Contos ínfimos (14)


Ana Vidal,

FACELIFE

 

Fez as malas e foi viver para o facebook. Encontrou mil novos amigos de infância, o amor virtual da sua vida, gente famosa para conviver tu-cá-tu-lá. Povoou quintas, cidades e castelos, deixou likes e smiles em timelines alheios, cuscou o que os amigos andavam a fazer. Partilhou músicas, poemas e citações, aderiu a eventos e causas, assinou petições, postou fotografias de poentes sobre o mar e lolou muito com piadas em inglês. Uma vida em grande, sempre em festa. Um dia, o telefone tocou. Surpreendida, levantou o auscultador, abriu a boca com esforço e tentou articular um “sim?”. Nada. Forçou as cordas vocais, uma e outra vez, mas não emitiram um único som. Tinha emudecido.

Uma Páscoa de esperança


Ana Vidal,

                      

 

Com flores de rodoendro cor de fogo
Anuncio aos sentidos
O milagre

Da ressurreição.
E o Cristo vivo, em que se transfigura
A mais vil criatura
Que atravessa a praça,
É como uma graça
A mais da primavera.
Ah, quem pudera
Todos os dias

Olhar o mundo assim, repovoado
De fraternidade,
Quente de um sol desabrochado
Em cada pétala da realidade!

(Miguel Torga)

Últimas Ceias #7


Ana Vidal,

Finalmente, a utilização simbólica da Última Ceia na divulgação de CAUSAS ou para promoção própria. É irresistível, convenhamos: a imagem de uma figura central, rodeada da elite que constitui a sua esfera de influência (real ou desejada) permite uma leitura tão directa quanto eficaz da mensagem, pessoal ou colectiva, que se quer transmitir. Eis alguns exemplos, bem significativos.

 

 

1. Na defesa dos direitos das mulheres, aqui numa interpretação dos criadores de moda Marithé e François Girbaud. A ironia é bem explícita: o único homem presente (colocado no mesmo lugar da figura no fresco de DaVinci cujo género tem gerado polémica) está de costas, numa posição de submissão e subalternidade.    

 

 

 

2. Na luta contra o consumismo e o desperdício alimentar. Desconheço a autoria da primeira imagem, a segunda é do fotógrafo David LaChapelle e faz parte de uma série denominada “Jesus is my Homeboy”. LaChapelle usou grupos multi-étnicos de jovens como modelos, oriundos das culturas rap e hip-hop e vestidos com roupas underground.

 

 

3. Na defesa e protecção dos animais, um cartaz para a Organização Internacional para a Protecção dos Animais. Repare-se no slogan (em cima, ao centro), que diz  “Um de vós vai trair-nos 150.000 vezes por ano”. Curiosamente, a única figura com feições humanas é a de Judas.
 

 

4. Gordon Ramsay, um dos mais famosos chefs da actualidade e estrela do programa de televisão Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno), rodeado de outros chefs ingleses cujo denominador comum é terem todos, pelo menos, uma estrela Michelin no curriculum. Sobre as suas cabeças, uma fatia voadora de queijo Brie. A fotografia foi feita para a revista Guardian.

 

 

5. Em 1985, o pintor Nate Giorgio assinou um contrato com Michael Jackson para pintar 50 quadros do cantor, que seriam usados para fins pessoais e comerciais. Esta Última Ceia, em que o Rei da Pop está rodeado de figuras célebres, está sobre a sua cama, em Neverland. (Os “apóstolos” são Abraham Lincoln, John. F. Kennedy, Thomas Edison, Albert Einstein, Walt Disney, Charlie Chaplin, Elvis Presley and Little Richard).

 


 

Não se escandalize quem vê nestas imagens, por vezes provocatórias, uma ofensa à sua fé. Se a Última Ceia – o encontro por excelência, fulcral na história da humanidade – não tivesse tanta força e tanto poder simbólico, passaria despercebida e ninguém quereria imitá-la ou apoderar-se dela. Tanto interesse só pode significar admiração, logo, elogio. Afinal, Jesus Cristo pode ser visto como o maior de todos os super-heróis do nosso imaginário. Tem todas as características que os fazem ser seres superiores – coragem, altruísmo extremo, disponibilidade total para os mais desprotegidos, despojamento pessoal, prática exclusiva do Bem – e ainda duas a mais, que fazem toda a diferença do mundo: a sua realidade (está historicamente provado que existiu) e, ao contrário dos heróis da ficção, a sua vulnerabilidade à dor física e até à morte, o que torna ainda muito mais admirável a sua história de vida.

