
Fénix
No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinha ateado, ainda inconsciente da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos a quererem transpor com ela a porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia. Lavou das narinas os cheiros familiares, expulsou dos olhos as imagens coloridas de arcos-íris passados, sacudiu das mãos o velho ímpeto de arrumar uma vez mais o caos, de repor a ordem, como sempre fizera. Não aplacou os demónios que bailavam por todo o lado, enfim vitoriosos, seguros do seu poder. Por uma vez, deu-lhes tudo o que exigiam. Fechou a porta atrás de si e atirou a chave para longe. Lá dentro, por detrás da madeira triste, uma vida acorrentada. Não levou nada, não queria nada. De seu, só uma indómita e urgente vontade de partir. Tudo o resto ficou para trás, e nunca mais lhe fez falta.
(Imagem: René Magritte)

Nos dias que passam, ainda és tu que vais valendo.
Já não valho muito bem nem sequer a mim própria, João… decidi entregar-me alegremente à loucura. Uma benção.
Por vezes, deixa de ser uma vontade e passa a ser uma necessidade, aí tem mesmo de ser.
É verdade, e é quase sempre nessa altura que as decisões são tomadas. O que é pena, porque tudo custa mais assim.
Adorei e subscrevo, Ana. Longe com a chave, há muito caminho a trilhar.
Há sempre, Leonor. E o caminho faz-se ao andar, como dizia – e muito bem – António Machado. Uma máxima que me guia na vida há muito tempo.
Gostei muito, Ana.
Obrigada, Teresa.
🙂
Não quero acreditar na viabilidade de um renascimento tão drástico, sob pena de a minha actual realidade não fazer sentido nenhum e ser um desperdício. Mas a ideia é apelativa, muito por culpa do encanto com que nos é aqui dita.
(Ana, faz já algum tempo que sigo os teus escritos no Delito, pois hoje, à boleia desta ideia que materializaste em palavras, decidi que vou deixar-me de tretas e começar a comentar, afinal um blogue é para isso mesmo)
Olá João, não fazia ideia de que me lias aqui! Gosto de saber-te por cá, sobretudo comentando. Um blogue é para isso mesmo, tens razão.
Quanto ao texto, não é para ser levado à letra necessariamente. Ainda para mais quando a realidade que se tem – como a tua, felizmente – é ainda mais apelativa do que a ideia de deixar tudo para trás e recomeçar. Lê-o como um mero exercício literário, inspirado num quadro.
🙂
Um texto belíssimo em que a personagem se escolhe a si própria. Mesmo sabendo como vai sangrar e que o vazio pode ser, inicialmente, extremamente venenoso.
Nenhum veneno é tão perigoso como o que se toma repetidamente, não é? Mas às vezes não é uma questão de escolha, Leonor, é de mera sobrevivência.
Que bom é começar o dia a ler coisas assim…………..obrigado Ana
Isabel Cardim
Obrigada, Isabel.
Volte sempre, esta casa também é sua!
😉
Essa sua série parte tudo. Simplesmente brutal. Continue.
Obrigada, Henrique. Vai continuar, sim.