Razão tinha o Millôr


Ana Vidal,

DESACCORDO ORTHOGRAPHICO: a Base IV do AO90.

 

O problema desta Base devoradora de letras, como clamam alguns desacordistas, não é etimológico. ESTRUCTURA, AFLICTO, CONTRACTO, DICCIONÁRIO, etc. perderam o C pela Convenção Ortográfica de 45. Não se ouve ninguém hoje a protestar ou a clamar pela sua reposição (é pena, mas faz sentido que assim seja). O problema “técnico” da Base é grafémico, ou seja, releva da estrutura da ortografia enquanto sistema. Quando se suprime o C em ACTOR, DIRECTOR e NOCTURNO não se está a eliminar uma “consoante muda”, até porque não há consoantes mudas (há pessoas mudas) nem a ortografia tem consoantes (têm sim letras de eventual valor consonântico). Quando se suprime o C em ACTOR, DIRECTOR e NOCTURNO está-se a destruir 3 (TRÊS) unidades grafémicas duma penada: AC, EC e OC são grafemas (digramas ou dígrafos) que representam vogais que em posição inacentuada não sofrem as alterações próprias do português europeu. Mas o principal problema da Base IV é — e é isto que realmente preocupa Nossa Serenidade Orthographica — o facto de existir. É o mesmo problema de todas as XXI Bases do AO90: existem. Com todos os problemas que a ortografia portuguesa em vigor possa ter — e tem-nos de facto e muitos e muito graves — não se mexe numa ortografia estabilizada de sopetão sem se saber o que se está a fazer (e quem fez o AO90 mostrou plenamente que não sabia o que estava a fazer), sem consultas alargadas, sem debate e discussão públicos, sem estudos prévios públicos e publicados, sem argumentos de peso e sem, acima de tudo, se acautelar o interesse nacional, que, no caso vertente, não reside alhures, p. ex. em terras de África ou de Vera Cruz. A matriz greco-latina lexical da língua portuguesa há muito que foi desfigurada por decreto (e cá estamos escrevendo): é argumento que não vale um caracol na presente controvérsia e só serve para alimentar a imagem negativa que os acordistas gostam de dar a quem lhes faz frente.

 

Escreveu Millôr Fernandes sobre o AO90: «O Acordo Ortográfico é uma merda.» Chega. Não é preciso mais nada.

 

António Emiliano (aqui em versão mais extensa)

19 comentários em “Razão tinha o Millôr”

  1. Ana, está duplamente equivocada.

    1.
    As mudas dos exemplos que dá não foram suprimidas pela “convenção” de 1945. Foram suprimidas unilateralmente em Portugal em 1911. Depois desse ano, e durante mais de 30 anos, no Brasil essas e outras mudas, assim como os ch, ph e rh de origem grega continuaram a ser usados.

    2.
    É um sofisma imaginar que os ac, ec e oc que cita sejam grafemas. Não são. Esse erro acenta na falsa suposição de que consoantes mudas abrem vogais. Não abrem. Nunca abriram, nem quando a ortografia portuguesa era vagueava entre a fonética e a etimologia simplificada, nem quando passou a ser etimológica clássica (pouco antes de 1700), nem quando passou a ser etimológica simplificada (1911).

    Exemplificando:
    -qual é a relevância fonética de um c mudo em atriz, actuar, exactidão?
    -e porque perderam mudas em 1911 palavras como occasião, occupar e tantas outras, e continuamos pronunciar aquelas vogais abertas?
    -e porque dizemos especular, distração, inflação, obrigado com átonas abertas sem ajuda de mudas?

    Repare que se a ortografia fosse a condicionante fundamental da pronúncia, como é que conseguimos pronunciar ‘muito’ com ui nasal se nada na ortografia indica a pronúncia correta?
    E porque é que eu, que sou lisboeta, digo “pâxe”, a sul do Tejo diz-se “pêxe” e escrevemos todos “peixe”?

    A pronúncia é uma herança adquirida entre os 1 e os 4 anos, antecede a ortografia e sobrevive a ela.

    Não se preste a ser pasto do lobby dos maus tradutores, nem de velhinhos rabujentos, nem de gente xenófoba, nem tão pouco de atrevidos que dão palpites sobre ortografia sem sequer saberem quando caíram consoantes mudas.