Boa Páscoa a todos.

 

Últimas Ceias #5


Ana Vidal,

É sabido que a PUBLICIDADE (o tema deste post) se apodera dos ícones culturais e os vampiriza, capitalizando a força destes para fazer passar as suas mensagens, mais ou menos inócuas. A Última Ceia e o seu poderoso simbolismo, fortemente implantado na cultura ocidental e veículo privilegiado de emoções, não podia deixar de interessar a este universo de criadores de sonhos. Foi difícil escolher os exemplos de hoje, tal é a variedade de opções. Mas aqui ficam alguns.

 

 

 

Nestes dois primeiros, é o imaginário infantil o alvo preferencial. 1. Mickey Mouse (a primeira grande estrela da banda desenhada, da Disney) está rodeado de outros heróis e figuras bem conhecidas das crianças. E todos eles promovem subtilmente a cadeia McDonalds, cujo logótipo se eleva como um halo sobre a cabeça de Mickey. 2. Uma Última Ceia da Lego, com todos os pormenores.

 

 

 

Caminhando para o target seguinte, os adolescentes. 3. De novo as figurinhas-oferta da McDonaldland, aqui num cartaz anunciando um espectáculo dos Melvins. Lee Zeman foi o seu criador. 4. Personagens de video-jogos da Nintendo, tendo o famoso Super-Mário como figura central.

 

Já no mundo dos adultos. 5. Uma curiosa sobreposição do etrrno provocador Andy Warhol, usando a Última Ceia e duas marcas bem conhecidas: a Dove (note-se a alusão à pomba (dove) que representa o divino Espírito Santo para os cristãos; e a General Electric, a qual, não por mera coincidência, “ilumina o mundo” e tem como slogan We bring good things to life. 6/7. Como não podia deixar de ser, os mais sacralizados objectos de culto da actualidade, aqui num aproveitamento da omnipotente Apple, destacando acima de todos os outros os seus iphone e ipod.

 

Pópilas!


Ana Vidal,

 

Há coisas que, de tão vergonhosas, até o diabo foge delas. Pópilas! Vejam só o atrevimento! De há alguns dias a esta parte, o Word 2007 do meu computador, ferramenta que utilizo para escrever os meus textos, passou, automaticamente, a assinalar erros ortográficos em palavras que eu tinha a plena convicção de estarem correctamente escritas. Pensei até que a selecção para a configuração ortográfica do português de Portugal tivesse “emigrado” para o Brasil.

 

Nos dias de hoje, não me parece que seja através da força, com o uso de golpes baixos, que teremos de ser forçados a aceitar o novo acordo ortográfico de língua portuguesa. Aproveitar o facto de os PALOP não terem ainda um parque editorial à altura, para, automaticamente, nos forçarem a aceitar um acordo onde, para além dos erros e das situações duvidosas, são mais as excepções que as regras, é uma má opção estratégica, com consequências a curto, médio e longo prazo e com sérios prejuízos para a própria Língua Portuguesa.


O novo acordo, para ser validado e dignificado, terá de ser rectificado para não conviver com resistências de todo o tipo. Terá de entrar, em cada país, pela porta grande da frente e nunca, sorrateiramente, pela porta pequena dos fundos. Para tal, torna-se necessário que todos os países participem dele, para que todos os países se revejam no mesmo, já que a língua portuguesa é de todos os países membros, que compõem a CPLP.

 

(Um golpe dos “patrões” da Língua, artigo de Cândido Lince no Jornal de Angola)

Últimas Ceias #3


Ana Vidal,

Introdução: Porque tenho uma infinidade de “últimas ceias” e o tempo até à Páscoa já é curto, tive de escolher só algumas. Decidi dividi-las por temas. O de hoje é “A Última Ceia no CINEMA”.


