Tragédias


Ana Vidal,

 

Parece incrível, mas a publicidade já foi assim. Mulheres penitentes, maridos magnânimos. Tragédias domésticas de proporções bíblicas, e… a salvação numa cerveja.

Contos (nem sempre assim tão) ínfimos (17)


Ana Vidal,

LONG SHOT

 

A mulher olhou o homem demoradamente. Escorria pelo sofá abaixo, descomposto, de comando na mão e olhos fixos no écran da televisão. “Se algum dia deixar de te amar, é porque morri”. Afirmara ele um dia, pomposo, ainda príncipe encantado. Quantos anos passados? Tantos, tantos. Não sabia porque se lembrara agora daquilo. Olhou-o de novo, quase condoída, mas não resistiu ao masoquismo do teste. Sentou-se ao lado dele e abriu o baile, com voz doce:

– Qual é a minha cor preferida?

– O quê? – nem a surpresa da pergunta o fez desviar os olhos da televisão.

– A minha cor preferida. Perguntei-te qual era.

– Hummm… branco?

– Não. Azul. E o meu prato preferido?

– Ah, deixa-te disso. Sei lá.

– Qual é o perfume que eu uso? – continuou, impiedosa.

– Mas o que é que tu queres com essas perguntas idiotas? – ele começava a impacientar-se.

– Nada de especial. Sabes qual é o nome do perfume ou não?

– Não me lembro.

– E qual é… –  a pergunta foi serrada ao meio por um grito dele.

– Mas tu deixas-me em paz com essas merdas?? Diz o que queres, de uma vez por todas. É dinheiro?

– Pronto, já acabei. Não te maço mais. E não, não quero dinheiro. Queria só ter a confirmação de uma suspeita.

– Qual suspeita?

– A de que vivo há anos sem fim com um morto.

Pingo Doce, amargos complexos


Ana Vidal,

Subscrevo em geral esta opinião do José Gomes André, salientando que “o timing das promoções foi oportunista e provocador”. Claro que foi. Um braço-de-ferro que a Jerónimo Martins ganhou aos sindicatos, em toda a linha. Podia ter feito esta promoção em qualquer outro feriado ou Domingo (desde que no final do mês, para garantir algum poder de compra), mas a escolha do 1º de Maio foi intencional e pouco limpa. Mas… what else is new, no mundo dos negócios? Assistimos a um combate de tubarões pelo controle das massas, e o povo, aparentemente, escolheu qual quer que seja his master’s voice. Vejo muita indignação com a forma como as pessoas “foram tratadas” e nada sobre a forma como as pessoas “se comportaram”. Ao contrário do que se diz por aí, não foram os famintos quem correu para as lojas do Pingo Doce. Foram aqueles que ainda podem dispor de mais de cem euros, de uma só vez, para gastar em compras de supermercado. E esse comportamento é recorrente nos consumidores de todos os países em que estas campanhas acontecem. Mas nós, portugueses, com a nossa habitual mania da auto-flagelação, achamos que somos os únicos a ser manipulados por sinistras forças que nos “obrigam” a reacções terceiro-mundistas, esquecendo que no terceiro mundo não há sequer pingos doces, só amargos.

 

Lembro-me de uma reportagem sobre uma campanha do género num centro comercial australiano, cuja data foi programada para o Natal. Houve gente de todo o país que viajou dias antes – e que por isso perdeu o Natal em família – e se instalou num hotel em frente do tal centro comercial só para estar “a postos” para apanhar a hora de abertura. O espectáculo do abrir de portas era impressionante, uma multidão que parecia correr para salvar a vida entre filas de polícias armados. O que pouparam nos saldos não deve ter chegado para cobrir os gastos de viagem e hotel. Outro caso falado ocorreu, creio que na Polónia, na abertura de um hipermercado que foi literalmente destruído em pouco tempo por uma multidão enfurecida, cega pelos preços mais baixos. E há muitos outros casos relatados, inclusivamente nos países ricos como a Alemanha ou a Inglaterra. O fenómeno não é novo e está estudado à exaustão, por isso é bem aproveitado pela sociedade de consumo que construímos. O terceiro mundo, esse sim, passa fome e não tem nem ideia do que são fraldas descartáveis, a não ser que lhe sejam dadas por uma qualquer ONG.

