Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, as escandaleiras para todos os gostos, as filas da segurança social, o galope do desemprego, o tédio de mais uma campanha eleitoral, as trapaças do costume, os gordos da Júlia, as tribais falácias e humilhações de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar de cinto… ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.
Os jacarandás floriram uma vez mais, exuberantes, talvez a lembrarem-nos de que ainda estamos vivos.


Obrigada por este post. Já estávamos a precisar de uma lufada de ar puro. São lindíssimos!
“Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta…”
Subscrevo inteiramente. Quem melhor para ser subjugado que um povo amedrontado e deprimido?
É isso mesmo, Fátima. Temos de reagir, de arregaçar mangas e seguir em frente, seja em que direcção for. E para isso precisamos de todas as forças e de todas as coisas boas que tivermos à mão. A beleza – e ainda mais a beleza gratuita – é uma arma poderosa contra a depressão.
Uma das minhas paixões… percorrer as ruas de Lisboa e olhar só para cima, que o chão, já se sabe, fica uma desgraça! Vê-los florir, muito floridos, com as várias luzes do dia a bater…
Todas as manhãs faço muitas ruas com jacarandás plantados… e agora até mudei o trajecto para poder ver os da Rua Castilho, que são tantos… mesmo assim, fico com saudades dos do Marquês, que agora só vejo no regresso a casa, muitas vezes já com as luzes dos candeeiros.
Acho os jacarandás românticos… Lá em casa há quem lhe chame sempre jacarandá-lilá!!! 🙂
beijo para ti
Outro para ti, S., e mais um para “lá em casa”. 🙂
Contrariemos a tendência, Ana, já não posso de tanta política, tanta desgraça, tanto miserabilismo. Há vida além de tudo isso.
Achei piada ao azul-Leonor 🙂
Beijinhos
Logo vi que ias gostar. 🙂
Bonitos, uma das arvores em que as flores nascem primeiro que as folhas, talvez, a demonstrar que há diversas direcções, e que as coisas não têm de ter sempre o mesmo rumo…
Boa malha, Alice. A natureza a dar-nos lições. Gostei.
Também não conhecia essa designação. 🙂
Uma vez perguntei a um amigo daltónico como via os jacarandás. Ele respondeu “num azul molhado”. Curioso, não é?
Curioso e poético, Leonor. Essa história lembrou-me a fantástica descrição do barulho do mar pela surda-muda do filme “Filhos de um deus menor”. Uma cena inesquecível.
A magia dos Jacarandás. Das Olaias em flor. Ou as folhas dos Lódãos-bastardos, espalhadas na calçada, no Outono. Elas estão sempre lá. À distância de um relance. Para nos lembrar, isso mesmo que disse, que estamos vivos. Obrigada por este seu texto em forma de árvore-de-Lisboa. 🙂
Um texto em forma de árvore é um grande elogio, Cristina. Eu é que agradeço. Um beijo