Como o Zé Navarro de Andrade já referiu no primeiro post desta série, o magnífico fresco de Leonardo, sendo embora uma representação inicialmente cristã, deu início a um simbolismo que ultrapassaou há muito o domínio da religião. Cito-o: a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida. A mesa é um palco de emoções em que as defesas abrandam e os sentidos reinam, potenciando por isso, consoante o momento, cumplicidades e intrigas, tensões e bonomias, pactos e rupturas, enfim, amores e ódios. Não é por acaso que muitos negócios são feitos à mesa, como não é por acaso que as grandes decisões são normalmente precedidas ou seguidas de uma refeição especial, que as sela e comemora. Solenidade e ritual, dois elementos essenciais ao equilíbrio instável das relações humanas. E o cinema, seu espelho natural, não podia deixar de fora este potencial simbólico. O poderoso jogo de forças em volta de uma mesa é matéria irresistível para qualquer cineasta.

 

The Sopranos Last Supper (Annie Leibowitz)

 

A aclamadíssima Annie Leibowitz fotografou, em 1999, o elenco dos Sopranos em pose de Última Ceia, com Tony ocupando o lugar central e Livia, a pérfida matriarca, o de Judas. Os outros serão meros peões, ou mais do que isso? Observem-nos bem.

 

Star Wars Last Supper (Eric Deschamps)

Eric Deschamps pintou este quadro para a revista Giant, para celebrar a saga epico-futurista que encantou o mundo. Nas próprias palavras do pintor, “As personagens foram escolhidas pela Giant e tinham de ocupar determinados lugares, o que me dificultou a tarefa. Eu teria preferido Boba Fett como Judas em vez de Han Solo ou Chewbacca, e acabei por deixá-los numa posição mais dúbia, mais interpretativa. Tive de afastar-me um pouco das poses do original, para conseguir arrumar todas as personagens.”

 

Hollywood Last Super

 

Esta é uma das inúmeras “Hollywood Last Supper” que existem. Não conheço o autor, mas escolhi esta pela curiosidade da colocação de peças neste inesgotável puzzle: aqui é Marilyn Monroe que ocupa o lugar de Cristo, talvez por ter sido igualmente “sacrificada”, no seu caso à fama e à celebridade. Sabe-se lá porquê, é Clark Gable quem assume o indesejado lugar de Judas.

 

Mas há mais, e muito melhor, se passarmos das imagens ao video. Deixo-vos com três exemplos eloquentes de refeições decisivas no Cinema, tirados de três dos meus filmes de eleição: Brutti, Sporchi e Cattivi (Ettore Scola), Des Hommes et des Dieux (Xavier Beauvois) e American Beauty (Sam Mendes). Sigam os links. Vale a pena perder algum tempo a vê-los, garanto.

 

Adenda: Viridiana (Luis Buñuel), por sugestão do Pedro Correia. E mais dois de que me lembrei entretanto, para quem tiver tempo e paciência: Babette’s Feast (Gabriel Axel) e Festen (Thomas Vinterberg). Finalmente, uma pérola da comédia para aliviar: History of the World (Mel Brooks)

Os delirantes mails que eu recebo (3)


Ana Vidal,

Olá, Ana
Estás de férias na Páscoa? Não, Paulo, estou de férias sempre que me apetece. Que é o mesmo que dizer, sempre que não tenho trabalho. Mas o que tens tu a ver com isso, posso saber? Querem ver que tens um lugar para mim na administração da Caixa Geral de Depósitos??!!

Eu só consegui tirar a quinta-feira, dia 5, mas já não me queixo. Vou com a Rita para fora, no fim de semana e voltamos a tempo de almoçar Domingo de Páscoa com a família. A sério? Ah, coitada da Rita, quem se pode queixar é ela! Merecia Veneza, no mínimo, só por aturar um tipo que a leva “para fora” 24 horas e a traz a correr para almoçar com a famelga, achando que isso é um presente de luxo.

Estamos indecisos entre Tróia e Évora, depende do tempo, se tiver sol é Tróia de certeza. Ora, não matem a cabeça. Évora é para lá do sol posto. Quando tá sol, claro, mas para isso a Cova do Vapor também tem vistas magníficas e talvez até a família vos diga adeus da janela. Boa?

Não gastamos um tostão!!!, é verdade. Temos hotel, restaurante e até SPA à borla.  Já percebi, seu forreta!!