Parabéns, Miguel Portas


Ana Vidal,

 

Pelo dia de hoje, duplamente teu. Pela tua vida, que deste generosamente ao teu país. Pela tua morte, que teve o raro condão de conciliar velhas barricadas e, de algum modo, restaurar a nossa fé na seriedade da política. Por essa esperança, ofereço-te o meu dia de hoje. É um presente modestíssimo, comparado com tudo isto.

Frases


Ana Vidal,

“Adorávamo-nos para além de todas as diferenças. Mais: adorávamo-nos também por causa das nossas diferenças. Cada um de nós procurava no outro a sua parte de maior verdade.“

Paulo Portas sobre Miguel Portas, agora mesmo

Uma terra onde as flores crescem


Ana Vidal,

 

Proponho que se prenda a criatura numa cela pequena mas com muito boa acústica. Depois, que lhe instalem em sessões contínuas uma eterna banda sonora: a canção que quarenta mil pessoas lhe cantaram à porta do tribunal. Ele alega que não é louco? Pois bem, ficaria louco em pouco tempo, e da forma mais adequada. Talvez antes de enlouquecer conseguisse entender o que significa “uma terra onde as flores crescem”.

Lakraus


Ana Vidal,

“Ouvir um poeta é como ver um cozinheiro comer”, parece que dizia Kraus. Pelo menos é o que afirma este dono e senhor da “boa poesia”, seja lá isso o que for. Como já vi vários cozinheiros comer e isso nunca me chocou, não percebo muito bem o que significa o aforismo. Admito que os cozinheiros amigos de Kraus fossem menos civilizados do que os que conheço, e que o espectáculo não fosse agradável. Ainda assim, seria sempre preferível ao de um ressabiado a destilar ódios avulsos.

 

Hoje


Ana Vidal,

 

Não, hoje não é um dia feliz. É preciso ter alegria para celebrar a liberdade e o meu país está exangue, faminto, assustado, mergulhado num profundo estado de tristeza. Bem sei que só o facto de poder dizê-lo assim, em público e sem consequências, já é prova dessa liberdade. Mas esse privilégio sabe a pouco, quase quarenta anos depois. Ontem desapareceu um homem que sempre admirei pela inteligência, integridade e capacidade de entender as razões dos outros sem ódios. Um Homem superior. Há uma Mãe que dificilmente voltará a rir com aquela alegria contagiante que sempre lhe conheci. Há dias, ouvi de uma amiga que não via há muito tempo a mais arrepiante das frases, depois de ter tido uma péssima notícia sobre a sua saúde. Tem cinquenta e poucos anos e ficou desempregada, como tantos portugueses, depois de uma vida inteira de trabalho útil e contributivo. Perdeu há pouco tempo o marido para a mesma maldita doença que agora lhe dita uma sentença impiedosa, demorou três anos de um profundo sofrimento a conseguir que uma desumana junta médica se dignasse reconhecer-lhe a terrível incapacidade física que está bem patente nas suas mãos e articulações (sofre de artrite reumatóide, diagnosticada há anos, e era educadora de infância). Tudo isto para conseguir uma miserável reforma e uma pensão de viuvez ainda mais miserável. Vendeu tudo o que tinha para sobreviver e poder tratar-se. Mas tudo já se evaporou. Teve de dobrar a espinha, engolir o orgulho e recorrer à ajuda de outros para comer. Estava tão desesperada, que a notícia de um fim mais próximo do que se supunha lhe pareceu um alívio.

 

Este é só um caso entre muitos, muitos outros. Cada dia mais. Para onde caminhamos nós? Ouço os discursos de circunstância e não me dizem nada, absolutamente nada. Guerras partidárias, política gasta e cega. Não, hoje não é um dia feliz.

Para a Helena


Ana Vidal,

Do not stand at my grave and weep;
I am not there. I do not sleep.
I am a thousand winds that blow.
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain.
I am the gentle autumn rain.
When you awaken in the morning’s hush
I am the swift uplifting rush
Of quiet birds in circled flight.
I am the soft stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry;
I am not there. I did not die.

 

(Mary Elizabeth Frye)

 

Com um beijo muito especial.

