E das trevas renasceu a vida


Sérgio de Almeida Correia,

Quando em 27 de Agosto escrevi este pequeno texto, fi-lo com a fé de que há coisas que não podem ter um final triste. Dentro e fora do Chile, por todo o lado, milhões acompanharam a odisseia que resgatou os 33 mineiros e deixou meio-mundo comovido. E o caso não foi para menos.

Mas aquilo que desde o princípio me marcou foi ver e sentir a força daquela gente, dos responsáveis políticos aos familiares daqueles que a terra sequestrara. Desde o primeiro momento que todos eles acreditaram e foram capazes de mover o céu e a terra em prol de um único objectivo: derrotar a adversidade e resgatar com vida aqueles homens. Setenta dias depois mineiros e socorristas estão sãos e salvos.

Não sei se todos repararam na força que a solidariedade teve entre os que se empenharam nessa magnífica jornada. Logo no primeiro minuto,  todos eles quiseram vincar a sua condição de chilenos, o apreço que tinham pelos seus homens e pela sua nação. Quiseram demonstrar esse sentimento e exaltar a força que os movia, não esquecendo o apoio dos que de outras nações chegaram para os auxiliarem.

Quando vi as imagens da Fénix 2, orgulhosamente pintada com as cores da bandeira do Chile, pensei para comigo que uma imagem dessas seria impossível em Portugal. Logo alguém viria dizer que seria “piroso” pintar a cápsula com as cores nacionais. Só que independentemente do resultado final, para o bem e para o mal, toda aquela gente assumiu a sua condição de chilenos. Qualquer que fosse o resultado eles estavam unidos e iriam dar o seu melhor.

Os mineiros chilenos, e o boliviano que com eles esteve durante todo o tempo, já nos tinham dado uma lição de esperança, de fé e de vida. Os chilenos deram-nos agora uma lição de unidade, de luta, de capacidade mobilizadora e de congregação de esforços em torno de um objectivo que a todos interessava e com o qual todos se identificavam. Uma verdadeira lição de trabalho e de solidariedade nacional que esqueceu antagonismos pessoais e políticos.

No momento de crise que Portugal atravessa seria bom que pudéssemos aproveitar alguma coisa dessa notável lição que nos chegou da árida região do Atacama. Das entranhas da terra, num deserto seco e agreste, brotou a luz, chegou a esperança, o exemplo, enfim, a vida.    

5 comentários em “E das trevas renasceu a vida”

  1. Ontem o Mário Crespo falava no Big brother que era estar a assistir em directo á chegada destes mineiros, vindos das entranhas da terra…
    é verdade somos mesmo muito preconceituosos.
    Qual big bother ? e a emoção, e o esforço enorme de tanta gente, para os trazer á superfície?
    Não me interessa que esteja a ver um big brother (somos mesmo pequenos, temos vergonha de ver, olhar, sentir, vivemos dependentes do que os outros acham).
    Não me interessa ver como está vestida a mulher, ou os filhos dos mineiros.
    Interessa-me e comove-me ver as lágrimas escorrer pelas faces das mães, mulheres, filhos e imaginar a alegria dos verem voltar da morte.
    Façam lá esse exercício de julgar o vosso pai, marido ou irmão, morto e vê-lo dois meses depois ” voltar ” das trevas?
    Que choque intenso não seria…e porque não podemos partilhar as alegrias e emoções de outros? a vida não roda á nossa volta…
    Nada do que venha depois dessa ” reentrada ” na vida, pode apagar esses momentos, nada!
    Bom texto.

      1. “…Hoy, este día fue una copa plena,
        hoy, este día fue la inmensa ola,
        hoy, fue toda la tierra….”

        um excerto do que escreveu um outro chileno,um poeta de Temuco…

  2. Foi uma aventura humana espantosa e comovente, mas francamente não vejo em que possa comparar-se ao big brother. A fotografia que escolheste é igualmente espantosa, Sérgio. Lembrou-me de imediato o momento em que uma criança nasce… em esforço, húmida, descomposta. E tens razão: devíamos tirar deste episódio uma lição de união e de solidariedade. Saberemos fazê-lo? Duvido, se começamos logo a chamar voyeurismo à emoção de assistir às imagens de um resgate que vai ficar para a história.

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