    1. P. Porto, caso não tenha reparado, este post é uma citação. Com a qual concordo inteiramente, devo dizer. E já agora: antes de classificar o autor de “atrevido que dá palpites sobre ortografia sem sequer saber quando caíram consoantes mudas”, sugiro que vá informar-se melhor sobre quem é António Emiliano. Não é difícil.

      1. P.Porto, não publiquei o seu último comentário porque é claramente ofensivo para com o autor do texto que cito, e eu não faço eco de campanhas pessoais. Se quiser que eu publique os seus comentários, vai ter de respeitar os outros.
        Seja como for, registo aqui a emenda que fez à gralha do seu texto, apesar de não ter importância nenhuma.

        1. Ana, não concordo nada consigo quando diz que o meu comentário foi ofensivo. Ser afoito não é ser ofensivo, mas, como é evidente, a casa é sua, o critério é o seu.

          De resto, note é por causa da crença em “especialistas” que hoje estarmos como estamos como país. Foram os especialistas das PPPs, os especialistas do investimento público, os especialistas do eduquês, os especialistas do SNS, os especialistas das reformas altas para todos, os especialistas dos aeroportos, etc, etc.
          Claro, não existiriam os resultados das obras especializadas dos especialistas sem os parolos que aceitam os pareceres dos especialistas por mais que seja evidente que as suas opiniões especializadas não correspondem aaquilo que o mais sensato dos mortais pode observar ou discorrer.

          Bom, assim ja dah pra publicar?

          1. Sim, assim já dá para publicar. Mas, ou o significado de “afoito” também mudou com as novas regras do AO (e eu não sabia de mais esta alteração) ou o seu grau de tolerância a ofensas é claramente mais alto do que o meu. Seja como for, é engraçado que se insurja contra especialistas. Foram precisamente os tais especialistas (mas os do lado que defende, neste caso) quem criou esta aberração ortográfica, que o mais sensato dos mortais percebe que só serve para confundir ainda mais quem tenta aprender português com alguma qualidade.

          2. Pois, mas olhe q uma das coisas q as pessoas anti-AO dizem eh q os “especialistas” estão todos contra o AO, e que o AO não foi feito por especialistas. Portanto, aqui tem mais uma contradição (de tantas) do anti-AO.

            Ainda sobre o seu comentário final; há tempos lia um comentário de professor de português p/ estrangeiros que tinha uma opinião contrária aa sua. Ele dizia q o problema era explicar aos alunos pq motivo ‘actuar’ tinha um c etimológico sem valor fonético, e ‘contratar’, que pelas mesmas razões também deveria ter, não tinha. Com o AO, esse tipo de incongruência acabou.

          3. Com o AO, acabaria (e não “acabou”, porque a guerra ainda não está ganha) muito mais do que isso, P. Porto. Mas já ambos percebemos que não existe concordância possível entre nós neste assunto. Poderia contrapor à opinião do seu professor a opinião contrária de outro professor, e ficaríamos nisto eternamente. Não vejo grande utilidade nisso, confesso. Seria útil, isso sim, um referendo nacional, para sabermos o que quer a maioria dos portugueses.

          4. Sim, Ana, nisso estamos de acordo, as discussões pró e anti AO há muito passaram a conversa surdos ao telefone. (e o tal professor não era meu).

            Quanto ao referendo, penso q a popularidade da objeção ao AO eh muita, pelo q deve ser fácil a quem se opõe ao AO obter alguns milhares de assinaturas pra levar o assunto ao parlamento. Se começarem hoje, em um ou dois meses conseguem, atendendo à força e a relevância nacional que a causa anti-ao tem. Então porque é que não o fazem?

    2. E porque é que eu, que sou lisboeta, digo “pâxe”, a sul do Tejo diz-se “pêxe” e escrevemos todos “peixe”? LOL. Que argumento assassino.

  2. Este artigo tem uma coisa que o distingue de centenas que já li sobre o acordo: a gente lê e percebe que o Autor sabe do que está a falar.
    Coisa rara neste país.

  3. Gostei, mas discordo da ideia de que não é um problema etimológico. Eu considero que sim, que é MAIS UM problema – a referência etimológica é mais útil na aprendizagem das palavras do que a facilidade imbecil de a aproximar ao modo como é pronunciada que inclusivamente cria confusões com palavras homófonas… etc… etc. A batalha dos argumentos está ganha. O Accordo é uma merda e não vai vingar.

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