Árvores poetas


Ana Vidal,

E porque a Poesia partilha com a Natureza este dia 21 de Março, apresento-vos estas “árvores poetas” na sua misteriosa coreografia. Crescem na floresta de Gryfino, Polónia. O fenómeno já foi estudado, mas ninguém ainda descobriu o que causa esta estranha curvatura.

 

Poesia


Ana Vidal,

O caminho para Ítaca

Se partires um dia rumo a Ítaca
faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posídon te intimidem!
No teu caminho jamais os encontrarás
se altivo for teu pensamento
se subtil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar.
Nem lestrigões, nem ciclopes
nem o bravio Posídon hás-de ver
se tu mesmo não os levares dentro da alma
se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais com que prazer, com que alegria
tu hás-de entrar pela primeira vez num porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
e perfumes sensuais de toda espécie
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egipto peregrinas
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor será muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te punhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu.

Se a achas pobre
tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Konstandinos Kavafis (tradução de José Paulo Paz)

 

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

(Jorge Luís Borges, Arte Poética)

Contos ínfimos (11)


Ana Vidal,

FEITIÇO

 

Era uma vez um príncipe tão feio e tão triste, que foram precisos muitos séculos até que uma rã especialmente generosa o beijasse. Liberto enfim do terrível feitiço da realeza, voltou à sua verde e reluzente condição de sapo, casou com ela e foram felizes para sempre no sapal mais próximo.

Serviço Público – Consultas gratuitas de clínica geral


Ana Vidal,

Pela grande utilidade e interesse público, divulgo aqui na íntegra esta comunicação da União Humanitária dos Doentes com Cancro a quem possa interessar. No site encontrará todos os contactos e informações suplementares.

 

Consultas gratuitas de clínica geral

 

A União Humanitária dos Doentes com Cancro presta consultas de clínica geral gratuitas e abertas a toda a população, todas as quartas-feiras, no Núcleo de Apoio ao Doente Oncológico, em Lisboa.

 

Conscientes de que o êxito desta valência depende unicamente da sua divulgação, de modo a que todos os doentes tenham conhecimento e assim oportunidade de beneficiar deste apoio, face aos nossos escassos meios (pois todos os apoios que a União presta são inteiramente gratuitos), vimos pelo presente apelar à sua solidariedade e desde já muito agradecer:

. A divulgação desta notícia por todas as pessoas do seu conhecimento, familiares e amigos.

. O reenvio deste e-mail para todos os seus contactos pessoais, com o objectivo de que, mediante uma grande rede de solidariedade na Internet, esta notícia chegue ao conhecimento de toda a população.

 

Para um completo conhecimento da União Humanitária dos Doentes com Cancro, muito agradecemos a visita ao nosso site, em www.doentescomcancro.org / http://www.doentescomcancro.org/, um site completo e interactivo, com toda a informação sobre os apoios gratuitos a doentes com cancro e seus familiares, o cancro, a legislação, o tabagismo e as últimas notícias de âmbito oncológico.

 

O cancro, pela sua dimensão – a segunda causa de morte no nosso país e a primeira no grupo etário entre os 35 e os 64 anos – é uma doença e uma problemática que a todos diz respeito e que só poderá ser vencido com a mobilização de toda a sociedade. Colabore com a União nesta nobre causa.

 

Gratos pela sua solidariedade

 

