Ceci n’est pas un post (9)


Ana Vidal,

 

 

L’important

 

L’important c’est la rose, cantava ele naquela voz que nos aveludava os dias, nos deixava as pernas a tremer e os olhos brilhantes. E cantávamos nós com ele, aveludados na premissa sagrada. Era tão fácil. A nossa vida era, toda ela, feita de rosas. Importantes, sim. O que podia haver mais importante do que os nossos magníficos, preciosos, deslumbrantes umbigos? Nesse tempo, o mundo real era a nossa imensa fantasia. Ainda as rosas não tinham espinhos. Ainda os espinhos não se tinham transformado em punhais. Ainda nós não éramos gente de carne e osso, mas apenas bolas de sabão planando no ar leve da manhã. Belas, coloridas, etéreas. E tão inconsistentes. L’important c’est la rose, dizíamos, com a inabalável convicção dos inconscientes. Sabíamos lá nós o que isso queria dizer. Não conhecíamos a rosa porque éramos nós a rosa, inebriada com o seu próprio perfume. Só muito mais tarde o descobrimos, quando já não havia rosa, nem espinhos, nem sequer punhais. Quando o Bécaud se calou em nós e nos emudeceu, entendemos finalmente: l’important c’est la rose. Crois moi.

 

(Imagem: René Magritte)

13 comentários em “Ceci n’est pas un post (9)”

      1. Todos os adjectivos que se me aplicam terminam em A. ( Quanto muito terminam em E ).

        Não há muito para perceber … Se calhar não há apenas 1 Jardineiro mas sim vários que não dão conta – exterminam-purgam – as pragas que tomam conta das Rosas …

        Ora, a Vida está cheia de mortes … Uma Rosa sem espinhos seria uma espécie de mutação genética … Mas haja o dia – dia em que eu viva ainda – para assistir à Vida sem Mortes!

        Ando a comer Laranjas bichadas … deve ser por isso que as frases não me saem Direitas …

        1. Não desanime, carA DPM: assim como há mais marés que marinheiros, também há mais rosas que jardineiros. Não sei se alguma vez chegará a assistir a uma vida sem mortes, mas enquanto comer laranjas bichadas ainda há esperança. O problema é se passar às laranjas mecânicas…

    1. Não sei se ele se sentia importante, João, mas sei que ERA importante. E é, e será sempre, com ou sem os meus exercícios pseudo-literários… mas gosto da ideia de que ele gostaria de lê-los. Obrigada.

  1. Há uns anos, numa audição de avaliação, a minha filha tocou uma «Lullaby» composta por um dos professores avaliadores, e este, no final, disse-lhe que era precisamente assim – com aquela técnica e aquela emoção – que ele queria ver interpretada a sua música. Eu acho, Ana, que o Magritte diria o mesmo (acrescentando-lhe a imaginação) das palavras que aqui escreve. Estou, por isso, inteiramente de acordo com o João. 🙂

  2. Eu sei, também lá estive, no tempo em que não sabíamos que “l’ important c’ est la rose”, embora o cantássemos entre sorrisos e leveza. Também fui “bola de sabão planando no ar”. Todos sabemos, pois.
    Mas eu lembro-me. Foi “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,/Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma” como nos ensinou o nosso poeta múltiplo.
    E se por vezes também sinto a “Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…”, noutros momentos abençoo esse tempo em que fui rosa e o cantei, em mágica claridade. E sigo caminho, feliz com o que fui resgatando dessa inocência.

    1. Tens tanta razão, Leonor! É essencial resgatar alguma dessa inocência para seguir viagem com alguma sabedoria. Cantada em mágica claridade ou nem tanto, às vezes, o importante continua a ser a rosa.
      (o teu comentário é um poema, amiga!)

  3. Uma bela meia dúzia de palavras a confirmar-me que os tempos que correm são os mais pragmáticos de que me recordo e, ainda assim, que a sublimação da pressão é possível e necessária. Esta canção poderia figurar no vosso tag canções do século.

    1. Também acho, João. Lembra-nos do que é realmente importante, para além da sobrevivência imediata que neste momento, infelizmente, nos absorve por completo o pensamento e as forças.

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