Seguindo a dica de uma amiga semi-italiana – e com saudades de bom cinema latino – fui ver “Uma família moderna” (Mine Vaganti no original), um filme italiano já quase a sair de cartaz. Apresentado como uma comédia de costumes, um dos géneros mais fortes do cinema italiano, fala afinal de coisas muito sérias: num primeiro olhar, da homossexualidade e suas duras provações numa sociedade fechada, preconceituosa e aparentemente imutável. Visto mais fundo, é sobretudo um filme que fala de prisões. E de fugas. Das prisões que outros nos impõem e de outras, de todas as piores, as que impomos a nós próprios. Das fugas apenas sonhadas, às vezes uma vida inteira, e da coragem que chega finalmente um dia para dar-lhes asas. Ou que nunca chega. E fala de segredos, muitos segredos. Tudo isto nos é servido através da infalível metáfora de uma familia tradicional (ou só aparentemente tradicional), onde cada membro assume a cruz ou a glória do seu papel em função dos outros e deles esconde as suas mais profundas frustrações. Há a eterna fórmula, muito latina, de um mundo de mulheres de força indestrutível, cúmplices nos segredos e nas dores, um mundo aparentemente matriarcal que, sem que se entenda porquê, obedece sem rebeldia a um único macho dominante. No filme há momentos hilariantes (embora alguns excessivamente caricaturais, que se dispensavam). Há segredos revelados e epifanias redentoras, mas há também a mensagem subtil de um círculo vicioso de velhas algemas que permanece, mesmo nas novas gerações. Tem um óptimo elenco de actores, e dá gosto – oh, senhores, como dá gosto! – ver tanta gente bonita por metro quadrado. É verdade que não consegue fugir à “maldição do cartão postal” de que sofrem todas histórias filmadas em Itália, mas como ignorar tanta beleza nas casas, nas ruas, nos rostos, por todo o lado? Enfim, gostei. E recomendo.
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Ofereceram-me um livro curiosíssimo. Chama-se “Notas de cozinha de Leonardo Da Vinci” (editora Temas da Actualidade) e revela uma das menos conhecidas facetas do génio renascentista: a de Mestre de Banquetes da corte de Ludovico Sforza. Tem receitas inimagináveis nos dias de hoje, como por exemplo “Testículos de carneiro com mel e nata”, “Cristas de galo panadas”, “Intestinos cozidos” ou “Pudim de mosquito branco”, além de uma infindável lista de truques e conselhos culinários. Revela também estranhas dúvidas existenciais do mestre, tais como “Tenho estado a pensar pegar num pedaço de pão e colocá-lo entre dois bocados de carne. Que designação devo, porém, dar a tal prato?”. Mas não se fica por aí. Destaco este delicioso parágrafo do capítulo “Os venenos na cozinha”: «Vou encontrar-me com o meu Amo Cesare e Mestre Macchiavelli para discutir os meus conhecimentos acerca dos venenos, que são insignificantes. (…) No entanto, há certas coisas sobre as quais não me restam dúvidas. A eescolha do veneno depende do efeito que se pretende obter sobre a vítima. Assim, este veneno particular provoca espirros, estoutro comichões, aquele saltos e convulsões, aqueloutro ainda a morte total. Quem se está a iniciar nas artes de envenenador não deve confundir os diversos venenos disponíveis. Deve aprender que a estricnina provoca torcicolos e terrores; que as bagas castanhas e pretas da letal erva-moira fazem revirar os olhos e levam ao delírio; que o acónito (tão amiúde confundido com as raízes da cocleária) dá origem a formigueiros e vómitos, que a cicuta é um veneno que conduz à morte total. Um bom veneno deve ser sempre administrado no início da refeição, porque actua mais rapidamente quando o estômago está vazio e porque, utilizado nestas condições, é vantajoso para o envenenador que não necessita senão de uma pequena medida do seu recurso, e para o hospedeiro que não gostará de ver o prosseguimento dos folguedos organizados para os comensais perturbado pela agonia da vítima.» Aqui fica a dica. Quem sabe se será útil a alguém.
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E deixo-vos com uma das preciosas máximas do meu amigo Woody Allen (era mais meu amigo quando fazia filmes a sério, mas enfim…): “To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore to love is to suffer, not to love is to suffer. To suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy then is to suffer. But suffering makes one unhappy. Therefore, to be unhappy one must love, or love to suffer, or suffer from too much happiness. I hope you’re getting this down.” Simples, não?
Boa semana para todos.


I got this up.
Além do mais, não fazia a mínima ideia de que o acónito pode confundir-se com as raízes da cocleária.
É para que saibas. Cuidado a usá-los, hein? Não queremos que estragues a festa ao hospedeiro.
A publicidade a esse livro é autêntico serviço público, Ana. Parabéns. Assim como a informação sobre esse filme italiano. Tem muita gente bonita? Pois, é italiano e não se pode perder. Já com a citação do Woody estragaste tudo. É demasiado angustiante 🙂
Mea culpa, tens razão quanto ao Woody. Já nos bastam as desgraças que por aí andam, não é? Angústias já temos nósde sobra, é verdade.
Só agora pude ler estes teus excelentes apontamentos, Ana. Gostei muito das pistas que aqui deixas e das reflexões que nos suscitas.
Espero que seja o início de uma nova série que desde já me conquistou.
Obrigada, Pedro. O domingo é um dia de coisas soltas, óptimo para “pingos”. Não prometo ter sempre assunto, mas sempre que tiver apareço.
Excelente, Ana, o que suponho que seja uma nova rubrica para animar os nossos recolhidos e melancólicos Domingos. Fiquei muito interessada nesse livro sobre receitas e venenos (Leonardo Da Vinci era, segundo creio, um sujeito que aprofundava exaustivamente as questões) e vou já oferecer-mo antes que o Natal o esgote. 😀
P.S.: Sobre o pensamento e a perplexidade de Woody Allen… sinto que já ultrapassei a fase. ;-)))))
Mulher sábia, Luísa! ;-D
O Domingo de hoje não pode ser mais melancólico e triste, com este tempo deprimente… veremos se vos consigo animar.