Austeridade extrema


Ana Vidal,


Está explicado o despedimento de tantos professores do ensino secundário. O novo modelo de professor para época de austeridade é este: de tanga e acumulando disciplinas. Esta professora, por exemplo, dá aulas em simultâneo de Geografia, História, Biologia Marinha e Educação Sexual.

Just for the record (2)


Ana Vidal,

 

Tal como o José Gomes André, também eu faço questão de manifestar o meu desacordo com o rumo que este governo está a tomar. A diferença é que eu teria ido à manifestação, só não o fiz porque não me foi mesmo possível. O que não significa que subscreva o lema “Que se lixe a troika”, que  me parece irresponsável e infeliz. Eu não quero que a troika se lixe, porque seria o mesmo que dizer que quero que a troika nos lixe. Mas, sendo certo que a alternativa ao cumprimento das imposições da troika seria ainda mais desastrosa para o nosso país, com duras consequências a curtíssimo prazo, a verdade é que há sempre alguma margem de negociação e este governo não está a utilizá-la. Esta atitude “mais papista que o papa” tem-se traduzido num esmagamento social intolerável e numa enorme cegueira a todos os indicadores de alarme. Cortar as pensões aos reformados não é retirar-lhes benesses porque os tempos estão maus, é recusar devolver-lhes o seu próprio dinheiro, que entregaram ao Estado confiando numa gestão capaz de assegurar-lhes uma terceira idade tranquila.

 

E também não quero que caia o governo. A última coisa de que precisamos neste momento é o caos que seria uma crise política, a somar a tudo o resto. Espero é que os responsáveis pelo destino das nossas vidas a curto prazo percebam que o significado de tantos milhares de pessoas nas ruas em protesto por todo o país não pode ser ignorado. Somos pacíficos, mas não estamos dispostos a aguentar tudo de cabeça baixa.

 

A pólvora


Ana Vidal,


O António Sala está muito preocupado com a crise mundial. Cada vez vê o mundo em maiores dificuldades financeiras, diz ele, e a falta de poder de compra deixa-o angustiado. Mas não desesperem, amigos, ele tem a solução milagrosa para todos estes males. Poupar ao máximo? Trabalhar mais por menos dinheiro, à espera de melhores dias? Esquecer sonhos e projectos por uns anos? Assaltar bancos? Nada disso. A solução é simples: investir em barras de ouro. Nunca falha. Temos todos de agradecer-lhe esta ideia luminosa. Sem ele, como iríamos saber o que fazer aos rios de dinheiro que todos temos a mais?

Não há coincidências (20)


Ana Vidal,

Supunha eu que a prática do plágio é recurso de quem não tem talento próprio. Estava redondamente enganada, como têm provado à exaustão as pesquisas que vou fazendo para documentar esta série. Nomes de talentos consagradíssimos, tanto na música erudita como na ligeira, deixaram-se tentar pelo facilitismo ou pela preguiça de copiar melodias de outros, mesmo tendo capacidade de sobra para produzir os seus próprios êxitos. Em alguns casos, é muito possível que estejamos em presença de uma influência insconsciente, uma traição dos sentidos. Noutros, por maior que seja a nossa boa vontade, é impossível aceitar tanta coincidência sem acreditarmos em malévolos poderes ocultos…

 

O caso de hoje pertence claramente à última categoria. Quem mo deu a conhecer foi precisamente um leitor do Delito, na caixa de comentários do post anterior desta série. Gostaria sinceramente de acreditar tratar-se de uma dessas traições do subconsciente, até porque envolve uma parceria com Rui Veloso, por quem tenho grande, enorme consideração. É um dos meus músicos portugueses preferidos de sempre e autor de dezenas de canções de qualidade indiscutível, que fazem parte do património mais valioso da nossa música ligeira. Se ele foi apenas um convidado dos Per7ume para fazer este dueto no seu álbum de estreia, em 2007, a responsabilidade não pode ser-lhe atribuída. Por mais que procurasse, não consegui apurar se é ele ou os Per7ume quem reclama para si a autoria da música. Mas, mesmo não sendo Rui Veloso… será que ele não deu pelo gato? Até hoje, nunca ouvi ou li qualquer comentário seu sobre o assunto. Nem dos maiores beneficiados desta canção batoteira, que guindou o grupo para a fama em tempo record a ponto de ter sido eleita como “tema do ano” no Top de Rádios Europeu, feito nunca antes alcançado por um artista português. Os Per7ume foram ainda nomeados para os Globos de Ouro em 2009 como “Banda Revelação do Ano” e para os prémios EMA, da MTV, na categoria “Best Portuguese Band de 2010”. Com tanto e tão meteórico sucesso, nunca mais pararam. Bem podem agradecer a Alanis Morissette.

