Abelardo e Heloísa
Ana Vidal,
“Fui eu quem o matou e nunca me descobriram. A ninguém passou pela cabeça que eu tivesse feito aquilo. Foi um crime limpo, perfeito, tão bem engendrado que ficou impune.
Já lá vão vinte anos e ainda hoje ninguém se atreveria a deitar-me as culpas, e muito menos pensar em meter-me na cadeia. Nunca ninguém poderá dar-me castigo e, como não acredito na outra vida, tão-pouco tenho medo do inferno.
Se hoje faço esta confissão, é porque me parece mais indecente continuar a viver com esta imagem que tenho, de boa pessoa, do que o próprio facto de o ter assassinado.
E tudo porque ninguém conseguiu descobrir que tipo de arma usei. Foi tão subtil, tão engenhosa, que parecia um morto de morte natural. Não deixei nem rasto: matei-o com a minha estupidez.”
(A arma homicida, um dos “Contos – Dúzia e Meia Deles”, da escritora asturiana Aurora Garcia Rivas. Tradução de Daniel Gouveia)
Ando fascinada com a escrita desta mulher prodigiosa, que conheci pessoalmente há dias em Gijón – onde estive a convite do Festival Arco Atlântico – e de quem fiquei amiga. Um dia destes falo aqui dela, da sua história surpreendente e dessa meia dúzia de dias mágicos nas Astúrias. Para já, fica este aperitivo.)
Legenda vencedora da imagem da semana passada:
“Bolas… porque é que eu não nasci na época desta gente?” (Anónimo)
Hoje houve um fogo na serra de Sintra. Mais exactamente na Quinta da Capela, propriedade da marquesa de Cadaval, uma das mais importantes mecenas das artes que este país já conheceu. Pois bem: fiel defensora do modelo laico e republicano em que vivemos, a repórter da SIC N que veio fazer a cobertura do acontecimento não esteve com meias medidas e matou dois coelhos (a igreja e a aristocracia) de uma só cajadada, anunciando assim o sucedido nas notícias da noite: “Incêndio em Sintra, na quinta do Cadaval“. Nada como um espírito prático.
Quando perguntaram a Churchill quanto cortaria na cultura em nome da austeridade, a resposta foi esta: “Nada! Se cortássemos na cultura, o que nos faria lutar a seguir?”
Em Portugal, a verba para a cultura não chega sequer a 1% do Orçamento de Estado. Dispensamos um Ministério (bah, para que servem essas esquisitices?) e mesmo a Secretaria de Estado deve estar em hibernação prolongada, porque nunca mais deu notícias. Obcecados com a austeridade, os nossos governantes parecem não perceber uma coisa tão simples como isto: um país sem uma sólida identidade cultural e um ensino de qualidade não pode evoluir, não tem futuro. Muito menos numa Europa agonizante e dominada pelos gurus da economia. Talvez seja esta, afinal, a explicação para a nossa tão falada imobilidade: não temos por que lutar.
Nota: Eu sei, Woody, passo a vida a roubar-te os títulos. Desculpa lá o abuso.
Adenda: Nem de propósito, este impressionante desabafo que encontrei aqui. Sintomático.
Há dois erros que procuro não fazer, embora nem sempre com os melhores resultados, sobretudo no que toca ao primeiro: cair em generalizações perigosas e dividir o mundo em dois blocos, a direita e a esquerda. Nada é assim tão taxativo, há muito que aprendi essa regra básica. Mais: faço questão de aplicá-la a mim própria (correndo o risco de ser considerada incoerente, coisa que não me incomoda nada) e diverto-me a fintar os infalíveis vedores do pensamento político alheio. Mas – e é aqui que começam as generalizações – tenho de admitir que há tiques que facilmente identificam cada uma das barricadas nas suas versões mais radicais: à direita, uma espécie de desprezo blasé por tudo o que pareça ter sido conquistado com esforço; à esquerda, o apego arrogante ao estafado baluarte da superioridade intelectual.
Tive hoje mais uma demonstração deste último, que me deixou a pensar em como a esquerda continua a considerar-se dona e senhora da cultura neste país. Não é que eu não reconheça alguma legitimidade histórica nessa pretensão, afinal a direita sempre teve a seu desfavor uma tradicional preguiça e as limitações impostas pela religião. Mas aquilo de que a esquerda parece não dar-se conta, ao refugiar-se no seu inatingível Olimpo cultural, numa atitude que tem tanto de elitista como de preconceituosa, é da negação liminar de um dos seus mais caros cavalos de batalha programáticos: a democratização da cultura.
Sofia Aparício, num generoso e importante contributo para a solução dos problemas do país.
