Metades
Sou como tu, Sophia: metade de mim é maresia. E até na outra, a que devia contrapôr ao sal e à espuma a terra firme, há rastos de algas e um canto de sereia. Há pedras roladas por infindáveis marés. Fazem sentir-me, em vez de terra, areia. Essa metade minha é ao revés. Metade de mim voa, é ventania. A outra, só ecoa. Procura a luz, talvez, essa metade inquieta. A outra… vegeta. Mas é a mais rasteira, essa metade que me prende ao chão, a que me faz matéria verdadeira. A que me liga ao mundo, a que tem sombra e fundo. A outra não. A outra, só me assombra. Sou como tu, Sophia: metade de mim é pura fantasia. A outra? A outra é alquimia.
(Imagem: René Magritte, La Magie Noire)


E da inspirada Ana Vidal voltaram a ” jorrar ” estas encantadoras palavras que num jogo intenso nos recordam também Sophie.
É justo tirar o chapéu á AV por tão belo texto e agradecer-lhe estes pequenos minutos que nos levaram para lá da realidade.
Sem esquecer ainda o enquadramento certo, das palavras com o traço e cor do René Magritte.
Eu é que agradeço tão generosas palavras, CR. Gosto de saber que a levei para lá da realidade, ainda que por breves momentos.
🙂
E ainda bem que é assim, Ana. De outro modo não teríamos, nem escreverias assim.
Continua, sff.
Obrigada, Sérgio. Acho que vou ficando cada vez mais maresia, embora ainda sinta os pés…
“não te teríamos”, assim é que está correcto.
Há muito que eu acho que és outro motivo para amar Portugal.
Esse é provavelmente o maior elogio que alguém já me fez, sabes? Até porque gosto muito de ser portuguesa, apesar dos pesares. Obrigada!
Eu vinha para aqui toda lampeira falar do post, mas depois do João Carvalho…. fiquei sem recursos :):)
Ah, deixe lá, Chloé. O João é um hiperbólico.
🙂
Hiperbólico é a tua tia, pá!
LOL
Já tinha saudades tuas, das tuas escritas, do teu Magritte e da Sophia… claro!!!
Beijinhos
E eu das tuas, S. Quando voltas a escrever?
Bjs
Quem sabe um destes dias… por alturas de outra maternidade… 😉 Faltam-me o tempo e a melancolia, para o fazer… Já lá vão dois anos… agora dedico-me a outras histórias e rimas. 😉 Mas quem sabe não falte muito!
beijos