 

Não, neste caso não há desculpas. Qualquer ouvido sem acuidade especial detecta a semelhança melódica, que é óbvia e longa. Nem sequer o ritmo foi alterado. Em causa estão as canções Your House, o original; e Intervalo, a cópia. É inegável que a casa é de Alanis, já que foi “construída” em 1995 (a canção pertence ao ábum Jagged little Pill, o segundo álbum mais vendido na década de 90, só ultrapassado por Baby One More Time, de Britney Spears). Mais de dez anos depois, o intruso foi o grupo Per7ume, aproveitando um Intervalo e entrando na casa à socapa. “Went through your drawers / And I found your cologne”, diz a letra de Alanis. Pois aí está a confissão do crime: este perfume é roubado.

 

 

Ficam ambas as canções à vossa apreciação. Por mim, “não tenho dúvidas e raramente me engano”, como diria um reformado bem conhecido da nossa praça.

 

 

Delito à mesa (3)


Ana Vidal,

 

Nasceu há exactamente 25 anos, com a modesta intenção de servir sandwiches aos veraneantes de uma praia bonita: a praia de S. Lourenço, concelho de Mafra, quase pegada com a Ericeira. Mas o destino deste Golfinho Azul era saltar mais alto, mais longe. Reinando sobre a escarpa magnífica e com uma vista de cortar a respiração – “Temos um dos pores-de-sol mais bonitos do mundo”, afiança-me Mena, a dona da casa, e não me custa nada dar-lhe razão – o Golfinho chama os banhistas e é incentivo suficiente para a empreitada de subir os 150 degraus que vão a pique desde a praia até este terraço mágico, promessa de bons petiscos e sensações fortes. Aos poucos tornou-se romaria certa para amigos e curiosos, e foi assim que a ementa se foi aprimorando. À noite virava bar, ou não fosse músico (além de pintor) um dos fundadores, apaixonado por sons de blues e jazz vindos de outros ambientes igualmente azuis, o mítico Blue Note. As noites ganharam fama e o Golfinho tornou-se poiso certo de músicos e artistas bem cohecidos. Para dar só um exemplo, ali nasceram algumas das belas composições de Rodrigo Leão. 

 

Mas voltemos aos comes e bebes, que é disso que trata esta série. O Golfinho Azul tem hoje uma ementa variada e apetecível (a especialidade é obviamente o peixe, embora haja bastante variedade de pratos de carne também) a preços perfeitamente razoáveis. O preço médio de uma refeição completa – sopa/entradas, prato, sobremesa e vinho da casa – rondará os 25 €. Recomendo o que me leva lá desde que descobri este restaurante, além da simpatia do serviço e da vista deslumbrante: umas cenourinhas à algarvia muito bem temperadas, a sopa de peixe, depois a moqueca ou o caril de gambas. As sardinhas são também um must da casa, e há pratos vegetarianos para quem conseguir resistir aos sabores e cheiros do mar.

 

Costumo ir almoçar mas, se puder, apareça por lá ao fim da tarde e deixe-se transportar para outra dimensão com o tal pôr-de-sol único. Vale a pena. Depois jante e, se for sexta-feira, fique para uma das jam sessions com os convidados de Naná Sousa Dias. Ao sair, não deixe de procurar a Mena Almeida e dizer-lhe um adeus personalizado. A casa faz questão em cultivar a proximidade com os clientes, e esse é um dos segredos de tanto sucesso ao fim de um quarto de século de existência.

