Ceci n’est pas un post (5)


Ana Vidal,

 

Metades

 

Sou como tu, Sophia: metade de mim é maresia. E até na outra, a que devia contrapôr ao sal e à espuma a terra firme, há rastos de algas e um canto de sereia. Há pedras roladas por infindáveis marés. Fazem sentir-me, em vez de terra, areia. Essa metade minha é ao revés. Metade de mim voa, é ventania. A outra, só ecoa. Procura a luz, talvez, essa metade inquieta. A outra… vegeta. Mas é a mais rasteira, essa metade que me prende ao chão, a que me faz matéria verdadeira. A que me liga ao mundo, a que tem sombra e fundo. A outra não. A outra, só me assombra. Sou como tu, Sophia: metade de mim é pura fantasia. A outra? A outra é alquimia.

 

(Imagem: René Magritte, La Magie Noire)

14 comentários em “Ceci n’est pas un post (5)”

  1. E da inspirada Ana Vidal voltaram a ” jorrar ” estas encantadoras palavras que num jogo intenso nos recordam também Sophie.
    É justo tirar o chapéu á AV por tão belo texto e agradecer-lhe estes pequenos minutos que nos levaram para lá da realidade.
    Sem esquecer ainda o enquadramento certo, das palavras com o traço e cor do René Magritte.

      1. Quem sabe um destes dias… por alturas de outra maternidade… 😉 Faltam-me o tempo e a melancolia, para o fazer… Já lá vão dois anos… agora dedico-me a outras histórias e rimas. 😉 Mas quem sabe não falte muito!

        beijos

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