Luís Filipe Soares

Presidente da Direcção

Tel.: 213940302

Ainda Amina Filali


Ana Vidal,

Ainda sobre o revoltante caso de Amina Filali, que é o mesmo que dizer, sobre o revoltante caso das mulheres árabes: uma lei que “castiga” um violador obrigando-o a casar com a sua vítima, não o castiga: premeia-o. Castigada é a vítima, uma vez mais. Muitas vezes mais, melhor dizendo, já que passa a ser legitimada e “abençoada” a agressão. Perpetuar esta monstruosidade é a suprema humilhação. É o mesmo que dizer a uma mulher que nunca mais serviria para ninguém a não ser para o seu carrasco, e só porque ele é obrigado a isso. É o mesmo que dizer-lhe que é uma sorte que ele se disponha a oficializar a violência. Se qualquer mulher muçulmana já pouco vale, uma vítima de violação vale zero no “mercado” dos casamentos. Que alternativa restava àquela rapariga depois da vergonha pública, não só para ela como para toda a sua família? O ostracismo de qualquer outro homem, a total impossibilidade de refazer a vida com um mínimo de dignidade e de normalidade, valha o conceito o que valer. O peso da culpa de estar a mais, de ser uma chaga aberta na reinante hipocrisia das relações entre sexos. Ou a capitulação, deixando-se diluir no estranho submundo feminino que habita o fundo das casas árabes, que suspira por detrás dos altos muros brancos e se desgasta em lutas de poder tão indignas como estéreis. Aos desasseis anos, Amina Filali apenas escolheu o mal menor. A única libertação possível. Enquanto não mudar esta lógica da inquestionável superioridade dos homens perante o baixo valor das mulheres, a tão festejada “primavera árabe” não passará de um triste simulacro de mudança.

Representar


Ana Vidal,

Esta foi uma semana de emoções fortes para quem, como eu, vibra com uma boa representação no Teatro ou no Cinema. Três mulheres de personalidade forte, três excelentes actrizes, três difíceis papéis. Tudo isto me foi dado saborear em poucos dias e me encheu a alma.

 

 

Sobre Meryl Streep e a sua inesquecível Margaret Thatcher, já quase tudo foi dito. Não tenho muito a acrescentar, a não ser a minha eterna reverência perante aquele grau de perfeição na arte de representar. Ou melhor, aquilo já não é representar. Aquilo é desabitar-se até ao âmago, mudar de pele como se fosse uma coisa natural, diluir-se num outro ser até que ele se torne vida e sangue e respiração e essência. Há outros actores tão bons como ela? Talvez alguns, os dedos de uma mão. Mas não creio que haja um único que a ultrapasse.

 

 

Seguiu-se a prata da casa: Maria do Céu Guerra. Prata, não: ouro. Ouro puro em cima de um palco, sem artifícios nem qualquer distracção que nos faça tirar os olhos e os ouvidos dela, abismados pela força daquela mulher. Um monólogo à medida de uma grande actriz: a rainha D. Maria I e a sua loucura delirante, instável, confinada à exiguidade de um barco, numa viagem feita de tormentas de toda a ordem a caminho da sepultura em solo desconhecido. Um belo texto do brasileiro Antônio Cunha, desfiando dois reinados e uma das épocas mais atribuladas da nossa História. Fixei uma frase, das muitas que a rainha louca nos serviu: “A loucura não é uma porta que se fecha, são muitas janelas que se abrem. O pior é que se abrem todas ao mesmo tempo”. Enfim, uma peça que se pode ver ainda n’A Barraca, mas já só às quartas-feiras. Vale a pena.

 

 

Por fim, atraída pela memória de Mathilde em “La femme d’à côté” (quem poderá esquecer a magnífica Fanny Ardant nesse papel?) corri a vê-la e a ouvi-la ao vivo na pele de Joana d’Arc, numa passagem fugaz – só dois espectáculos, ontem e hoje – pela Gulbenkian. Continua elegante e sensual, com uma capacidade de interpretação invulgar, bem expressa nesta Oratória de Arthur Honegger em que era a principal narradora. Mas afinal as suspresas vieram de onde eu menos esperava: a beleza do auditório, aberto por uma parede de vidro e com os jardins iluminados em fundo de palco; a originalidade da peça musical, que eu não conhecia e de que gostei imenso; a qualidade do Coro da Gulbenkian, irrepreensível numa actuação muito exigente; o verdadeiro bailado que a maestrina autraliana Simone Yang executa enquanto conduz. Tudo isto me encantou, mas… por muito que eu admire Fanny Ardant e tenha sido emocionante vê-la em palco, não acho que a escolha para encarnar a adolescente mártir tenha sido a melhor: a personagem exigia uma voz fresca e inocente que os 62 anos da actriz, embora magníficos, há muito trocaram por uma vida bem vivida.