Uma grande canção, mil vezes ouvida ao longo de uma vida, pode ser o pior inimigo de quem faz… canções. Não, não estou baralhada. É que um clássico, uma canção de que gostamos muito, vai muito mais longe do que ficar-nos só no ouvido. Como canta o Chico na sua “Terezinha” (uma canção maravilhosa, a propósito), a melodia “instala-se feito posseiro” nos interstícios do nosso património musical e emocional, colando-se-nos irremediavelmente à pele e tornando-se nossa para sempre. Essa invasão amiga do inconsciente pela música é um fenómeno comum, e não é por acaso que determinadas sequências musicais nos evocam de imediato lembranças (boas ou más, mas sempre ligadas às emoções) a que estão associadas.
Para quê toda esta introdução? Para vos lembrar de que, se isso acontece a todos nós, mais facilmente acontece a quem faz da música a sua vida. Por excesso de exposição e interesse permanente, a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e “acredita” estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Esta é a explicação mais lógica para os muitos casos de plágio inconsciente, alguns deles já relatados nesta série, que atingiram compositores da craveira de Paul Simon, George Harrison, Mark Knopfler, Sting, John Lennon, etc, para já não falar nos compositores da chamada música erudita. Claro que não é por falta de criatividade própria que todos eles caem no logro da “cópia”, mas, quase sempre, devido à traição dos sentidos.
O caso que vos trago hoje é nacional, e por isso mais delicado: envolve músicos que conheço bem e respeito, que já nos deram inúmeras canções dessas que forram o património musical que gostamos de preservar. Falo de João Gil (Luís Represas é apenas intérprete nesta canção, segundo a informação da editora). Falo ainda de João Monge, um grande letrista português, porque também na letra há uma coincidência espantosa. A canção em causa é recentíssima – faz parte do último álbum de originais que Gil e Represas gravaram em Novembro de 2011 – e chama-se Quando eu voltar a nascer. Pois é, o título parece premonitório. Logo que a ouvi pela primeira vez, a melodia dos couplets soou-me a alguma coisa conhecida, de tal maneira que foi fácil trauteá-la e adivinhar-lhe os acordes sem nunca a ter ouvido antes. Não tardei a identificar a semelhança: havia uma terceira voz por detrás das vozes do João e do Luís, e essa voz era a do Caetano Veloso. Cantava, só para mim e em uníssono com eles, o seu terno e eterno Leãozinho. E o leãozinho voltou a nascer nesta canção.
Aqui estão os dois videos para o vosso próprio julgamento, porque às vezes penso que estou a ficar “apanhada” por este meu ouvido implacável. Acrescento uma curiosidade: reparem em como a palavra “entristecer” (na letra de João Monge) cai praticamente no acorde que corresponde, na letra brasileira, à palavra “desentristecer”. Que las hay, las hay.
Legenda vencedora da imagem da semana passada:
“- This is a «man’s field»!
… ou «quem serve esta mesa sou eu!», diz o homem de fato cinzento ao empregado do fundo.”
(do nosso comentador Da Maia)
Sophia Loren e Jayne Mansfield
Com propostas cada vez mais imaginativas, vai sendo difícil escolher uma única vencedora. O prémio da imagem da semana passada vai para duas legendas, ex-aequo:
1. “– Honestly Hitch? I loved the way you threw a lavish dinner party and served only blue food. Darn right. That’s really a Pop Art masterpiece.” (Rita Vasconcellos)
2. “…i only hope that cinema will not evolve like painting…” (Lucklucky)
On aura tout vu, diria a minha avó, benzendo-se. Mas enfim, é bem possível que a Cristoteca de Fátima (só o nome já é de bradar aos céus) venha a ser um sucesso: a “evangelização corpo a corpo” é um programa que promete, convenhamos, sobretudo depois de alguns shots de hóstia.
Adenda: Chegou à redacção do Delito este video da inauguração da Cristoteca.

“Mas não tenhas gosto em frisar com ferro o teu cabelo, nem rapes, com a aspereza da pedra pomes, as pernas; deixa que façam isso aqueles por quem a mãe cibeleia é celebrada ao som de cantos ululantes. Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens.
A filha de Minos, Teseu a levou, sem ter a cabeça enfeitada com qualquer gancho. Hipólito, Fedra perdeu-se de amores por ele, e ele não era muito elegante. Paixão de uma deusa foi Adónis, afeiçoado aos bosques.
É a limpeza que deve dar prazer, revele o corpo a pele tisnada no Campo de Marte; esteja a toga apresentável e sem nódoas; não deve usar-se calçado ressequido e não haja ferrugem nas fivelas, nem ande o pé a nadar, desengonçado, em pele largueirona; nem dê mau aspecto a cabelos enrijecidos um corte mal feito; sejam cabelo e barba aparados por mão firme; as unhas não devem dar nas vistas de compridas e devem estar limpas; no nariz não deve haver qualquer pêlo; não saia mau hálito de uma boca malcheirosa, nem atinja o nariz dos outros o fedor do macho e do pai do rebanho.
Quanto ao resto, deixa-o por conta das mulheres dadas ao prazer ou de qualquer homem que tenha o vício de possuir outro homem.”
(Ovídio, in A arte de amar)