Quem arrisca uma legenda? (3)
Ana Vidal,

O que me choca não é o strip da senhora. Cada um tem de fazer pela vida e ela sabe que tem de mostrar o que vale… enquanto tem o que mostrar. A concorrência é muita, não perdoa e é mais nova.
Não, o que me encanita é mesmo a Visão, uma revista que eu até respeitava. Havia necessidade deste título miserável? E do teaser rasca: “O que irá ela mostrar em Coimbra, no dia 24?”?. E ainda, a coroar o nível disto tudo, das edificantes tags a classificar a notícia: “madonna, Roma, rabo, seio, mama, Coimbra, concerto”?

Raul Nery (10 de Janeiro de 1921 – 14 de Junho de 2012)
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Durante trinta e quatro anos detentor do pouco edificante título de “maior lixeira a céu aberto da América”, o Jardim do Gramacho vai finalmente ser encerrado. E fá-lo mesmo a tempo de não envergonhar os brasileiros no Rio+20, a conferência internacional sobre o ambiente que este ano se realiza no Rio de Janeiro – exactamente a cidade onde se situa este mal amado “jardim” – marcada já para o próximo dia 20 de Junho.
Mas até numa lixeira pode nascer a arte. Este estranho e especialíssimo cosmos, policiado apenas por temíveis urubus, onde uma população residente de “catadores” e suas famílias disputa diariamente o seu tóxico habitat com todo o género de indesejável bicharada, foi o cenário inspirador para várias obras do artista plástico Vik Muniz*, a que ele chamou “Lixo Extraordinário”. Usando os residentes do Gramacho como modelos no seu cenário natural, Vik fotografou monumentais composições que depois expôs em vários países (em Lisboa a exposição esteve por vários meses no CCB). O originalíssimo trabalho, que alia a arte à consciência social através da denúncia de uma situação pungente, despertou enorme curiosidade e foi muito premiado. Dessa obra ficou, como registo, um documentário que vale a pena ver. Aqui fica o trailer, mas todo o documentário pode ser visto na net.
Vale a pena ler esta “redacção” da escritora Teolinda Gersão sobre o actual ensino de português nas escolas. E sobre os atropelos assassinos que, ao abrigo de um acordo idiota e sem sentido, as novas gerações se preparam para fazer à sua língua.
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção – agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).
Teolinda Gersão, Junho, 2012
Adenda: A pedido da autora, aqui fica o artigo completo.
Acabadinho de chegar – de bicicleta – à blogosfera, anuncia-se assim o Cabeça de Cão, o novo blogue pessoal da nossa amiga Eugénia de Vasconcellos. Depois do saudoso Mátria Minha e de duas experiências colectivas (uma delas de além-túmulo), a fasquia é alta para esta cabeça canina. Mas, como garante a própria Eugénia, “can´t you see it´s possible?” Of course it is. Quem duvidaria?
Cá estaremos para lê-la, mam’selle. Muitos posts de vida!
Mais uma proposta de imagem para ser legendada. Vá lá, delituoso leitor, seja criativo.
Desta vez o prémio fica em casa, apesar do sortido rico de sugestões (cada vez melhores, aliás). É que a legenda da Patrícia é irresistível:
“Andei dias a mirar-te, sabes? Trabalho ali, no escritório mesmo em frente, e tenho-te visto. Hoje pensei que podia resgatar-te da montra e levar-te para casa. Ficarás no lugar que a minha mulher costumava ocupar. Ela não se importa. Foi-se embora sem dizer nada e, a mim, custa-me ver o sofá vazio. Gosto de chegar a casa para alguém.”
“Em nome da Selecção entrego-lhe esta camisola, e convidamos você para ir assistir a um jogo, tá?”
Cristiano Ronaldo para Cavaco Silva, agora mesmo. Ah, valente.
Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Ernesto “Che” Guevara. Cuba, 1960.
Nota explicativa: A partir de hoje, e uma vez por semana, aqui aparecerão imagens (históricas ou simplesmente curiosas) que pedem uma legenda ao engenho e arte dos leitores do Delito. Não se trata simplesmente de identificar personagens – a identidade de algumas é óbvia, de resto – mas sim de interpretar, com palavras, aquilo que a imagem sugere a cada um. É apenas um desafio à imaginação dos nossos leitores. No fim do dia de terça-feira haverá alguma informação sintética sobre a imagem, sempre que for caso disso, e será eleita a melhor legenda. Aqui está a primeira imagem. Quem aceita o desafio?
“A náusea!” (Nelson Reprezas), foi a legenda vencedora. Mas houve outras excelentes. Obrigada a todos pela participação!
Tu éve gud uáine uí nid gud córque. A gud cambinaixon.
Tu éve gud cantri uí nid gud présidant. Argent.
Contrariando olimpicamente a ancestral aversão nacional à alegria, os presságios de pestes negras, misérias pardas e um sortido rico de desgraças a bater-nos à porta (para não falar das que já se instalaram, abusadoras, nos nossos descoloridos sofás, pagos a prestações em tempos de vacas anafadas), as estatísticas e previsões de arrepiar os cabelos a quem ainda os tem, a troika, a crise do euro, as escandaleiras para todos os gostos, a falência da segurança social, a lamúria das salas de espera dos centros de saúde, o galope do desemprego, o tédio da conversa de políticos e economistas, as trapaças dos chicos-espertos, a miséria dos programas televisivos, as íntimas misérias de condes de papelão e estrelas (de)cadentes, o fado choradinho de faca e alguidar, o copo-de-três mal medido, o cheirinho, o mata-bicho, a bica pingada, a fome envergonhada, a fome sem-vergonha de poder e lucro, o crédito mal parado, a justiça parada de vez, o imparável apertar do cinto… ah, eles aí estão, indiferentes a tudo, vestindo as ruas de um azul descarado e eufórico. Azul-alfazema, azul-Quénia, azul-violeta, azul-lavanda, azul-anil, azul-lilás. Eu chamo-lhe azul-Leonor, como me ensinou a minha avó. A minha cor favorita.
Texto já publicado aqui (actualizado)
SÍSIFO
Depois da notícia arrasadora, o homem obrigou-se a subir, sem uma única paragem, os dezanove lanços da escada de serviço. Foi aumentando o ritmo da escalada até ficar sem fôlego. Precisava de se aturdir, de dar ao coração uma outra razão para bater como uma bomba em contagem decrescente. Mas não bastou. Chegou ao topo com vontade de recomeçar tudo, uma e outra vez. Espreitou o elevador. Desceria nele e retomaria a penosa marcha da subida tantas vezes quantas fossem precisas para que o cansaço vencesse a angústia que o esmagava. Havia de conseguir ter paz. O elevador estava no rés-do-chão, podia ver-lhe o tecto sujo no fundo do fosso imenso, escuro. Hesitou um segundo, não mais. Não premiu o botão. E foi por ali mesmo que desceu, afinal.
Numa experiência inédita para aproximar a monarquia inglesa do povo, o príncipe Carlos de Inglaterra apresentou a meteorologia na BBC. Seguiu-se-lhe Camila, com mais nervos e menos graça.
Nada de novo para nós, afinal. Sir Passos Coelho e master Gaspar passam a vida a anunciar-nos raios e coriscos, e lady Cristas até vai mais longe: não só nos fala do tempo como tenta dominá-lo com orações.