Os delirantes mails que eu recebo (1)


Ana Vidal,

Oi, tudo bom? Tudo jóia, garota! 

Sabia que em 2010, um dos maiores “PRODUTORES” de MILIONÁRIOS Mundial foi o BRASIL? Sabia não, mas eu sou muito inguinorante. Aqui só tamo produzindo pobre, viu?

Mais de 62 pessoas se TORNAM MILIONÁRIAS a cada novo dia em nosso País! Puxa, que barato! (quero dizer, que caro!) Eu quero mesmo é ir morar aí!

Existem mais de 8 milhões de MILIONÁRIOS pelo Mundo. A maioria nos Estados Unidos e Europa, quer descobrir SEUS SEGREDOS? Magina… quero sim, quirida! Como não?

 

Revelamos Os Segredos dos Milionários! Não Importa Onde Trabalha Ou Quanto Dinheiro Tem Hoje. Descubra como mais de 170 mil Brasileiros Coquistaram seu primeiro milhão! Vamo abreviar, vamo? Quero saber já do segundo milhão…

 

*** Garantia: Se em 10 Meses não melhorar de vida seguindo todos os caminhos do livro, devolveremos o DOBRO do valor investido nele!!! Cês são gente boa mesmo, pô!

 

UM DOS LIVROS MAIS VENDIDOS NA INTERNET

Emitimos Nota Fiscal Eletrônica. Muito legal, mas não carece. Nóis é tudo amigo, fica assim mesmo.

 

Sucesso,

Milena

Pô, Milena, cê caíu do céu…

Mais (des)acordo


Ana Vidal,

Em várias e competentes instâncias, o AO foi criticado, desautorizado enquanto documento técnico-científico, considerado inepto e nefasto. Em sua defesa, porém, o mais que pudemos ler foram artigos em jornais, refugiados nas questões genéricas das supostas vantagens de um acordo, sem responderem aos argumentos dos críticos. É fácil perceber que a impermeabilidade à crítica e a imunidade do AO estavam garantidas pelo facto de se tratar de um instrumento político para servir a estratégia ideológica da lusofonia.

Vale a pena ler todo o artigo de António Guerreiro (link no parágrafo acima), uma análise lúcida e desapaixonada sobre o Acordo Ortográfico do nosso descontentamento. Só uma coisa me intriga: com uma tão interessante e bem articulada argumentação contra a utilidade e a bondade do AO, porque será que o colunista do Expresso não usa, como tantos outros, a prerrogativa que tem de escrever com a grafia pré-acordo?

Não há coincidências (17)


Ana Vidal,

Ode to Joy (Hino à Alegria), último movimento da Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven, é possivelmente o mais célebre de todos os temas da música dita “clássica”. Tão célebre e tão representativo da excelência alcançada pelo génio humano, que, no arranjo do igualmente aclamado maestro Herbert von Karajan, foi incluído no disco de ouro de Carl Sagan enviado para o espaço na Voyager II, juntamente com outras informações consideradas essenciais sobre a humanidade, na esperança de uma possível comunicação com alguma forma de inteligência alienígena.

 

O Hino à Alegria tem um papel cultural de extrema relevância no mundo actual, já que se tornou no hino da União Europeia. Outra prova da sua importância foi o valor de 3,3 milhões de dólares atingido pela venda de um dos seus manuscritos originais, em 2003, pela Sotheby’s de Londres. Com Hamlet e Rei Lear, de Shakespeare, a obra foi considerada um dos maiores feitos artísticos de todos os tempos.

