1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N
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OLHOS
Ca…… Sarkis G……..n. Que coisa estranha, pensou José Augusto quando João Cosme lhe espetou o livro em frente do nariz, com ar pomposo e sem mais explicações.
– Diga-me lá que nome pode ser este, professor. Se não formos nós os dois, duvido muito que alguém decifre o mistério, aqui neste fim de mundo.
Olhou a velha capa escalavrada, a assinatura semi-ilegível e depois a expressão intrigada do seu interlocutor, que mantinha a pose de cumplicidade intelectual sem se dar conta de que era tão ignorante como todos os que desprezava. O nome parecia-lhe óbvio: Calouste Sarkis Gulbenkian, o arménio-maravilha que em época de tormenta europeia se encantara com a placidez de Portugal, a ponto de eleger o país como seu herdeiro universal. O “senhor cinco por cento”, ele mesmo, em assinatura manuscrita. O enigma não estava no nome, mas na presença do livro naquela casa. O professor sabia, por dolorosa experiência própria, que aquele bando de iletrados jamais se interessara por literatura. Mas não podia dizer isso ao seu anfitrião, por isso se limitou a olhá-lo e a dizer, maquinalmente:
– Este livro pertenceu a Calouste Gulbenkian e está assinado por ele. Hum… 1942, confere. Não há mistério nenhum. E agora tenho de ir, se me dá licença. Os meus alunos esperam-me.
Com a pressa não viu, ao sair, a expressão profundamente alterada do outro.
Vivelinda abafou uma gargalhada trocista ao lembrar-se da exigência do “patrãozinho João”, como lhe chamava às vezes só para o provocar. Afinal tinha-o quase visto nascer, conhecia-o por dentro e por fora. Depois do horrível incêndio d’Os Freixos, fora com ele para a casa dos padrinhos naquela malfadada noite. Ela sabia todos os segredos da família, e não eram poucos. Nem leves. João não sabia, por exemplo, até que ponto ela conhecia bem a cama em que ele dormia agora, muito antes de ele se ter deitado nela pela primeira vez. Mas não se importava com a sua actual situação. Era assim mesmo que tinha de ser. Vivelinda, a analfabeta, nascera no exacto momento em que as chamas tinham devorado Valeriya Sarkis Kaprelian, a célebre pintora exilada. Agora era D. Linda, criada para todo o serviço. Todo mesmo, pensou, com um sorriso irónico. Üsküdar era pouco mais do que uma longínqua memória de tempos dourados.
Eduardo escondeu as mãos nos bolsos, envergonhado e inquieto, ao aperceber-se de que tinha ainda terra preta debaixo das unhas. A terra d’Os Freixos, maldita e hipnótica, que lhe consumia as noites de vigília em cada “expedição” com João Cosme. A peregrinação era certa sempre que se acendia o sinal nas ruínas da torre, mas o que iam lá fazer nenhum dos dois sabia ao certo. Escavavam, simplesmente, guiados por aquela voz que os assustava, em busca de um passado glorioso e trágico que teimava em esconder-se deles. De vez em quando eram recompensados com um ou outro objecto, que geralmente lhes trazia mais perguntas do que respostas. Não tinha sido o caso da véspera, tinham voltado uma vez mais de mãos a abanar. Quem sabia, calava. A madrinha de João, por exemplo. Uma velha enigmática, tão estranha como as roupas que vestia. E D. Linda, a empregada com porte de rainha… ah, essa sabia muito mais do que dizia, tinha a certeza! Tudo naquela casa era uma teia de mentiras, mas ele viciara-se no jogo e agora era já tarde para escapar. O seu próprio passado o empurrara um dia para ali, onde o esperava a busca desesperada por um passado alheio. Ou era o seu, afinal? Já não sabia nada, a não ser que os seus olhos mudavam de cor quando a noite caía, e que só naquela terra perdida no mapa encontraria a explicação desse fenómeno. Também João Cosme já fora cego e a partir daquela estranha noite passara a ver. Decididamente, alguma coisa os unia. E havia ainda Stella, a bela Stella. A bifa, como era conhecida na aldeia.
(Este é o terceiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do António Manuel Venda.)