Contos ínfimos (14)


Ana Vidal,

FACELIFE

 

Fez as malas e foi viver para o facebook. Encontrou mil novos amigos de infância, o amor virtual da sua vida, gente famosa para conviver tu-cá-tu-lá. Povoou quintas, cidades e castelos, deixou likes e smiles em timelines alheios, cuscou o que os amigos andavam a fazer. Partilhou músicas, poemas e citações, aderiu a eventos e causas, assinou petições, postou fotografias de poentes sobre o mar e lolou muito com piadas em inglês. Uma vida em grande, sempre em festa. Um dia, o telefone tocou. Surpreendida, levantou o auscultador, abriu a boca com esforço e tentou articular um “sim?”. Nada. Forçou as cordas vocais, uma e outra vez, mas não emitiram um único som. Tinha emudecido.

24 comentários em “Contos ínfimos (14)”

  1. Do mal o menos… podia ter engravidado virtualmente, ao abrir inadvertidamente um daqueles anúncios, na barra lateral, a uma sex-shop. E depois?! Se tal tivesse sucedido, não se colocaria a questão de saber se a paternidade seria atribuida ao dildo rôxo, se ao rosa-chock, ou ao azulão, mas sim, o problema de não existirem maternidades on-line…

    1. A personagem feceboquiana retratada é feminina? Não cheguei a perceber o sexo; deve ser da idade, sei lá.

  2. … e nem é necessário um mapa, um microscópio ou um telescópio para perceber, para ver…, tamanha é a simplicidade, a clareza com que desnuda a nossa vida, o nosso mundo ??
    E devemos aceitar esta realidade?
    Temos tantas batalhas para vencer … Obrigada!

    1. Ilda, o facebook não tem mal nenhum se usado em doses terapêuticas, e pode ser até um instrumento de trabalho muito útil. O problema é que pode viciar seriamente e fazer acreditar que substitui a vida real, e aí é que há que ter cuidado. Basta estar atento e… ir treinando as cordas vocais de vez em quando.
      🙂

  3. Cirúrgico, mas – atrevo-me a dizer – tão generalista!, que a carapuça cabe a toda a gente. Não fossem duas palavrinhas a mais (quiçá o problema é o sinal matemático invisível entre elas…; vou deixar a questão em aberto, até para mim), e cabia-me a mim também. Ufa por elas 🙂

    1. Mad, mas isto é mesmo para ser generalista! Os exemplos são mais do que muitos, não pensei em ninguém em particular. Mas agora fiquei curiosa… quais duas palavras, e qual sinal matemático? 🙂

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