 

Não é portanto de admirar que o tema continue a servir de inspiração a muitos outros temas musicais. É o caso destas três canções que hoje aqui apresento: Road to Joy, de Conor Oberst/Bright Eyes (ironicamente parecida até no título), Mr. Brightside, de The Killers e Himno a la alegria, de Miguel Rios. Nos dois primeiros casos não houve qualquer referência a essa preciosa fonte de inspiração, talvez porque as semelhanças não são tão evidentes para ouvidos mais desatentos. Mas está lá a matriz, em ritmo e sequência, como poderá comprovar nos videos abaixo. Fica mal aos músicos não o terem reconhecido publicamente, até porque toda a obra de Beethoven era há muito do domínio público e não havia qualquer lugar a pagamento de direitos. No terceiro caso, seria verdadeiramente escandaloso não referir nos créditos o mestre: a melodia está lá toda, e também o título. 

 

Road to Joy – Bright Eyes (2005)


A canção faz parte do álbum I’m Wide Awake, It’s Morning, de 2005, e abre com uma interpolação (a introdução de uma frase ou sequência musical, alheia ao resto da melodia, entre duas sequências lógicas) da melodia do Hino à Alegria, e depois segue em tom de marcha épica até ao epílogo, tão intenso que num dos espectáculos em que foi tocada Oberst e o trompetista Nate Walcott destruiram os instrumentos em palco, num gesto que contradiz absolutamente o espírito pacífico da melodia original. “It’s best to choose the side that’s gonna win”, um dos versos da letra, parece resumir a escolha segura desta “inspiração” musical. A verdade é que a canção se transformou num ícone da banda e encerra quase todas as suas actuações ao vivo.

 

Mr. Brightside (2004) – The Killers (> 2.58′)

 

Mr. Brightside foi considerada a “canção da década” por duas rádios inglesas. Em Abril de 2010 a Last.fm revelou ter sido o tema mais ouvido até essa data desde o lançamento do serviço de música online, com quase 8 milhões de acessos no Youtube. Esteve 71 semanas no Top 100 do Reino Unido.  Os autores creditados são Brandon Flowers e Dave Keuning. Beethoven? Não consta.

 

Himno a la alegria (1970) – Miguel Rios

 

Gravada em 1969 pela primeira vez, Himno a la Alegria foi o maior êxito da carreira do espanhol Miguel Rios. É uma adaptação do tema de Beethoven (e reconhecida como tal nos créditos da gravação) feita pelo argentino Waldo de los Ríos, conhecido pelas suas versões pop de grandes obras clássicas. Surgiu em plena era do rock sinfónico e o sucesso foi tal que acabou por ser gravado também em inglês por Miguel Rios, com o título lógico A Song of Joy. O disco vendeu 7 milhões de cópias em todo o mundo e chegou ao primeiro lugar nos tops de muitos países.

 

 

Ode to Joy – Ludwig Van Beethoven

 

Receita instantânea: souflé de ego


Ana Vidal,

Para um souflé de ego instantâneo e apetitoso, aqui fica uma receita simples: almoce num restaurante conhecido com uma figura pública do sexo oposto, de preferência bem parecida. Junte um bom vinho, uma pitada de conversa pouco audível, sorrisos qb e uma cumplicidade evidente. Misture bem todos os ingredientes. De súbito, você terá a inveja de metade da humanidade presente e um renovado interesse por parte da outra metade. A receita é garantida, não há como sair mal. Mas atenção: como todos os souflés, é frágil e tem uma duração limitada. Quando você chegar a casa será a mesma pessoa de sempre.

Cadáver esquisito (3)


Ana Vidal,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N

3 

OLHOS

 

Ca…… Sarkis G……..n. Que coisa estranha, pensou José Augusto quando João Cosme lhe espetou o livro em frente do nariz, com ar pomposo e sem mais explicações.

– Diga-me lá que nome pode ser este, professor. Se não formos nós os dois, duvido muito que alguém decifre o mistério, aqui neste fim de mundo.

