Palavras
às vezes há uma palavra que leva a outra palavra e esta a uma terceira e por aí fora até que a primeira já não faça nenhum sentido e não tenha qualquer relação com todas as outras que gerou. as palavras levam ideias e vontades e desejos de um lado para o outro ao sabor de ventos e marés porque as palavras são como o mar que não tem princípio nem fim apenas um vaivem cadenciado que nos embala nas suas sete ondas peregrinas em romaria até todas as praias. as palavras nascem como os cogumelos uns inofensivos e outros letais mas todos com o mesmo aspecto apetitoso que apetece trincar. as palavras têm vida própria e juntam-se e separam-se e reproduzem-se como e quando lhes apetece sem autorização de quem lhes abriu a porta sem saber que nunca mais teria uma palavra a dizer sobre o assunto. as palavras são caprichosas sim leves e divertidas umas vezes outras tristes e melancólicas outras graves e solenes outras de um peso tão grande que faz dobrar a espinha. as palavras são responsáveis por muitos equívocos e por muitos dramas mas também por muitos sorrisos e boas surpresas casaram e foram felizes para sempre e tiveram muitos meninos com os olhos da mãe e o sorriso do pai the end.
(Imagem: René Magritte – L’usage de la parole)


Por vezes as palavras
até respiram por guelras
ou pela pele…
Os bons textos são feitos de palavras que respiram sozinhas.
Este é mais um desses casos com que a Ana vai fazendo o favor de nos brindar.
Com muito gosto, Sérgio.
Palavra que gostei 🙂
Palavra que me comove que tenhas gostado.
E estas são palavras que muito nos encantam, nesta toada bossa nova. Apetece repeti-las, de olhos fechados, para melhor as saborear, tão redondas e suculentas.
Tem graça que digas isso, Leonor. Ouvindo bem, acho que também consigo sentir-lhes essa toada de bossa nova. Talvez porque é um ritmo que adoro. O resto é simpatia tua, obrigada.
🙂
Lindo. O texto, claro, e não tu, linda.
Simpático. Tu, claro, e não o texto, simpático.
Fizeste-me lembrar uma música da Menina Bethânia que eu agora não me lembro bem qual é… 😉
E tu, compreendeste as palavras que te mandei ontem?
😉
beijo
Não percebi nada, mas achei que faltava uma importantíssima…
😉
Este texto criou uma elipse e as palavras falaram alto, Ana.
E não começaram a rodar em órbitas estranhas, Fernanda? Às vezes acontece, elas é que mandam e são caprichosas.
Beijinho