Contos ínfimos (16)


Ana Vidal,

FELICIDADE I

 

“A felicidade que dura faz-se de pequenos nadas”, dizia o categórico cartaz, que exibia a imagem de um casal sorridente e de expressão ligeiramente apatetada. Que disparate, pensou. A felicidade faz-se de grandes tudos, o que duram é pouco.

Metáforas


Ana Vidal,

O surf dos pobrezinhos, ou a metáfora perfeita para o estado do país: “Temos aí cond’tores c’agente acena a eles e eles aceleram, entram no jogo da malta… mas eles agora ‘tão um ‘cadinho mais à rasca c’a crise, têm c’andar mais devagar…”

 

Razão tinha o Millôr


Ana Vidal,

DESACCORDO ORTHOGRAPHICO: a Base IV do AO90.

 

O problema desta Base devoradora de letras, como clamam alguns desacordistas, não é etimológico. ESTRUCTURA, AFLICTO, CONTRACTO, DICCIONÁRIO, etc. perderam o C pela Convenção Ortográfica de 45. Não se ouve ninguém hoje a protestar ou a clamar pela sua reposição (é pena, mas faz sentido que assim seja). O problema “técnico” da Base é grafémico, ou seja, releva da estrutura da ortografia enquanto sistema. Quando se suprime o C em ACTOR, DIRECTOR e NOCTURNO não se está a eliminar uma “consoante muda”, até porque não há consoantes mudas (há pessoas mudas) nem a ortografia tem consoantes (têm sim letras de eventual valor consonântico). Quando se suprime o C em ACTOR, DIRECTOR e NOCTURNO está-se a destruir 3 (TRÊS) unidades grafémicas duma penada: AC, EC e OC são grafemas (digramas ou dígrafos) que representam vogais que em posição inacentuada não sofrem as alterações próprias do português europeu. Mas o principal problema da Base IV é — e é isto que realmente preocupa Nossa Serenidade Orthographica — o facto de existir. É o mesmo problema de todas as XXI Bases do AO90: existem. Com todos os problemas que a ortografia portuguesa em vigor possa ter — e tem-nos de facto e muitos e muito graves — não se mexe numa ortografia estabilizada de sopetão sem se saber o que se está a fazer (e quem fez o AO90 mostrou plenamente que não sabia o que estava a fazer), sem consultas alargadas, sem debate e discussão públicos, sem estudos prévios públicos e publicados, sem argumentos de peso e sem, acima de tudo, se acautelar o interesse nacional, que, no caso vertente, não reside alhures, p. ex. em terras de África ou de Vera Cruz. A matriz greco-latina lexical da língua portuguesa há muito que foi desfigurada por decreto (e cá estamos escrevendo): é argumento que não vale um caracol na presente controvérsia e só serve para alimentar a imagem negativa que os acordistas gostam de dar a quem lhes faz frente.

 

Escreveu Millôr Fernandes sobre o AO90: «O Acordo Ortográfico é uma merda.» Chega. Não é preciso mais nada.

 

António Emiliano (aqui em versão mais extensa)

Elefantes e gambozinos


Ana Vidal,

Ir a Espanha por estes dias é quase como não sair da terrinha. Nos cafés, nas televisões, nos jornais, nas casas particulares, as conversas são exactamente as mesmas de cá: a crise, o drama do desemprego (lá é bastante mais elevado ainda), as consequências das medidas de austeridade extrema no estrangulamento da economia, a degradação do ensino e da saúde por causa dessa mesma austeridade, o despesismo e as ilusões dos governos socialistas que levaram ao descalabro, a insensibilidade social dos governos de direita, o aumento da insegurança nas ruas, a emigração a crescer, a esperança nas exportações, a caminhada a passos largos para um pedido de resgate à Europa (por uma vez chegámos primeiro, yupi), a perda de democracia, etc. etc. etc. Em que divergimos? Na dimensão dos faits divers com que o povo se entretém para disfarçar a fome e a frustração. Eles têm um rei que caça elefantes em África. Nós temos um presidente cuja reforma não chega nem para uma noite de gambozinos em Boliqueime.