Olhou a velha capa escalavrada, a assinatura semi-ilegível e depois a expressão intrigada do seu interlocutor, que mantinha a pose de cumplicidade intelectual sem se dar conta de que era tão ignorante como todos os que desprezava. O nome parecia-lhe óbvio: Calouste Sarkis Gulbenkian, o arménio-maravilha que em época de tormenta europeia se encantara com a placidez de Portugal, a ponto de eleger o país como seu herdeiro universal. O “senhor cinco por cento”, ele mesmo, em assinatura manuscrita. O enigma não estava no nome, mas na presença do livro naquela casa. O professor sabia, por dolorosa experiência própria, que aquele bando de iletrados jamais se interessara por literatura. Mas não podia dizer isso ao seu anfitrião, por isso se limitou a olhá-lo e a dizer, maquinalmente:

– Este livro pertenceu a Calouste Gulbenkian e está assinado por ele. Hum… 1942, confere. Não há mistério nenhum. E agora tenho de ir, se me dá licença. Os meus alunos esperam-me.

Com a pressa não viu, ao sair, a expressão profundamente alterada do outro.

 

Vivelinda abafou uma gargalhada trocista ao lembrar-se da exigência do “patrãozinho João”, como lhe chamava às vezes só para o provocar. Afinal tinha-o quase visto nascer, conhecia-o por dentro e por fora. Depois do horrível incêndio d’Os Freixos, fora com ele para a casa dos padrinhos naquela malfadada noite. Ela sabia todos os segredos da família, e não eram poucos. Nem leves. João não sabia, por exemplo, até que ponto ela conhecia bem a cama em que ele dormia agora, muito antes de ele se ter deitado nela pela primeira vez. Mas não se importava com a sua actual situação. Era assim mesmo que tinha de ser. Vivelinda, a analfabeta, nascera no exacto momento em que as chamas tinham devorado Valeriya Sarkis Kaprelian, a célebre pintora exilada. Agora era D. Linda, criada para todo o serviço. Todo mesmo, pensou, com um sorriso irónico. Üsküdar era pouco mais do que uma longínqua memória de tempos dourados.

 

Eduardo escondeu as mãos nos bolsos, envergonhado e inquieto, ao aperceber-se de que tinha ainda terra preta debaixo das unhas. A terra d’Os Freixos, maldita e hipnótica, que lhe consumia as noites de vigília em cada “expedição” com João Cosme. A peregrinação era certa sempre que se acendia o sinal nas ruínas da torre, mas o que iam lá fazer nenhum dos dois sabia ao certo. Escavavam, simplesmente, guiados por aquela voz que os assustava, em busca de um passado glorioso e trágico que teimava em esconder-se deles. De vez em quando eram recompensados com um ou outro objecto, que geralmente lhes trazia mais perguntas do que respostas. Não tinha sido o caso da véspera, tinham voltado uma vez mais de mãos a abanar. Quem sabia, calava. A madrinha de João, por exemplo. Uma velha enigmática, tão estranha como as roupas que vestia. E D. Linda, a empregada com porte de rainha… ah, essa sabia muito mais do que dizia, tinha a certeza! Tudo naquela casa era uma teia de mentiras, mas ele viciara-se no jogo e agora era já tarde para escapar. O seu próprio passado o empurrara um dia para ali, onde o esperava a busca desesperada por um passado alheio. Ou era o seu, afinal? Já não sabia nada, a não ser que os seus olhos mudavam de cor quando a noite caía, e que só naquela terra perdida no mapa encontraria a explicação desse fenómeno. Também João Cosme já fora cego e a partir daquela estranha noite passara a ver. Decididamente, alguma coisa os unia. E havia ainda Stella, a bela Stella. A bifa, como era conhecida na aldeia.

 

(Este é o terceiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do António Manuel Venda.)

Não há coincidências (16)