Descobri uma oferta num outlet de uma agência de turismo online. Como podemos escolher o sítio onde queremos ficar também não gastamos em gasolina. Ficamos a uma hora de viagem, mas já sabe bem para descansar e esquecer os problemas. Olha, também já decidi. Como não consigo esquecer os problemas a menos de dez horas de viagem, fico mesmo em casa. Assim fico aconchegadinha com eles à minha volta, a vermos todos O Quebra Nozes na paz do Senhor. E não gasto gasolina nem nada de nada… tudo à borla. Diz à Rita que venha ter comigo, se quiser fugir de ti e das amêndoas da sogra.

Abc
Paulo

Def

Ana

 

Nota – Este simpático mail do meu amigo Paulo (??) vinha ainda acompanhado das seguintes preciosas Dicas de Viagem:
Com o feriado de Páscoa sempre vem a dúvida do que levar, deixamos umas dicas para a hora de fazer sua mala: lave suas roupas no camino; saiba o que levar e o que não levar; esqueça os sapatos (máximo dois); vista os ítems pesados e não carregue-os; pese sua mala antes de ir pro aeroporto; não dobre suas roupas, enrole-as; deixe espaço para os suvenires; considere a possibilidade de chuva; lembre-se da bolsa de pano, fáceis de carregar; xales e echarpes podem substituir jaquetas; escolha uma mala macia e faça uma cópia das informações importantes. Boa Viagem!!! 

Língua


Ana Vidal,

 

Se algum dia o (des)acordo ortográfico for capaz de transformar o Tony Carreira em Caetano Veloso, pode contar comigo. Até lá, sou contra.

 

Gosto de sentir a minha língua roçar

A língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar

A criar confusões de prosódia

E uma profusão de paródias

Que encurtem dores

E furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa

da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E deixa os portugais morrerem à míngua

“Minha pátria é minha língua”

Fala, Mangueira!

Flor do Lácio, Sambódromo

Lusamérica, latim em pó

O que quer

O que pode

Esta língua?

Contos ínfimos (13)


Ana Vidal,

LIVE AND LET

 

Com o tempo, as bravatas foram dando lugar à acalmia. Praticante de muitos anos de um live and let die que aplicava a torto e a direito e lhe trouxera muitos dissabores, foi passando placidamente ao live and let live e por fim, já pacificado e feliz no conforto do seu promontório, rendeu-se ao leave and let live. Até que chegou a hora do seu próprio die and let live.

Surpresas


Ana Vidal,

 

Fui ontem ver “Amigos improváveis“, acabado de estrear nas salas portuguesas. Confesso que ia de pé atrás: a história, por ser verídica e delicada, poderia facilmente resvalar para moralismos e lamechices insuportáveis: a amizade entre um milionário francês tetraplégico e um senegalês delinquente, dois mundos aparentemente inconciliáveis e cheios de contrastes chocantes. Mas não há moralismos nem lamechices, pelo contrário: o filme está repassado de um humor tão política e socialmente incorrecto que percebemos depressa que seria impensável no cinema americano, tão preso a limitações e preconceitos desta ordem. Essa liberdade é  uma das razões por que gosto tanto do cinema europeu. O filme fala com descontracção e abertamente de alguns tabus relacionados com os deficientes, como o suicídio e o sexo.  E chorei, mas… a rir. Porque as únicas lágrimas possíveis são devidas a cenas hilariantes, como por exemplo o primeiro impacto de uma ópera (A Flauta Mágica, escolhida não por acaso) no homem da rua que só ouvia Earth Wind and Fire aos gritos.

 

Eric Toledano e Olivier Nakache, os quase desconhecidos realizadores, viram com espanto o seu filme ser um êxito estrondoso de bilheteira, tornando-se no segundo mais visto desde sempre em França. Além disso, o filme consagra definitivamente o actor Omar Sy, num papel tão notável que roubou ao premiadíssimo Jean Dujardin (O Artista) o César para Melhor Actor. O sucesso foi tanto que está já na calha uma versão americana, como não podia deixar de ser. Não tenciono vê-la, por todas as razões que já referi. Last but not the least, a belíssima banda sonora de Ludovico Einaudi.

