Ceci n’est pas un post (7)


Ana Vidal,

 

Fénix

 

No dia em que tudo ruiu, fez-se à estrada. Não olhou para trás. Não procurou entre as cinzas, soterrados nos escombros de uma vida, sonhos desfeitos que ainda pudessem respirar. Não socorreu memórias sobreviventes, deixou-as asfixiar no fumo que sobrou da grande fogueira que tinha ateado, ainda inconsciente da catástrofe que se avizinhava. Passou por cima de gestos e de palavras, pisou sorrisos agonizantes com os pés nus, já calçados para a viagem. Escorraçou todas as lembranças que teimavam em agarrar-se-lhe à pele e afugentou fantasmas, velhos conhecidos a quererem transpor com ela a porta de entrada. Ou de saída. Só de saída, nesse dia. Lavou das narinas os cheiros familiares, expulsou dos olhos as imagens coloridas de arcos-íris passados, sacudiu das mãos o velho ímpeto de arrumar uma vez mais o caos, de repor a ordem, como sempre fizera. Não aplacou os demónios que bailavam por todo o lado, enfim vitoriosos, seguros do seu poder. Por uma vez, deu-lhes tudo o que exigiam. Fechou a porta atrás de si e atirou a chave para longe. Lá dentro, por detrás da madeira triste, uma vida acorrentada. Não levou nada, não queria nada. De seu, só uma indómita e urgente vontade de partir. Tudo o resto ficou para trás, e nunca mais lhe fez falta.

 

(Imagem: René Magritte)

16 comentários em “Ceci n’est pas un post (7)”

  1. Não quero acreditar na viabilidade de um renascimento tão drástico, sob pena de a minha actual realidade não fazer sentido nenhum e ser um desperdício. Mas a ideia é apelativa, muito por culpa do encanto com que nos é aqui dita.
    (Ana, faz já algum tempo que sigo os teus escritos no Delito, pois hoje, à boleia desta ideia que materializaste em palavras, decidi que vou deixar-me de tretas e começar a comentar, afinal um blogue é para isso mesmo)

    1. Olá João, não fazia ideia de que me lias aqui! Gosto de saber-te por cá, sobretudo comentando. Um blogue é para isso mesmo, tens razão.
      Quanto ao texto, não é para ser levado à letra necessariamente. Ainda para mais quando a realidade que se tem – como a tua, felizmente – é ainda mais apelativa do que a ideia de deixar tudo para trás e recomeçar. Lê-o como um mero exercício literário, inspirado num quadro.
      🙂

  2. Um texto belíssimo em que a personagem se escolhe a si própria. Mesmo sabendo como vai sangrar e que o vazio pode ser, inicialmente, extremamente venenoso.

    1. Nenhum veneno é tão perigoso como o que se toma repetidamente, não é? Mas às vezes não é uma questão de escolha, Leonor, é de mera sobrevivência.

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