Ana Vidal,

Na história da música ligeira, dificilmente uma canção terá levantado tanta polémica e acusações de plágio quanto Viva La Vida, da famosa banda inglesa Coldplay. A canção foi a estrela maior do quarto álbum da banda, Viva la Vida or Death and All His Friends, gravado entre 2006 e 2009 e considerado um turning point da banda depois dos três primeiros álbuns que, segundo o vocalista Chris Martin, podem ser considerados como uma trilogia. O longo tempo de gestação do álbum ficou a dever-se a várias interrupções e pausas de gravação, entre as quais uma tournée pela América Latina no início de 2007, com espectáculos ao vivo no Chile, Argentina, Brasil e México. A canção Viva La Vida contém referências históricas e religiosas (influências hispânicas que a banda atribui a essa passagem pela América Latina e por Espanha), e foi apresentada no episódio “Million Dollar Maybe” da série Os Simpsons. Lançada em 12 de junho de 2008 (foi o segundo single do álbum), teve desde logo um assinalável sucesso crítico e comercial, atingindo o topo da UK Singles Chart e da Billboard Hot 100 e tornando-se o primeiro single da banda a atingir o primeiro lugar no Reino Unido e nos Estados Unidos. A canção venceu o prémio de Canção do Ano no 51º Grammy Awards em 2009. É a sexta canção com mais downloads digitais pagos, atingindo a marca de 4 milhões. O álbum vendeu 300.000 cópias em três dias.

 

Viva La Vida – Coldplay (2008)

 

Mas o estado de graça de Viva La Vida em breve se desvaneceu. A primeira acusação de plágio, objecto de uma acção em tribunal, partiu de uma banda americana pouco conhecida chamada Creaky Boards, que reclamava para si a autoria da música. Ironicamente, a canção dos Creaky Boards tinha o nome de The Songs I Didn’t Write. Andrew Hoepfner, o vocalista, alegou que Chris Martin tinha ouvido a música num show ao vivo em Nova Iorque, em Outubro de 2007. A banda chegou a lançar na net um vídeo-clip no qual compara secções de ambas as canções. Os Coldplay negaram acusação, através do porta voz da banda, Murray Chambers, que afirmou categoricamente que Chris Martin estava a trabalhar no AIR Studios, em Londres, na data alegada. Afirmou ainda que uma versão demo de Viva la Vida tinha sido gravada em Março de 2007, meses antes da actuação dos Creaky Boards. Conscientes de que seria uma luta em tribunal de David contra Golias, os Creaky Boards acabaram por retirar a acusação, beneficiando da publicidade que o assunto gerou. Como saída airosa, sugeriram que ambas as canções poderiam ter sido inspiradas pelo videogame The Legend of Zelda.


The Songs I Didn’t Write (2007)- Creaky Boards 

 

Mas a sombra do plágio não estava afastada para Viva La Vida. Em Dezembro de 2008, arrumado o assunto com os Creaky Boards, foi o guitarrista Joe Satriani quem requereu para si a autoria da música com uma ação de processo de violação de direitos autoriais contra os Coldplay, em Los Angeles. O processo alegava que a canção incorpora “substanciais partes originais” da faixa instrumental If I Could Fly, do seu álbum de 2004 Is There Love in Space?. Uma vez mais a banda negou vigorosamente a acusação, alegando que as semelhanças eram “mera coincidência”. Em 14 de Setembro de 2009, o caso foi julgado pelo California Central District Court, acabando num acordo extra-judicial entre as partes.

 

If I could fly – Joe Satriani (2004)

 

O pesadelo não tinha ainda acabado. Em Maio de 2009, Yusuf Islam (aka Cat Stevens) declarou que Viva La Vida era muito semelhante à sua canção Foreigner Suite, uma longa composição com a duração de 18 minutos incluída no álbum homónimo de 1973. Nas próprias palavras de Cat Stevens  “Foi o meu filho quem me chamou a atenção para o facto, perguntando-me se eu não achava que a melodia soava como Foreigner Suite. E eu achei que ele tinha razão“. O músico chegou a ponderar seguir os passos de Satriani, mas a sua habitual bonomia acabou por concluir, após mais uma categórica negação dos Coldplay, que a colagem não tinha sido intencional. “Eles copiaram a minha música, mas não acho que eles tenham feito isso de propósito” disse mais tarde, acrescentando “Eu não quero que eles pensem que eu estou zangado. Gostava de sentar-me e tomar com eles uma xícara de chá, para que eles saibam que está tudo bem.”