 

Um filme terno, inteligente e com uma saudável loucura, que recomendo a todos nestes dias cinzentos.

Bom fim-de-semana!


Ana Vidal,

Um exemplo da nova (e excelente) música que se faz por cá. A letra lembrou-me aquela célebre frase do Dumas: “Há mulheres que gostam tanto dos maridos que, para não os gastarem, usam os maridos das outras.”

Strauss-Khan dixit?


Ana Vidal,

A notícia é da Lusa – imagine-se a importância – e o i, é claro, pegou-lhe de imediato. Compreende-se: vender jornais, nos tempos que correm, justifica (quase) tudo. E não é só isso. A Europa transformou-se numa fonte de dramas económicos sem graça nenhuma e há que manter, ao menos de vez em quando, a opera buffa em palco a bem da nossa sobrevivência mental. Mas enfim, já nos insultam tanto a inteligência com o dia-a-dia que escusavam de impingir-nos notícias idiotas deste calibre como se fossem sérias. Não só o “estudo” não tem pés nem cabeça, como até mete os ditos pelas mãos nas conclusões, porque afinal quem parece ficar a perder nos kamasutras são os moderados em relação aos extremistas de ambas as barricadas ideológicas, se é que elas ainda existem.

 

Ou então foi Mr. Strauss-Khan quem encomendou a sondagem, para manter em alta a sua preciosa fama de Casanova. O que também se compreende, já que as ambições políticas lhe sairam furadas por excesso de líbido.

Contos ínfimos (12)


Ana Vidal,

BATALHA NAVAL

Durante anos a fio ele foi um imponente porta-aviões. Poderoso, exibia-se pelos mares em que navegava, e eram muitos. Disparava a eito certeiros tiros de canhão, atirando-a mil vezes para um naufrágio triste de que só ela acreditava poder salvar-se.
Ela era tímida, doce, ingénua. Tudo o que queria era tocá-lo, mas, por mais que tentasse, o seu alvo era sempre e só a água. Não lhe aflorava sequer o convés.
Um dia, vá lá saber-se porquê, amotinou-se e afinou a pontaria. E quando tudo acabou, surpreendeu-se com o som da sua própria voz, com uma frieza que desconhecia ter: submarino ao fundo.

Não há coincidências (18)


Ana Vidal,
Trago-vos hoje um dos mais curiosos casos da história dos plágios musicais. Não só porque envolve um dos Beatles (possivelmente os mais amados ícones da música contemporânea) mas também porque se trata de uma das suas canções mais emblemáticas, My Sweet Lord. A canção faz parte do premiadíssimo All Things Must Pass, o primeiro álbum a solo de George Harrison após a inesperada e muito atribulada separação da banda. Composta ainda em 1969, com os Beatles ainda oficialmente juntos, foi oferecida por Harrison em 1970 a Billy Preston, tendo por essa razão sido este o primeiro a gravá-la. Mas a canção não deu nas vistas até ser o próprio George Harrison a gravá-la, acrescentando-lhe um solo de guitarra que ficou célebre e uma aura mística que a catapultou definitivamente para a fama. Ofuscado durante anos pelos mais mediáticos John Lennon e Paul McCartney, George Harrison lançou então grande parte do material que havia acumulado e iniciou a sua carreira solo de forma brilhante. All Things Must Pass é considerado por muitos como o melhor disco de um ex-beatle e um dos melhores discos da história da música ligeira.

