática, muito elegante, muito segura. A semântica têm uma matriz feminina: “angústias do prazer e do pecado”; “como um lótus”; “como raízes flutuantes”; “piedosamente”, “tomaram-no”, “bela cabeça exangue”.
      Há aqui a descrição de um “locus” de morte, de cadáveres e de cabeças soltas feita com as pontas dos dedos. Eu acho que sim: feminino, definitivamente.

  7. Ana, excelente excerto mais uma vez. Pela poesia feminina utilizada na descrição, só podemos ter uma autora muito interessante … Ou um autor muito sensível . Definitivamente opto pelo autor sensível a cores e formas… Errei novamente, hum?

  8. Ana
    Giro este teu desafio fifty fifty ( 50% hipótese de acertar … eh eh eh )
    Inclino-me assim completamente quase mesmo a cair, para que seja uma mulher/senhora a escrever.
    A primeira frase estou convencida que não poderia ser escrita por um homem …porque … na frase ‘aqueles inumeráveis recursos e angústias do prazer e do pecado’ parece ser observação de mulher.
    Nã sei … assim como assim como estava inclinada … acabei de cair mas mantenho
    ah!
    e direi mais … erudita … na casa dos 60
    lol

    1. Paula, por pouco não chegava a tempo de apostar! Mas acho que afinal vou adiar a resposta para amanhã, para dar mais hipóteses a quem não chegou ainda. 🙂

  9. Aposto numa mulher. Existe todo um esmero no aconchego daqueles cadáveres incompletos, bem como uma preocupação de harmonia, de minorar os inevitáveis “espaços em branco.”

  10. Este texto foi, evidentemente, escrito por um homem. Basta ler o primeiro período até para não se ter qualquer dúvida. É um texto claro, cortante, definido, agreste – tudo menos feminino.

  11. Estou quase a desmaiar com a angústia da espera.
    Afinal o livro foi parto de um homem ou não?
    Ana, já leu este artigo “O Sexo da Escrita”? Muito interessante de se ler, a meu ver.
    Deixo-lhe um excerto:

    “Como justificar que alguns homens
    escrevessem como mulheres? A resposta é
    simples: o sexo não é apenas biológico, mas também mental. Assim, um escritor como por exemplo Eugénio de Andrade, possui um cérebro feminino – o que ele, desde já, nega peremptoriamente, o que não deixa de ser tão curioso quanto sintomático. Era, portanto, necessário estabelecer uma diferença entre «sexo» e «género», concentrando-se as exegeses literárias neste último.”

    http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/o_sexo_da_escrita.htm

    Bjs 🙂

    1. Obrigada, Ana. Muito interessante o artigo, que não conhecia. A distinção entre sexo e género também me parece importante, até para não criar mais anticorpos (sobretudo masculinos) à ideia de que as barricadas não são assim tão distintas. Mas eu vou mais longe: não creio que tenha sequer de haver uma classificação única de género para cada escritor, porque acredito que quem escreve pode alternar no género e desdobrar-se consoante a história, o momento, o ambiente do texto. Ou seja, que pode transfigurar-se mudando de pele, voltando depois à sua pele natural (ou nem isso).

      1. Concordo, Ana: sobretudo hoje em dia, quando a diferença de papéis sociais já não é significativa, nem a cultura, nem a forma de pensar, não tem de haver classificação. Isto é, deixa de ser um exercício seguro, como se vê… E no entanto, o que dizer quando lemos George Sand? Mulher até aos ossos, sabemos nós. Mas assim descrita: Homme, par exemple, George Sand, de par son pouvoir dans l’ordre de l’esprit.Très vite, elle n’est plus comparée aux hommes mais rangée parmi eux. – Androgyne, Sand? Peut-être; mais, parce qu’elle a du génie, homme d’abord, homme essentiellement.
        …!

        1. George Sand é um caso emblemático, Laura. Desnorteou os seus contemporâneos por vestir-se, pensar e agir como um homem, e no entanto escrevia sobre românticos amores idealizados, de um ponto de vista francamente feminino. Restos de uma vocação mística frustrada, quem sabe.

          1. Idealizados? Nos romances, talvez, mas baseados numa experiência que deu que falar, bem concreta. Foram vários, de Chopin a Musset, os homens com quem teve longos affaires tórridos e nada místicos. Se há quem tenha tido a vida nas mãos foi ela. Vida privada e vida pública. E no entanto, mulher até aos ossos. Até acabou como ‘tendre grand-mère’!

          2. Bem sei, bem sei. Digo que é um bom exemplo exactamente por isso, porque o que escrevia contrastava em absoluto com a conduta que tinha na vida real. E no entanto usava pseudónimo de homem… curioso, não é?

        1. Não posso acreditar que foi até Setúbal e embarcou no ferry-boat? 🙂
          Estava-se bem na praia? Tenciono ir dia 10. Bjs

  12. «The gods were astounded to find that man has such an infinite capacity for evil, so many resources and agonies of pleasure and sin. At the bottom of the ossuary, in a swamp, Kali’s head bobbed like a water lily, and her long black hair rippled around it
    like floating roots. Piously, they picked up the lovely pale head and they set off to find the body that had borne it. A headless body was lying on the shore.
    They took it, placed Kali’s head upon those shoulders,
    and brought the goddess back to life. The body was that of a prostitute condemned to death
    for having sought to trouble the meditations of a young Brahmin.
    Drained of blood, the ashen corpse seemed pure.
    The goddess and the harlot had on the left thigh the same beauty spot.»

    Lendo em inglês, soa nitidamente a escrita feminina.
    Um conto muito cativante, Ana V.
    Parabéns pela escolha e que as Provas Cegas tenham uma muito longa vida.
    Amanhã cá estarei de olhos fitos.

  13. Duas provas cegas, dois testes positivos. Com as ‘certezas’ de pessoas como o Luís Lavoura a ficar pelo caminho…
    Estou a gostar cada vez mais desta tua série, Ana. Quando é a próxima?

      1. Não foi só o Luís Lavoura, eu estampei-me convencida de que o autor era um homem a fazer de mulher… Se por acaso a edição for a da D. Quixote o tradutor é homem, mas nem assim se me adoça a derrota. No teste do Guardian safei-me com Bom +, aqui estou com o ouvido pouco apurado. Snif. Mas se amanhã há mais, há esperança

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