 

Foreigner Suite – Cat Stevens (1973)


E com este happy ending acaba a negra saga de Viva La Vida, pelo menos até ao momento. Os Coldplay, no entanto, nunca mais se livraram da fama de plagiadores. Até porque houve outros episódios semelhantes na história da sua discografia, como é o caso da muito aclamada canção Fix You, escrita por Chris Martin para o seu terceiro álbum X&Y, de 2005. Fix You é, nas palavras do seu criador (?), “provavelmente a canção mais importante que já escrevi.” Chris Martin afirma ter-se inspirado num órgão de igreja. Como não era possível ter acesso ao instrumento, utilizou um teclado velho que era do falecido Bruce Paltrow (pai de Gwyneth Paltrow, mulher do músico). Quando inquirido sobre o desenvolvimento da música, Martin disse: “O meu sogro Bruce Paltrow comprou um teclado grande, pouco antes de morrer. Ninguém nunca havia tocado nele. Toquei-o e tinha um som incrível, que eu nunca tinha ouvido antes. Todas estas canções derivaram desse som. O facto de ser o teclado do meu sogro, inspirou-me ainda mais.” Depois do seu lançamento, o vídeo foi dado como uma homenagem às vítimas dos atentados de 7 de julho de 2005, em Londres.

Fix You já foi também considerada uma “cópia” do hino da banda inglesa de rock alternativo Elbow, Grace Under Pressure, de 2003. Pessoalmente, não lhe discubro semelhanças relevantes com a melodia em questão. Mas o mesmo não se aplica a Imagine, o imortal êxito de John Lennon que está claramente explícito como pano de fundo da canção, como pode comprovar no último vídeo de hoje, aqui em baixo.

Fix You (Coldplay – 2005) / Imagine (John Lennon – 1971)

Silêncio


Ana Vidal,

 

Cada vez preciso mais de silêncio. Sem darmos por isso viciámo-nos em ruído e agora temos medo do que não tem som, porque essa ausência nos tira a ilusão de companhia.

Leituras


Ana Vidal,

“Para que a sofística seja realmente interessante tem de supor-se, claro, que seja exposta a mentes realmente inteligentes e resista ao exame de pessoas realmente perspicazes. Não há nenhum mérito em demonstrar algo absurdo a um tolo. Os grandes sofistas são portanto os que não só demonstram o “indemonstrável”, mas o fazem de tal modo que a refutação poderá ser impossível excepto desviando-se da linha de argumentação ou expondo os factos de outro modo, o que, claro, não é, de modo algum, uma refutação, mas uma contra-demonstração, o que é bastante diferente.”

 

Fernando Pessoa, in A Demonstração do Indemonstrável

Não há coincidências (15) – 2ª série


Ana Vidal,

A partir de hoje, aos Domingos volto a armar-me em detective musical, de lupa no ouvido, para dar-lhe conta de plágios, batotas, “inspirações” e estranhas coincidências musicais. E começo com uma descoberta recente, um tanto decepcionante por envolver dois músicos de quem gosto muito e respeito: Eric Clapton e Mark Knopfler. Mais do que decepcionante, foi uma descoberta que me deixou boquiaberta. É que não acredito que tenha sido eu a única pessoa no mundo a ver o gato escondido, tão de fora deixou ele o rabo, mas a verdade é que não encontrei nada sobre o assunto nas pesquisas que fiz. Enfim, pensando bem, também eu já ouvi estas duas melodias tantas e tantas vezes e só agora se fez luz…

 

Em 1986, Eric Clapton apresentava pela primeira vez no Festival de Jazz de Montreux a canção Holy Mother, que viria a incluir nesse mesmo ano no álbum August, um estrondoso êxito de vendas cuja produção esteve a cargo de Tom Dowd e Phil Collins. Este último participou também como vocalista e percussionista, a sua maior especialidade. No booklet do álbum, os créditos da canção estão bem explícitos: Stephen Bishop/Clapton. É um tema tocante, uma prece sofrida de alguém que se sente perdido e pede a protecção divina. Tendo em conta a própria história de vida de Eric Clapton, a letra da canção impressiona e comove ainda mais. Como quase todas as canções de August, Holy Mother foi um sucesso e ficou na discografia de Eric Clapton como um tema-chave repetido em inúmeros concertos, inclusive com Luciano Pavarotti nos celebérrimos “Pavarotti and Friends”. Aqui, ao vivo em Londres, 1996:

 

 

Em 1987, Mark Knopfler foi convidado a compor uma banda sonora original para o filme The Princess Bride, um conto de fadas romântico/cómico com argumento de William Goldman. Segundo o realizador do filme, Rob Reiner, entregou a tarefa a Mark Knopfler porque só ele seria capaz de entender profundamente o espírito da história e criar uma banda sonora que lhe fizesse inteira justiça. E tinha razão, porque o filme foi um sucesso e ficou a devê-lo, em boa parte, ao fundo musical. De tal forma que o tema principal, Storybook Love, esteve nomeado nesse ano para o óscar da Academia na categoria de “melhor canção original”. No filme, a canção é interpretada por Willy DeVille, que aparece creditado como co-autor, juntamente com Knopfler. Pode ouvi-la aqui em baixo (em versão instrumental), a partir do 1.05′. Vai perceber, espero, porque fiquei tão espantada ao ouvi-la um destes dias como se fosse a primeira vez. Quando reconheci nela a bela melodia de Holy Mother, que Eric Clapton compôs apenas um ano antes da ultra-mediática banda sonora do seu amigo Mark Knopfler. Porque será ele que nunca se queixou da colagem flagrante, impossível de ter escapado ao apuradíssimo ouvido de músico? Por outro lado, será que Mark Knopfler alguma vez se apercebeu do que tinha feito? Se a resposta for “não”, o plágio foi involuntário. Mas custa muito a crer… e não deixa de sê-lo.

 

Entende agora porque me perturbou a descoberta? Pois bem, como golpe de misericórdia deixo-lhe outra ainda, que agrava a pena de Mark Knopfler ao acrescentar um segundo plágio à mesmíssima banda sonora. Ouça com atenção o início do video. Logo nos primeiros acordes de Once Upon a Time, não reconhece outra música, bem mais antiga? Ouça outra vez. A mim não escapou a semelhança, talvez porque Peer Gynt é uma das minhas peças musicais favoritas. Neste caso, só Edvard Grieg poderia ter-se queixado, mas já cá não estava para fazê-lo. Ouça aqui em baixo a maravilha que é Morning (Suite no 1, Op. 46: no 1, Prelude) e diga lá se não tenho razão.

Fome


Ana Vidal,

Numa mecânica passagem pelos canais de televisão à uma e meia da manhã, rejeito liminarmente todos os filmes e séries que me saem ao caminho e continuo, procurando nem eu sei bem o quê. Procurando nada, no fundo, apenas tentando fintar a noite com a paciência e a resignação dos insones crónicos. Detenho-me, hipnotizada, numa reportagem sobre a fome no reino dos eleitos: a América pujante e esplendorosa do presidente Obama. Nas estatísticas caem as máscaras e surgem números tão assustadores como surpreendentes. Dolorosamente, desfilam perante os meus olhos, como fracturas expostas, abrigos para indigentes, lixeiras habitadas, tendas imundas que são morada de família. E finalmente o golpe de misericórdia, desferido pela indescritível expressão de desistência nos olhos de uma menina de cinco ou seis anos. Entrevistada num abrigo comunitário para crianças, responde à pergunta “e tu, porque estás aqui?” com a lentidão dos que já nada esperam: “a minha mãe come ratos”. A jornalista estaca, sem ar nos pulmões. Eu morro por dentro, sabendo que nunca mais esquecerei a cena. Nunca mais. Nem o olhar, nem a frase, nem o fio de voz. Nesta hora sombria em que tudo parece mais negro, eis o que a luz de nenhuma manhã conseguirá apagar. Augusto Gil salta de um livro da minha infância para martelar-me o cérebro, impiedoso. Mas as crianças, Senhor?

 

Ah, não me venham falar de direitos adquiridos que eu ainda mato alguém.