My Sweet Lord (1970) – George Harrison

Mas este enorme sucesso ficaria manchado por uma contenda legal cheia de episódios controversos, que durou décadas. Pouco tempo depois do êxito surgiu nos tribunais uma acusação de plágio da canção He’s So Fine, composta por Ronnie Mack para The Chiffons. As semelhanças eram inegáveis, pelo que George Harrison, que inicialmente negou a acusação, acabou por admitir a hipótese de ter “inconscientemente” a melodia de He’s So Fine no ouvido quando compôs My Sweet Lord. Quanto às letras, não há qualquer proximidade: a canção dos Chiffons é uma brincadeira leve e romântica, enquanto a de Harrison tem um conteúdo sério e muito forte, e por isso se tornou rapidamente num hino à paz universal e num apelo à aproximação entre religiões. Mas a melodia, essa, é praticamente a mesma. O tribunal decidiu a favor dos queixosos em 1976, e só o solo de cordas de My Sweet Lord – ausente da canção original – permitiu a Harrison conservar um terço dos créditos (e das receitas) de My Sweet Lord. As discussões sobre os pagamentos pelos danos causados levaram o caso a arrastar-se nos tribunais até aos anos 90. A defesa de Harrison usou como arma de arremesso um outro suposto plágio, alegando que He’s So Fine era, por sua vez, uma reinterpretação do antigo e muito conhecido gospel Oh, Happy Day. Mas não teve sorte, e (embora haja de facto, na minha opinião, alguns pontos em comum entre as duas melodias) o tribunal não lhe deu razão. O processo trouxe também à luz da ribalta os desentendimentos entre os Beatles, tendo ficado para a história o depoimento de John Lennon, negando a não intencionalidade de George Harrison no plágio e afirmando que ele “sabia muito bem o que estava a fazer”.

He’s so fine (1963) – The Chiffons

 

A história não ficaria por aqui. Aproveitando ao máximo a onda de fama que My Sweet Lord e a guerra legal tinham gerado, os Chiffons decidiram gravar a sua própria versão da canção e conheceram, assim, um grau de notoriedade que nunca tinham atingido com a canção anterior. E, num curioso volte face desta autêntica novela, mais tarde foi George Harrison quem fechou o círculo, gravando He’s So Fine após ter comprado finalmente os direitos de ambas as canções. Quanto a My Sweet Lord, ganhou novo título quando o álbum foi remasterizado em CD: a nova versão passou a chamar-se “My Sweet Lord 2000”.

 

My sweet Lord – The Chiffons

Houve ainda outros episódios dignos de registo nesta autêntica novela: a traição ética de Allen Klein, ex-empresário dos Beatles, o qual – com a intenção óbvia de capitalizar os pagamentos dos danos que Harrison eventualmente teria que assumir – comprou, enquanto decorria o processo legal, a editora Bright Tune, dona dos direitos autorais de He’s so Fine, trocando assim de barricada e entrando na justiça contra Harrison. Mas acabou por perder esse processo, tendo o tribunal considerado que tinha havido conspiração e abuso por parte do empresário.

 

Nota: Para quem estiver interessado em saber todos os pormenores deste curioso caso, pode ler a história toda aqui.

Os delirantes mails que eu recebo (2)


Ana Vidal,

Saúde!

Привет, meu!

Somos procura de funcionários por trabalho adicional. O trabalho só ocupará 1 a 2 horas semana e não requer investimentos.

Boa. Fora o português macarrónico, a coisa parece interessante.

A essência do trabalho consiste atender pedidos entrantes sua cidade.

Pedidos entrantes?? Explica lá isso melhor, ó Dr. Jivago.

É trabalho fácil que você aprenderá em 10 minutos e depois fará para nossa companhia com regularidade.

Ah, pronto, então tudo bem! Desde que a vossa companhia não seja a KGB…

Por cada pedido atendido ganhará de 200 a 500 euros. A remuneração é imediata!

Eh, lá… remuneração imediata? Quer dizer que o pedido entrante traz logo o envelope com os rublos? Yess!

Se quer, poderá aumentar gradualmente número pedidos a atender.

Quero, pois! Vai ser um vê-se-te-avias, podes crer.

Infelizmente não garantimos emprego todos os voluntarios, por é recomendável fazer requerimento desde já. Isso lhe dará mais oportunidade ingressar nossa equipa.

Voluntários?? Mau… e os rublos? Ou achas que eu tenho cara de Madre Teresa de Calcutá, ó caramelo eslavo??

Indique no requerimento:
Seu nome completo:

Seu telefone:
Seu endereço electronico:
Cidade domicílio:

E não queres também o BI, a conta bancária, o número dos sapatos? Sei lá… é só dizeres.

O requerimento deverá ser enviado para nosso endereço electronico: ivanoff@justport.com
Resposta será enviada no decorrer dois dias úteis.

Ena! Mas que eficiência, amigo Ivanoff! Será que pertences à troika?

Respeitosamente,
Yuri Ivanoff


Então до свидания, e até ao primeiro pedido entrante.