Delito à mesa


Ana Vidal,

   Restaurante Mariana, Afife

 

Ao contrário do que talvez fosse de esperar, esta série começa com um restaurante tradicional, despretensioso e de preço acessível. O que faz dele, há décadas, um marco da gastronomia portuguesa não é a sofisticação do décor nem o entusiasmo por experimentalismos culinários, mas só o que é essencial num restaurante onde se queira voltar sem medo de decepções: a qualidade irrepreensível da cozinha, convencional e inalterável, e o atendimento simpático. Falo do restaurante Mariana, na praia de Afife, perto da belíssima cidade de Viana do Castelo. Não há luxos nem mordomias para além dessa simpatia, dos imaculados guardanapos e toalha de pano e da existência de talheres de peixe (tenho ficado pasmada com a ausência destes em restaurantes cuja especialidade é o peixe, e alguns bem conhecidos). Há a velha sala inicial, com mesas e bancos corridos de madeira clara, muito polida – a preferida dos portugueses, dizem-me – e depois a preferida dos espanhóis, a sala “nova”, com cadeiras estofadas e uma lareira de canto onde impera, festivo, um colorido palmito de Viana. Há ainda um bar, tendo a casa, ao todo, capacidade para 130 pessoas. Na parede da entrada, a receber orgulhosamente os clientes, uma fotografia de Zélia e Jorge Amado com os donos (Fernanda e Aires Felgueiras), entre troféus e críticas gastronómicos igualmente emoldurados. O escritor brasileiro era um fiel cliente da Mariana e ia lá sempre que estava em Portugal.

 

O couvert é composto de pão variado – destaque para uma broa de milho e centeio, de Carreço – e um prato com um queijinho curado, pastas de queijo e patés enlatados, sem história. Segue-se uma modesta mas saborosa sopa de legumes migados grosseiramente, com a particularidade agradável de ser servida em terrina na mesa, o que possibilita a cada um servir-se da dose que quiser. Mas o melhor da festa ainda está para vir. Entre outros pratos típicos (a ementa não é sumítica na variedade) sobressai o famoso robalo à moda da casa, ou seja, cozido em algas. Da mesma forma podem ser também servidos sargo ou pescada. No meu caso, escolhi sargo porque não havia ontem robalo, que vem habitualmente de Castelo de Neiva, ali mesmo ao lado, onde o mar alteroso e o luto pelo pescador desaparecido há poucos dias têm impedido os outros de se aventurarem mais longe. Foi uma boa escolha: o meu sargo estava fresquíssimo, a saber verdadeiramente a mar. Acompanhavam-no grelos e batatas, ambos cozidos, e uma dupla de molhos (maionaise caseira e “molho verde”, uma espécie de “molho à espanhola” mas sem colorau), tudo bem feito e no ponto. Arrisquei o vinho da casa, um verde branco bem fresquinho da região, e não me arrependi. Para sobremesa, escolhi outra delícia: um leite-creme servido em pires, caseiríssimo e queimado na hora, um dos melhores que já comi. Há outros doces caseiros na carta de sobremesas, dispensavelmente invadida pelos gelados e doces congelados do costume.

 

Notas importantes:

1. A parrilhada de peixe e camarão de Afife, o bacalhau à Mariana ou o cocq au vin são também especialidades da casa.

2. Se não for um Gulliver esfomeado peça meia dose, seja o que for que escolher. O restaurante dá essa possibilidade em quase todos os pratos, e ainda bem, porque mesmo essa quantidade pode ser suficiente para duas pessoas com um apetite médio. No norte do país, em geral, as doses servidas nos restaurantes tradicionais são um exagero.

3. Não espere luxos nem cerimónias. Pode acontecer, inclusive, que lhe passem um braço pela frente para retirar um prato.

4. O restaurante não se vê da estrada (fica atrás de uma capelinha de pedra, é preciso ir com atenção) e há que atravessar a linha de comboio para lá chegar.

5. O estacionamento é fácil.

6. O preço médio por refeição (meia dose), com vinho da casa e sobremesa, ronda os 20€.

7. Fecha à terças-feiras, excepto em Julho e Agosto.

 

Restaurante Mariana

Estrada Pedro Homem de Mello, 42

4900-012 Afife

Viana do Castelo

T: 258 981 327 – 964 042 524