 

Notas:

 

1. Tem estacionamento próprio e fácil.

2. Fecha à segunda-feira.

3. Tem 120 lugares, entre interior e esplanada.

4. Sessões de música ao vivo às sextas-feiras (noite), de 15 em 15 dias.

 

Restaurante Golfinho Azul

R. das Ribas, S. Lourenço

2640-254 Mafra

T: 261 862 945

Num dia como o de hoje


Ana Vidal,

“A poesia não quer adeptos, quer amantes”.

 

Federico Garcia Lorca, o homem que amou a poesia acima de tudo, morreu há 75 anos. Foi fuzilado a 19 de Agosto de 1936, aos 38 anos. Pouco tempo antes, tinha dito a um amigo: “Sinto uma grande inquietação. É uma inquietação de viver, como se amanhã me fossem tirar a vida”.

Leituras


Ana Vidal,


(…) “E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida”. (…)


[Inspirada pela série que o Pedro Correia começou agora sobre escritores que nunca receberam o Nobel, lembrei-me deste maravilhoso conto do nosso (único) laureado, texto que só descobri há pouco tempo numa viagem ao Brasil. Impossível não se ficar rendido. Tem tudo o que deve ter um grande conto, e mais aquilo que só têm os textos excepcionais: universalidade, clareza, simplicidade, mensagem, densidade. Apesar de eu não gostar de tudo o que Saramago escreveu, e de nunca mais um livro dele me tivesse encantado tanto como o Memorial do Convento, afirmo convictamente que este pequeno conto bastaria para justificar o prémio.]

 

Um século de Jorge (muito) Amado


Ana Vidal,

No dia em que Jorge Amado faria cem anos, aqui fica, em jeito de homenagem, este terno testemunho da sua filha Paloma. A pintura é dela também, que à família nunca faltaram talentos. Filha de peixe – e de sereia – sabe nadar como ninguém.

Parabéns Paloma, Janaína, Cecília, Ricardo… e a todos os Amados e Ramos que (ainda) não conheço. Hoje é um dia muito importante para mim também, que cresci a descobrir o Brasil pelas mãos desse nosso Jorge tão Amado.

“Nada como a consciência de nacionalidade. Bund, em alemão, quer dizer “nacional”. Daí que passando 6 dias inteirinhos em Berlim – maravilha!, voltarei um dia com certeza – me senti em casa. O que não me falta é bund… a! Nacionalidade! Brasilidade! Mestiçagem! Sou branquinha? Que nada! É so ver o exagero de bunda e nariz que tenho, este último da mulatice de meu avô João Amado. A avó Lalu a tinha xoxa… claro, era índia Pataxó. Nada contra, apenas não puxei a ela. E as curvas, donde vieram? Da italianiedade de mamãe. Quando papai a dizia mulata, ela contestava com toscanos e vênetos. E Otelo?, ele dizia em tom de pergunta, em meio a rizadas. Fui refletir sobre minha mestiçagem em Berlim. A bunda grande, minha nacionalidade de mestiça brasileira.

Hoje, trocando roupas da mala para voar para Bahia, comemorar amanhã, na nossa casa , os 100 anos de papai, encontro estas anotações que fiz no avião. Publico em homenagem àquele mestiço de cristão novo (judeu-árabe!), negro e índio, que foi o meu pai tão querido. O senhor Jorge Ahmad, como um dia me disse o adido cultural do Iraque: “ele é árabe e nós temos muito orgulho disso”. Eu não diria tanto, melhor dizer Pedro Archanjo, que achava bonito mulher de bunda grande, meu pai. E viva 10 de agosto!”

Blogue da semana


Ana Vidal,

 

Em época de leveza e ainda embalada pelos ares das Astúrias, aqui fica esta sugestão divertida e irónica que me chegou pela mão da jornalista, escritora e amiga Rosa Montero. O blogue da semana é uma espécie de associação de escritoras… Mal Educadas, mas só no bom sentido da palavra: o da irreverência. Espero que vos divirta um pouco, que os tempos andam negros.

 

E agora, se me dão licença, vou uns dias de férias.